“Há sempre um elo muito forte, um nexo essencial, reciprocamente constituído, entre o pensamento e o pensador. É aí, nesse ponto, que se coloca a raiz da causa principal, da tarefa básica da inteligência, diante da qual são desafiados a verem-se o sociólogo e os outros Cientistas Sociais. O que devemos fazer não é lutar pelo Povo. As lutas, tarefas intelectuais, possuem outro calibre: devemos colocar-nos a serviço do Povo brasileiro, para que ele adquira, com a maior rapidez e profundidade possíveis, a consciência de si próprio e possa desencadear, por sua conta, a revolução nacional que instaurem no Brasil uma ordem Social democrática e um Estado fundado na dominação efetiva da maioria” (Florestan Fernandes, In Memoriam). Homenagem dos formandos 1996/2, de Ciências Sociais do ICHL/UFAM.
Em meados dos anos 1980, os universitários que chegavam ao Instituto de Ciências Humanas e Letras (ICHL), da Universidade do Amazonas (hoje UFAM), estudavam CULTURA BRASILEIRA com o “Mestre Renan”, como era chamado. Tanto as suas aulas quanto os temas curriculares eram espetaculares. Os estudos/debates giravam em torno de assuntos como: o carnaval, a feijoada, literatura de cordel, o samba, o frevo, entre outros.
O Mestre em questão era o sociólogo, pesquisador e escritor Ernesto Renan Melo de Freitas Pinto (82 anos), nascido em Maceió em 1943. Desde jovem era um apreciador de livros. Herdou com o pai o gosto pela leitura. Em sua casa havia muitos obras, inclusive amazônicas. Coleções de Machado de Assis, Jorge Amado, Graciliano Ramos, entre outros autores. “Seus familiares eram músicos, literatos e intelectuais amazonenses” (1).
Em Maceió, estudou no Colégio Presbiteriano. Foi morar em Fortaleza. De lá veio para Manaus. Aqui, cursou o antigo 2º grau no Colégio Dom Pedro II – o Estadual. Graduou-se em Letras, Língua e Literatura Inglesas, na UA, de 1969/1972. Depois fez vários cursos de especialização/aperfeiçoamento fora do Amazonas. Em 1974, iniciou na mesma UA como professor auxiliar; em 2001 passa a ser professor titular; e, em 2023, como emérito. Desde 2012, é membro da Academia Amazonense de Letras. A partir de 2013 está aposentado como professor.
Em 1982 iniciou mestrado em Sociologia na UFRGS; de 87 a 92 fez o doutorado em Ciências Sociais pela PUC/SP, com a tese “Florestan Fernandes e a formação do Brasil”, tendo como orientador Octavio Ianni. De 2011 a 2012, fez Pós-doutorado na USP. Assim, adquiriu uma vasta experiência em Sociologia e temas interdisciplinares como: “Amazônia, pensamento social, história das ideias, teoria sociológica, Sociologia Brasileira” (1). Além de tópicos afins, entre eles “Teoria Crítica” e “Sociologia da Literatura” (literatura latino-americana, com abordagem sobre: violência, selva, opressão social, etc). Recomenda o estudo de autores regionais contemporâneas, entre eles Márcio Souza e Milton Hatoum.
Sua pesquisa, “demonstra a erudição de Florestan Fernandes, sua busca incessante de diálogos e conexões com a tradição sociológica e com os autores brasileiros, desde os estudos sobre a desintegração dos negros até a discussão da revolução (?) brasileira”(1). Essa é a trajetória da viagem das ideias de Renan Freitas, com a qual já passou por diferentes instituições nas cidades de Maceió, Fortaleza, Manaus, Tóquio, Porto Alegre, São Paulo e Belém. Mas, sem perder de vista “um diálogo com a Sociologia, o pensamento social, e a literatura, buscando utopias, em uma vasta obra, a configurar um erudito sociólogo cosmopolita” (1).

Por ser um estudioso nato da Amazônia, inseriu na dissertação de mestrado, assunto regionais, é óbvio, por exemplo, os Planos de desenvolvimento formulados para o Estado do Amazonas, com destaque para “A economia da juta em região do Médio Amazonas”, ou ainda, “Como se produzem as Zonas Francas, espalhadas no mundo capitalista e ajuda a compreender a Zona Franca de Manaus” (2).
Quando da outorga do título de Professor Emérito, em 2023, a professora Elenise Scherer, sobre o livro “Viagem das ideias” e seu autor, disse: “Renan nos brinda com rica e profunda análise sobre a formação do pensamento social da Amazônia desde a colonização para recompor a constituição e a formação do pensamento social brasileiro na Amazônia […]. A viagem das ideias é, a nosso ver, a sua maior contribuição intelectual acadêmica na Amazônia e fora dela” (2).
Corroborando com o pensamento da mestra Elenise, acima, na Apresentação da citada obra, o doutor em Geografia Humana, o saudoso professor e ex-Reitor da UFAM, José Aldemir de Oliveira, diz: “O livro é lançado no momento em que é feito o exame da contribuição dos viajantes que passaram pela Amazônia, bem como as análises feitas sobre a região, a partir do século XVIII, XIX e início do século XX, são recuperados” (2).
Na entrevista dada à revista Valer Cultural, em março de 2013, Renan nem titubeia ao dizer que o “Brasil pratica neocolonialismo científico”, isto é, “a universidade ainda é colonizada”. Essa é, portanto, a “cara” do ensino superior brasileiro. E, aborda, “como prioridade, as dificuldades históricas que a produção científica enfrenta na Amazônia. Para ele, o Brasil ainda vê a Região Norte pelas lentes do colonizador e, por isso, pratica o neocolonialismo também na área científica. “A nossa condição colonial atrasou a emergência da universidade, por esse atraso estamos pagando até hoje, disse”‘ (3).
Ainda nesse contexto, do atraso científico ora apresentado (e vivenciado) na Amazônia, o entrevistado – em nove páginas de conversa com os dois jornalistas -completa: “No lugar da administração eficiente dos jesuítas, Pombal colocou seus aliados políticos” (3). Ao finalizar, garante: “Quando a Zona Franca foi implantada (na década de 1960), a universidade não teve nenhuma participação”.
Apresentamos aqui, o resumo do resuma das ideias científicas do grande mestre em pauta. Mas, se você quer fazer uma viagem mais profunda sobre o pensamento desse estudioso, consulte, detidamente as três fontes aqui indicadas. Elas são consistentes, principalmente o livro “Viagem das ideias”.
Por Angeline e Francisco Gomes e Winnie Barros.
Fontes consultadas: 1. https;//sociologia.com.br (pelo prof. da UFGRS, José Vicente Tavares); 2. Pinto, Renan Freitas. Viagem das ideias. – Manaus: Valer, 2006; e 3. Revista Valer Cultural (jornalistas Wilson Nogueira e Suelen Reis), Manaus, ano 1, nº 4, março de 2013.