“Sinto a cruz que carrego, bastante pesada” (Evaldo Braga, cantor).
Não são imortais apenas os poemas de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), mas também, as suas crônicas, seus contos, seus artigos de jornais, enfim, toda a sua produção literária. Por exemplo, reproduzimos aqui, na íntegra, a crônica “A Cruz”, a qual, na simbologia religiosa, é expressão de sofrimento. Leiamos:
“Quase todos carregamos a nossa cruz; alguns, além da própria, carregam a cruz dos outros. Carregar duas ou três cruzes não é empresa superior às forças do homem. Veem-se ombros frágeis, quase de vidro, suportando enormes madeiras. Parece que há mesmo um certo prazer nisso. E orgulho. O ar de sombria felicidade com que o homem costuma gemer, num encontro de rua: “pois é isso, lá vou eu carregando a minha cruz”. Olha-se para ele, não transporta coisa nenhuma, ou simplesmente segura entre dois dedos um pacote minúsculo, leve e até gracioso presente para a amada. Entretanto, ele garante que sim, é até uma cruz bem pesada, não há cruzes leves. Temos de acreditar em sua boa fé, como aliás na de todos os presidentes, ministros, governadores e prefeitos, que, infalível e confessadamente, portam cruzes que eles disputaram, cruzes que queriam esquivar-se lhes, mas que eles perseguiam tenazmente até alcançá-las e botá-las ao ombro. O extraordinário, mesmo, o raro, o inconcebível é não carregar cruz nenhuma.
Vejam esse homem. É cearense. Vale dizer que nasceu com a cruz ao lado, não precisou requerê-la. Mudou-se de sua terra, e isso significa reforçar o peso da cruz, como fazem os exilados. Escolheu uma cidade de São Paulo: Itatiba. Fez-se comerciante. A cruz pesou-lhe menos. Há, é certo, os impostos, os fregueses impontuais, competição, porém não resta dúvida que sua cruz se tornou mais confortável. Era uma cruz urbana, matriculada na Junta Comercial, sem nem Mandacaru, enfim, uma cruz como tantas que carregamos sem perceber. Não ficou, porém, satisfeito. E ei-lo que manda fabricar outra cruz, ampla e bem vistosa, e resolve literalmente carregá-la, não apenas de sua casa à igreja de Itatiba, mas até São Paulo; Até o Rio; Até o Vaticano.
Esse homem vai a Roma de cruz às costas. Já recebeu as bênçãos do vigário e será alvo de manifestações nas cidades por onde for passando, porque vai a pé, à boa maneira dos peregrinos, se não à Itália, pelo menos à Guanabara. Aqui tomará o navio, mas a cruz será sua companheira a bordo, e com ela se apresentará ao Papa.

Cruz de alumínio, direis vós que lestes o Telegrama de São Paulo. Pesando três quilos, e não três arrobas. Sim, não é de cabiúna ou de ferro, mas é uma cruz pública, real, escandalosa. Cruz de protesto contras as explosões nucleares. O cearense assumiu esse pecado do mundo e procura resgatá-lo deixando seus negócios, sua pacatez itatibana, para afrontar estirões pedestres, fadigas, incompreensões, homenagens, fotógrafos, caminhões, chuva, calor, vistorias, múltiplas e menores cruzes suplementares. A culpa dos grandes pesa muito mais de mil vezes três quilos, e não é de alumínio, é de lamentos infernais, da ferocidade à velhacaria, mas este cearense a resume numa peça maneira, de leve metal, e com isto pode suportar todo o peso da iniquidade. É um louco, um exibicionista, um fanático, um apóstolo, um mistificador, um provocador, um propagandista de artigos de alumínio? É um homem e expõe a seu modo a miséria de nosso tempo” (1).
Passados mais de 60 anos da publicação desta crônica – in “Quadrante 2” de 1962 -, A Cruz, da qual fala Drummond continua em todos os continentes da Terra. Não se trata da cruz pintada, de ferro, de alumínio, de madeira, etc; da cruz do altar, do púlpito; dos cemitérios; do túmulo do soldado desconhecido; das oferendas; do recital da peça teatral; da composição cantada; das conferências de (e da) paz; dos lares cristãos; do Vaticano, etc, etc, etc, mas sim do sofrimento de cada um ser, da dor de cada pessoa, independentemente da circunstância. Ela é subjetiva, invisível.
Segundo o texto em questão, para a nossa melhor interpretação e reflexão, também, vamos seguir a ordem de “a” a “h“. Portanto: a) A cruz é expressão de sofrimento, simbólica e religiosamente falando; b) Isso nos permite deduzir que a presença da dor é universal; c) O homem, no geral, tem orgulho do sofrimento?; d) Fica provado, então, que essa cruz que “quase todos carregamos” é “em cruzes leves”, quer dizer que “a dor de uma pessoa é sempre maior que a da outra”; f) Quando o autor tasca: “o cearense nasceu com uma cruz ao lado”, reporta-se a fome, causada pela miséria decorrente da seca no Ceará ou não, cujo sistema econômico entrega ao nordestino “a sua cruz logo no início da vida”, na figura do comerciante; g) A cruz real, pretendida ser levada até o Vaticano, pelo cearense, tinha como objetivo protestar “contra os reis do mundo atômico, da explosão nuclear, à época, é claro”; e h) “Cruz escandalosa”, cujo adjetivo empregado significa que a cruz simbolizava os escândalos dos homens públicos de nosso tempo.
Assim sendo, senhores leitores, a nossa intenção é possibilitar às pessoas, uma reflexão sobre a sua dor, as dores do mundo. Não deixá-la corroer a alegria, o convívio entre irmãos, entre os povos. A tristeza não pode – jamais – se sobrepor ao contentamento, à vida. Portanto, seja sempre empático à dor do próximo.
Notinha útil – Os nossos parabéns ao casal Winnie e David e, principalmente, ao filho deles, Heitor, que hoje está completando sete meses de idade.
Por Angeline e Francisco Gomes e Winnie Barros.
Fonte consultada: 1. Tersariol, Alpheu. Manual Prático de Redação e Gramática – SP: Libra, 1977, p. 442.