“PELOS ESCRAVOS!” Exclama Rui Barbosa

Após análise da trilogia “Escravidão” do historiador Laurentino Gomes, o Facetas foi buscar ajuda a respeito, nas lições de Rui Barbosa (1849-1923), considerado um dos maiores combatentes da escravidão negra – prática horrenda arraigada no Brasil, por séculos, cujas consequências estão entranhadas na sociedade brasileira até hoje.

A seguir, excertos de um memorável discurso do mestre baiano, a princípio, publicado no Diário da Bahia, em agosto de l875. No final deste artigo, o leitor saberá, especificamente, a quem o autor destina as suas palavras históricas.

“O gênio irresistível da poesia parava-lhes em torno, desprendendo das asas, como pranto do céu, as harmonias da caridade; e cada gota melodiosa daquele orvalho, recebida, numa alma, convertia-se numa pérola de amor, numa carícia, num consolo para um grande infortúnio vivo entre nós”.

“Assim contam lendas orientais que as chuvas do firmamento, acolhidas nas conchas recônditas do oceano, cristalizam-se nessas lindas joias marinhas tão cobiçadas para adereço de belas”.

Em determinado momento, o orador faz referências sobre o autor de “Espumas Flutuantes”, Castro Alves, o qual invocava em nome dos escravos a piedade civilizadora da mulher, ou melhor, que “a inspiração consciente da sua energia, emudecera nos lábios do poeta a cadência embevecedora do verso”, em forma de prece.

“As vibrações plangentes daquela súplica esparziram-se no ar, confundidas à música infinita e perene da poesia, que esses peregrinos do céu perpetuam na terra, como no murmúrio das vagas, dos segredos imperceptíveis do zéfiro, do diálogo incessante das árvores, da bulha misteriosa das folhas secas, dos gemidos solenes das montanhas, do chilrear dos pássaros condensa-se esse acordo inefável e contínuo da natureza, que nos inebria, nos vivifica, e nos domina”.

E, continua ele, deveras cuidadoso com as palavras. Porém, certeiro com a finalidade com que as emprega: ELA. “Sinfonia de almas comovidas que estala com paixão magoada”; “A alegria em consciência iluminada pela bondade”; “Como canto inspirador de sonhos bons à cabeceira de doente amado;” “Em muitas horas de saudade, a doce cantilena materna com que se vos embalou o berço”; e “De casto afeto em fronte de desconsolado esposo, e soluça, reprimindo-se como pranto interrompido e enxugado pela esperança”.

“Deu o Onipotente à mulher a compleição de flor (…). Nesta figura, em que tanto se comprazem literatos e namorados, há a expressão de uma verdade tão instintiva, que, que numa das línguas da Ásia, primitiva pátria do homem, mulher e flor se conhecem por um nome só”. Flor de tanto mimo e mais melindre ainda que a sensitiva pudica e nervosa, – à terrível lembrança dessa desventura incomparável, que tem devorado gerações inteiras, desse milenário crime, que desumaniza toda uma família de irmãos nossos”.

Segue o orador dizendo que na mulher “a caridade é uma refletida conquista do espírito”, haja vista, não se desapegar da sua personalidade, para acudir ao desamparo, “por uma reação violenta e dolorosa”. Ela “entrega-se ao infortúnio alheio, e vive, identifica-se medra nele, inteira, serena, absorta, feliz. Mais constante que o relevo benéfico da noite, não tem alternativa a sua dedicação, ininterrompida como o ar, o movimento e o calor. Não se queixa, porque não forceja; Não tem que resignar-se, porque não se constrange; faz o bem como nós respiramos, como as aves trinam, como o sol irradia (é a sua função vital).

Apesar do frio do cativeiro, “deixai atuar o tempo… Vereis o pobre vegetal supliciado, exausto e desbotado de saudades do sol, crescer no meio da sua tristeza, estender dia a dia o colo filiforme, despido e pálido (…). Na retina, de onde se vos vai apagando a última imagem dos sonhos caprichosos, por ente as pálpebras descerradas, o matiz da paisagem – a brisa embalsamada”.

Independente da parente suavidade lírica de suas palavras, ledo engano. Pois são, por demais, contundentes. Então, leiamos: “A multidão cativa, porém, traz nas carnes inviolável luto”. O jovem causídico, aos 24 anos de idade, questiona: “Ao escravo, porém, onde fica o astro da sua vocação?”; “Mas à mulher cativa quem lhe deu o direito da pureza?”; “Quem deu à escrava amores impolutos, fecundidade bendita, solitária obscuridade doméstica? À escrava, para quem é ignomínia a maternidade, que vos santifica?”

Por fim, como declamando, canta, encanta: “Flores e pássaros, perfis de moças e criança; ovais de cabeças românticas e cismativas; lábios como corolas de rosas úmidas na antemanhã; cílios baixos como véu de ligeira obscuridade em enseada límpida e azul, ou erguidos a entremostrar a alma; um encontro, uma despedida; um vindima rumorosa, uma seara ondulando ao vento, um partir de madrugada para o trabalho em herdade campestre, um volver com a colheita à noitinha; algum correr de cães na floresta ao encalço de gamo perseguido, ou malogro de caçador; um ermo à beira-mar” (1).

Muito bem, senhores. As palavras acima são dedicadas à mulher. Por sinal, dona de uma capacidade incrível de superação adversativa. Aqui, especialmente, “ÀS SENHORAS BAIANAS, ou seja, as escravas (os escravos, como um todo) que cantavam, dançavam, choravam, amavam, pariam e almejavam as “ondas luminosas da liberdade”, cuja Lei Áurea, só veio 13 anos depois, em 1888. No entanto, passados quase 150 anos das exclamações e interrogações do eloquente mestre, ainda não aprendemos a lição que deve solidificar em cada um de nós, a liberdade, a igualdade e a fraternidade. Vamos persegui-las!

Por Angeline, Francisco e Winnie.

Fonte: 1. Barbosa, Rui. A imprensa e o dever da liberdade. – São Paulo: Hunter Books, 2016.

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