Em 1988, 100 anos da decretação do fim da escravidão no Brasil, a Som Livre lançou o LP “Luz Negra”, com 14 músicas interpretadas por vários cantores. A gravadora diz: “Luz Negra (nacional e internacional) é uma homenagem à raça negra através da sua música no centenário da Abolição. Procuramos selecionar entre os mais representativos compositores e intérpretes da música negra certos, entretanto, de não termos esgotado o assunto. Para isso seriam necessários não dois, mas uma dezena de discos. A todos os ausentes nossa admiração e respeito” (1).
No encarte, o talentoso jornalista carioca Tárik de Souza (79 anos) escreve a seguinte nota: “O negro desembarcou na terra promissora das Américas agrilhoado no porão dos navios. Mas não permaneceu numa posição cultural subalterna. Aos poucos a música negra foi se infiltrando pelas frestas da cultura dominantes até modificar por completo a situação e transgredir a hierarquia de valores estabelecida pelo poder econômico. Hoje é possível contemplar o sólido edifício musical do jazz como um projeto musical autônomo, em permanente reciclagem. O rock nasceu exatamente de um casamento proibido pela segregação racial: o country caipira dos brancos deserdados, entrelaçado ao blues dos negros plantadores de algodão. Partindo da América Central, o calipso, o cha cha cha, o reggae, o mambo, a valsa e as inúmeras transfusões de ritmos calientes e letras perturbadoras alimentam há anos as fornalhas das pistas de dança do mundo todo.

No Brasil, na casa das matriarcas tias baianas aclimatadas no centro do Rio no início do século, cozinhou-se em fogo esperto o que seria uma fusão dos batuques dos terreiros com a umbigada semba, trazida da África. Do trivial variado inicial do lundu, ao sassarico de salão do maxixe até chegar ao samba já infiltrado no sopé dos morros pelos bambas articulados do Estácio. Um ritmo que virou escola, tornou-se identidade do país do futebol e do carnaval: produto industrializado casou-se ao jazz e aos clássicos na exportável bossa-nova, gerada nos apartamentos da metrópoles.
A música negra não ficou no samba apesar de suas inúmeras vertentes de gafieira, terreiro, breque, enredo, canção, partido alto ou exaltação. Do sortido sotaque nordestino ao cancioneiro sulista; das franjas nortistas aparentadas ao merengue aos afro-blocos baianos tireletrizados, há sempre um canto negro em cada ponta do novelo da música nacional. Ancestrais pianeiros, engravatados flautistas, roqueiros de jeans e camiseta; há sempre uma tintura negra a serviço dos timbres mais coloridos do planeta. “Negro é a soma de todas as cores”, já dizia poeta Gil que neste roteiro despacha um reggae indignado contra o apartheid sul-africano. “É preciso ter raça, é preciso ter gana mesmo”, emenda Milton Nascimento com a pungência dos bronzes mineiros. Ou Nervos de Aço como admite, tratando da questão amorosa, o gaúcho Lupicínio Rodrigues através de seu porta-voz (e que voz!) Jamelão.
O clamor de outras vozes – as da seca – ressoa na sanfona do rei do baião Luiz Gonzaga, enquanto Jackson do Pandeiro mistura Chiclete com Banana na mesma proporção em que o inventor da fusão samblues, Jorge Ben, traduz para o jeitinho brasileiro o slogan da era dos Panteras, black is beautiful. Martinho da Vila abre alas para a escola de samba dissidente Quilombo, com um enredo dos escolados Nei Lopes e Wilson Moreira. O poeta Cartola desdobra fibra por fibra o coração da Mangueira, Sala de Recepção do samba de morro. Paulinho da Viola questiona a marginalização do sambista “nessa terra doutor”.
Todas essas veias abertas injetam no canto, no toque, no gesto brasileiro o traço negro: o urbano Djavan (Meu Bem-Querer), mãe Clementina de Jesus em visita à zona rural (Moro Na Roça) e um Pixinguinha à parte do choro, em aliança com o batuque na cozinha do candomblé do ritmista João da Bahiana (Yaô). Claro como o Ébano de Luiz Melodia. Tal como outro bardo de rua, o boêmio Nelson Cavaquinho inventou de cantar, acompanhado da Divina Elizabeth, na luminosidade ofuscante de sua singular Luz Negra – a que ilumina o teatro sem cor para a evolução aflita dos palhaços do amor. Todos nós, raça humana” (1).
“Luz Negra” tem uma sonoridade que impressiona o ouvinte. Por quê? Porque a união dos diferentes estilos e vozes foi capaz de uma justa homenagem ao canto negro de ontem, de hoje e de amanhã. Recomendamos este trabalho aos nossos leitores.
Por Angeline e Francisco Gomes e Winnie Barros.
Notinha útil – Amanhã, nosso príncipe Heitor estará completando mais um mês de vida. O Facetas deseja muita saúde e vida longa. Parabéns! (www.facetasculturais.com.br).
Fonte: 1. LP “Luz Negra”, RJ: Som Livre, 1988.