As “bananas podres” de Gullar

“Como um relógio de ouro o podre oculto das frutas/sobre o balcão (ainda mel dentro da casca/na carne que se faz água) era/ainda ouro /o turvo açúcar/vindo do chão/e agora ali: bananas negras” (Ferreira Gullar).

Em meados de 2024, a equipe do Facetas visitou a Livraria Jaqueira, situada no centro histórico do Recife Antigo, nas adjacências do do Marco Zero. O local não é apenas uma livraria propriamente dito, mas um centro cultural. Ali nos deparamos com centenas de obras em prosa e verso de autores brasileiros ou não, como: os Andrade, entre eles o Drummond, Bandeira, Quintana, Amado, Melo Neto, Meireles, Barreto, Assis, entre outros.

Compramos alguns exemplares, é claro. Um deles, Bananas podres, de Ferreira Gullar. Um livro muito bom, interessante, composto em cinco partes, ou seja, bananas de 1 a 5. Curiosamente todos os poemas foram editados com o manuscrito do seu autor. Como também são de sua criação, as ilustrações. Porém, a editora teve a preocupação em publicar cada poema, cada verso, em tipografia de praxe, para evitar embaraço de leitura.

Sobre o livro, Gullar diz: “Quem primeiro imaginou estes poemas num álbum ilustrado foi Cláudia Ahimsa. Os poemas seriam acompanhados de pinturas minhas e de outros pintores com o tema das bananas podres. Mas a coisa finalmente se concretizou quando eu, brincando com recortes de papel colorido, lembrei-me do projeto de Cláudia e decidi levá-lo adiante, só que agora o álbum seria ilustrado com minhas colagens. Durante esse tempo, havia escrito mais alguns poemas sobre o tema, mas o fator decisivo foi ter percebido que as folhas de jornal, que usei para limpar o pincel, lembravam, com suas manchas escuras, a cor das bananas quando começam a apodrecer. De início, apenas as recortei e colei, sem associá-las aos poemas. Como a lembrança de bananas apodrecendo na quitanda de meu pai me volta de vez em quando à memória, terminei por juntar as colagens e aos poemas, como um modo novo de responder a esse apelo do passado. Foi como vivê-lo de novo, com alegria” (1).

Quem ganha com “esse apelo do passado” somos nós, os fãs e admiradores desse poeta. Aliás, um poeta singular. Seus versos ativam em cada um de nós, sobre a lembrança do ontem, assim: “As ruas os quintais outras quitandas/outras casas com suas cristaleiras/outras praças ladeiras e mirantes/donde se vê o mar/ nosso horizonte”, conclui o maranhense.. Nosso horizonte cheio (e carregado) de lembranças de Itabira, de Pauini, de São Luís, de Alegrete, de Taubaté, de Nazaré da Mata, de Quixeramobim, do mundo, enfim.

A seguir, um pouquinho de referências biográficas/bibliográficas, desse que foi um dos maiores nomes da poesia nacional, em todos os tempos. Ferreira Gullar nasceu José Ribamar Ferreira em 10 de setembro de 1930 em São Luís do Maranhão e faleceu na cidade do Rio de Janeiro, em 4 de dezembro de 2016, aos 86 anos. Publicou seu 1º livro de poesia, Um pouco acima do chão, aos 19 anos. Dois anos depois, mudou-se para o RJ, onde viveu até o seu falecimento.

“Poeta, crítico de arte, tradutor e ensaísta, colaborou com diversos jornais e revistas. Em 1954 publicou o livro A luta corporal, obra que o aproximaria do movimento da poesia concreta do qual participou, se afastando algum tempo depois para criar o movimento Neoconcreto, lançado em 1959 com um manifesto de sua autoria; No começo dos anos 1960, engaja-se nos movimentos populares, integrado ao Centro Popular de Cultura (CPC) da UNE. Na mesma década, dedicou-se também à dramaturgia.

Entre 1971 e 1977, durante a ditadura militar, viveu no exílio. Nessa temporada, escreveu, em Buenos Aires, o Poema sujo, considerado um dos pontos mais altos da literatura brasileira. Também publicou outros importantes livros de poesia, como Dentro da noite veloz, Na vertigem do dia, Barulhos, Muitas vozes e o livro de memórias Rabo de foguete. Entre seus ensaios mais conhecidos estão Vanguarda e Subdesenvolvimento e Argumentação contra a morte da arte. Recebeu em 2010 o Prêmio Camões, o mais importante da língua portuguesa, pelo conjunto de sua obra. Em 2011, seu livro Zoologia bizarra (Casa da Palavra) recebeu da ABL o prêmio melhor livro infantojuvenil do ano de 2010, e Em alguma parte alguma (José Olympio) o prêmio Jabuti na categoria poesia e foi eleito o melhor livro do ano na mesma premiação” (1).

Caro leitor, leia, portanto, Bananas podres, e você descobrirá que “em tudo aqui há mais passado que futuro”. O poeta “utiliza a imagem de bananas apodrecendo em uma quitanda para meditar sobre a efemeridade da vida, a memória efetiva de sua infância em São Luís e a passagem inexorável do tempo”.

Notinha útil – As felicitações deste blog vão para o jovem Heitor, que no dia primeiro do corrente mês, lá pelos idos de Campina Grande (PB) completou mais um mês de vida, com muita saúde e contentamento de seus pais e demais familiares. Parabéns, criança!

por Angeline e Francisco Gomes e Winnie Barros.

Fonte consultada: Gullar, Ferreira. Bananas podres. – RJ: Casa da Palavra, 2011.

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