A seguir, valiosa análise literária do notável escritor George Ibrahim Kheirallah (1879-1959), sobre o livro de poemas, A Procissão, de Gibran. Assim: “Em 1919, Gibran surpreendeu os seus amigos com a publicação, à sua própria custa, de um livro belo e artístico, contendo A Procissão, sua obra-prima em árabe, de que até então nem havia falado. O papel, os tipos, as ilustrações, a encadernação – tudo traduzia o cuidado de Gibran para com este fruto sui generis de seu espírito.

O árabe é uma língua vigorosa, de um extenso vocabulário de palavras de significação muito rica e de variadas nuanças. Seus tons de delicada tepidez e colorido formam, com a sua melodia, como que uma sinfonia que chega a comover a quem ouve ou lê, até às lágrimas e ao êxtase.
Qualquer pessoa presente a uma reunião em que se recite prosa ou poesia árabes pode notar logo como as cabeças e os corpos dos ouvintes põem-se a balançar num acompanhamento rítmico do recitativo.
Em A Procissão, frequentemente encontramos Gibran embalado pelo encanto do lirismo e indiferente à vigorosa continuidade da Kasida (forma de poesia lírica perso-árabe).
Nassib Árida, talentoso poeta que escreveu o prefácio de A Procissão, deu sua interpretação do que o diálogo do poema encerra: “um velho sábio, um homem de cultura universal e grande experiência tinha saído da cidade para passear pelo campo e, fatigado, quedou-se a descansar à margem da floresta. Eis senão quando um jovem de pele bronzeada pelo sol, nu, emerge da floresta, empunhando uma flauta, e deitou-se descontraído, à vontade, do lado do sábio, e os dois, sem cerimoniosamente, começaram a dialogar”.
O sábio exibe a sua cultura com a mais comedida lógica e uns tons de desencanto, enquanto o jovem rebelde derrama pretensiosamente sua interpretação sobre a universalidade do Todo.
Ao prefaciador deste, o poema representa uma biografia inconsciente de Gibran: Gibran, o sábio, com um amadurecimento maior que a sua idade, e o Gibran rebelde, que tinha chegado a crer na unidade, e na universalidade de toda a existência, e que ansiava por uma liberdade simples, impessoal, combinada harmoniosamente com todas as coisas.
Creio que não cabe aqui um estudo crítico ao poema e que, ao contrário, devemos deixar que o leitor se satisfaça intelectual e emocionalmente, conforme os seus pendores e possibilidades. Pois o próprio Gibran, mestre da pena e do pincel, acha esses meios ineficientes; no fim de cada estribilho ele se refugia no recurso ilimitado, não dimensional – o lamento da flauta – ou a quintessência espiritual.
Quem leu a biografia de Gibran e sabe de seus anseios por uma vida tranquila em Wadi-Quadija, pode compreender a filosofia do filho rebelde da natureza, no seguinte trecho: “Dai-me uma flauta e cantai comigo!/Esqueci mazelas, esqueci remédios!/A vida é como versos escritos/sobre a superfície dos regatos. // Que prazer, dei-me, podereis sentir/nessa luta louca, acotovelando-se entre a multidão,/a discutir, protestar, a pedi,/indefinidamente? // E abrigando-vos na escuridão como as toupeiras,/ou querendo subir por teias de aranha/sempre preteridos pela ambição,/até o vivo jazer junto ao morto?/ (…) O destino tem caminhos que não podemos alterar,/pois a fraqueza domina nossa Vontade.
Realmente é uma obra fascinante. Tal qual O Profeta, do mesmo autor, do mesmo autor que foi sucesso universal. “Seus livros são lidos através do mundo com o interesse enternecido que muitos autores de best-sellers não conseguem” (1).
Em nota, a editora garante: “Conhecido e admirado tanto no Oriente quanto no Ocidente pelo vigor, pelo misticismo e pelo lirismo de sua extensa obra, o poeta libanês Gibran Kahlil Gibran (1883-1931), mais conhecido como Kahlil Gibran, é hoje um nome atual em todo o mundo civilizado graças a extraordinária lição de fraternidade, de procura dos valores, eternos, da sabedoria transcendente e de incansável bondade nestes nossos tempos incertos e convulsos pelo materialismo, pela confusão dos valores, pela transitoriedade e pela falta de confiança no futuro da civilização e do próprio mundo” (1).
Pense no livro fascinante! A tradução é Emil Farhat; introdução e nota biográfica por George Kheirallah. A Procissão, é um trabalho literário grandioso. Por sinal, é o primeiro e o único livro de Gibran que foi originalmente escrito inteiramente em verso. Por ser seu conteúdo tão profundo e sincero essa publicação já foi chamada de “biografia inconsciente” de Gibran. Alguns fatos poucos conhecidos da vida do poeta dá leitor ocidental, principalmente, uma noção de como ele é considerado na sua terra natal.
Esperamos, portanto, que os nossos leitores aprovem essa síntese sobre A Procissão, de Gibran Kahlil, autor dessa máxima: “O destino tem caminhos que não podemos alterar”.
Por Angeline e Francisco Gomes e Winnie Barros.
Fonte: 1. Gibran, Kahlil, A Procissão. – RJ/SP: Record, 1974.