Ano passado eu assisti ao filme sobre a vida de Mary Shelley e fiquei com vontade de ler a sua obra-prima, Frankenstein (no original em inglês, Frankenstein: or the Modern Prometheus). Essa semana decidi escutar o audiolivro da obra e fiquei surpresa com a história. Embora Mary Shelley tenha escrito em 1818, é uma obra que nos faz refletir sobre a sociedade e a ciência.

O romance conta a história do jovem médico Victor Frankenstein que fica obcecado na morte e na possibilidade de trazer a vida um ser vivo. Ele decide trazer da morte um homem e começa a trabalhar incansavelmente para conquistar esse feito. Victor rouba túmulos para furtar corpos e criar a sua criatura. Numa noite chuvosa, ele coloca em prática o seu projeto, reviver a sua criatura, o qual consegue realizar com êxito. Mas, se assusta com e abandona a criatura que ele criou. Depois disso, Victor é tomado por preocupação e culpa pelo fato de ter criado algo que o denomina como “monstro”. Depois de um tempo após esse episódio, Victor fica sem notícias da sua criatura, mas acontece um fato na sua família que o faz ir atrás do “monstro”, e ele consegue. O encontro do criador e criatura é o ponto principal da obra, pois a criatura conta como foi a sua vida após ter sido abandonado por Victor. Esse momento do livro faz uma análise da sociedade, das relações humanas, dos preconceitos e da discriminação que existe entre os homens e, sobretudo sobre a solidão. Eu não vou dar continuidade no resumo da obra, pois, alguém pode ter interesse em ler ou escutar a obra.

Depois que escutei o audiolivro, eu fiquei curiosidade pela motivação de Mary Shelly ter escrito esse obra. Eu descobri no artigo científico de Rocque e Teixeira, publicado em 2001 (1), que Frankenstein, é apontada como a primeira obra de ficção científica gênero literário e representa a transição do gênero gótico de romances, que marcou a segunda metade do século XVIII na Inglaterra. Segundo os autores:

Frankenstein abraça definitivamente esse parâmetro. A obra é vista como o primeiro romance gótico-psicológico, onde é mantida a ambientação exótica, agora relacionada ao mundo da ciência. Afinal, é num cenário isolado que Victor Frankenstein, o cientista, começa a criação do monstro, e, portanto, inicia sua via-crúcis, que só irá terminar com a destruição do criador e da criatura. No entanto, a força trágica que move o romance não se liga mais ao mundo espiritual, mas sim à psique do protagonista e à sociedade que o cerca. O móvel do romance é, então, a incomensurável ansiedade de conhecimento de Victor. Além disso, há a ligação óbvia entre a rejeição de sua própria criação — o monstro não pode deixar de ser considerado seu filho — e as maldades cometidas pela criatura. Mas não é só Victor que a rejeita, mas também a sociedade, já que todos fogem diante da sua feiúra, e, mesmo ela lhes sendo absolutamente inofensiva, tentam atacá-la”.

Além dessa análise social, os autores, ainda, apontam para a crítica que a obra faz sobre a ciência. “Vemos que Victor considerava a matemática e os conhecimentos a ela relacionados como uma base segura, da qual não poderia advir mal nenhum. Essa fé sobre-humana na neutralidade e utilidade das ciências matemáticas também se relaciona a uma visão de ciência típica da época. Os autores que se voltaram para a ciência do período sublinham dois aspectos importantes que já se mostram presentes na ciência da fase final do Renascimento: seu caráter mecanicista e a utilização de uma linguagem matematizante”.

Mary Shelley escreveu a sua obra aos 18 anos de idade e viveu o período do Romantismo, e sua obra é crítica ao Iluminismo que destaca o homem como controlador da natureza. Além dessa motivação, a escritora é inspirada pela a obra da mãe A vindication on the rights of woman, a feminista avant-la-lettre Mary Wollstonecraft, pois sua obra “não barca somente a existência de uma natureza feminina violada por uma ciência masculina, mas também pode ser detectada nos papéis desempenhados pelas mulheres no romance”. (1)

Mary Shelly (Imagem: Wikipédia)

Nessa perspectiva, a jornalista Thauany Melo faz uma correlação entre a obra Frankenstein com a vida pessoal de Mary Shelly, bem como o papel da mulher no século 19. A mesma afirma que “ambos, a Criatura e a mulher, experimentaram da luta pelo espaço negado pela monstruosidade e insensibilidade daqueles que estavam na posição de poder na sociedade e buscou caminhos independentes para tentar se fazer acreditado, compreendido e aceito“. (2)

Do ponto de vista pessoal, Mary Shelly teve algumas experiências de solidão que se concretizam na história da “criatura”. “Mary Shelley foi fruto da relação entre o filósofo político William Godwin e a teórica feminista Mary Wollstonecraft, que morreu por causa do parto da filha, deixando-a duas de suas maiores cicatrizes emocionais: a culpa e a carência“. (2)

Aos 15 anos conheceu o poeta rebelde Percy Shelley, de 20 anos. O pai de Mary era contra o relacionamento, então, os dois fugiram. A vida dela foi ofuscada pela fama de Percy e por suas traições com a justificativa de “amor livre”. (2) O filme que assiste mostra bastante a relação conturbada entre os dois e a solidão de Mary.

Percy Shelly (Imagem: Biography)
Trailer do Filme (Fonte: Cinema NOS)

“Frankenstein” nasceu na casa do poeta Lord Byron, quando ela e Percy estavam hospedados em sua casa. “As chuvas incessantes os confinavam e eles mergulhavam em histórias de horror e longas conversas sobre filosofia. Com o tédio, o anfitrião da casa lançou o desafio de escreverem histórias fantasmagóricas. Afetada por um pesadelo que teve noites antes, por causa das impressões de uma conversa sobre ressurreição por galvanismo, Mary resolveu escrever sobre o que lhe havia tirado o sono”. (2)

Depois que eu escutei a obra de Mary Shelley, eu consegui entender porque ele é um clássico. É uma obra tão atual que diz respeito a solidão do homem na sociedade, uma criatura que sofreu com a discriminação das pessoas por conta sua aparência, e o quanto isso contribuiu para ele fazer alguns atos horrendos. A obra me fez refletir sobre a influência do contexto social na construção da nossa subjetividade. Uma criatura que foi abandonada pelo seu criador, que peregrinou para ser acolhido, mas foi rejeitado pela sociedade.

Para quem tiver interesse em escutar o audiolivro segue o vídeo do Youtube.

Audiolivro Frankesntein (Fonte: Lances do be para você)

Texto: Winnie Barros

Fonte

  1. ROCQUE, L. de L. e TEIXEIRA, L. A.: ‘Frankenstein, de Mary Shelley e Drácula, de Bram Stoker: gênero e ciência na literatura’. História, Ciências, Saúde — Manguinhos, vol. VIII(1), 10-34, mar.-jun. 2001.
  2. Mary Shelley e a metáfora da mulher em Frankenstein, por Thauany Melo. Jornal Opção, 2019.