Em meados de 2016 encontrei um jovem vendendo um lote de 60 discos de vinil e uns 30 CDs, os quais pertenceram à sua tia Lúcia. Acredite se quiser: entre todos havia 5 CDs e 16 LPs seminovos de Bezerra da Silva. Hoje pertencentes ao acervo do Facetas.

Logo quis negociar as 21 unidades. Sem acordo. “Ou o senhor compra todos (discos e CDs), ou nada feito”. disse o garoto. Comprei-os. Quem é do ramo sabe: dificilmente se encontrará 16 discos, de uma só vez, desse genialíssimo cantor. Muito menos na era da atual modernidade tecnológica que está “limpando tudo” que foi criado nas décadas passadas.

Vamos aos discos – Bezerra da Silva: É esse aí que é o homem (1984); Produto do morro (1983); Eu não sou santo (1990); Se não fosse o samba... (1989); Violência gera violência ( 1988); Um punhado de bambas (1982); Justiça social (1987); Presidente Caô Caô (1992); Partido alto nota 10, volume 3 (1980), entre tantos outros.

É impressionante como algumas chagas sociais brasileiras não saram, ou seja, desde os primeiros versos cantados por Bezerra, há 50 anos, ilustrando tais problemas, continuam aí escancarados e suas músicas mais do que atualizadas. Em toda a sua obra, em nenhum momento, será encontrado algo que venha a denegrir os hábitos, valores ou costumes, do nosso povo, do nosso trabalhador. Muito menos daqueles que habitam os morros, as favelas, em qualquer que seja o lugar ou região.
José Bezerra da Silva, nasceu no Recife (PE), em 23 de fevereiro de 1927 e morreu no Rio de Janeiro em 17 de janeiro de 2005, aos 77 anos, há, exatos 15 anos. Estou falando do cantor, compositor e ritmista conhecido no meio artístico Bezerra da Silva.
Ainda criança cantava coco e tocava zabumba. Depois trompete. Mas, a família queria algo mais: uma ocupação; estudo. Então, o garoto ingressou na Escola da Marinha Mercante. Porém, de lá foi expulso dois anos depois. Apesar de adolescente, ele migra para a cidade maravilhosa e ocupa-se de pintor de paredes. 
Já morando no Morro do Cantagalo, passa a tocar tamborim em rodas de pagodes, onde conhece muitos músicos do samba. Aos 23 anos, é levado pelo compositor Doca para tocar no Rio Clube do Brasil. Atividade que alterna com o trabalho na construção civil. No entanto, sem trabalho formal, o rapaz passa alguns anos morando nas ruas como mendigo. 
Foi uma década perdida. Até que em 1961, consegue se fixar na favela do Parque Proletário da Gávea, onde trabalha na rádio e na construção civil. Também atua como ritmista em discos de sambistas como Clementina de Jesus e Roberto Ribeiro. Nessa época começa a compor. É dele, por exemplo, Nunca Mais, em parceria com Norival Reis, na voz de Marlene, ganha o concurso de carnaval da Rádio Nacional em 1965. 
Ele não desiste. Em 1969, aos 42 anos, lança seu 1º compacto. No ano seguinte, grava seu 1º LP, ” O rei do coco”, cujos volumes 1 e 2, são lançados em 1973 e 1976, respectivamente. Em 1977, vai para a Orquestra da Rede Globo, como percursionista, deixando de ser pintor de paredes. 
Ainda em 1977, com Genaro, lança seu 1º LP de samba: Partido alto nota 10. Dois anos depois (solo) lança Partido alto nota 10-volume 2. Com esse disco estoura seu primeiro sucesso: Pega eu. Em 1980, lança o volume 3, dessa série. Nesse contexto, nasce o intérprete de suas composições e de outros compositores ainda desconhecidos do grande público, como Moacir Bombeiro e Ivan Mendonça, com sucessos como Malandragem dá um tempo, Sequestraram minha sogra e Overdose de cocada.

Entre 1981 e 1993,  lança “um LP por ano pela RCA, que lhe rendem 11 discos d ouro, 3 de platina e 1 de platina duplo”. Em 1995, com  Moreira da Silva (1902-2000) e Dicró (1946-2012), lança Os três malandros in concert. Uma autêntica linhagem de “sambistas malandros”.
NOTA: Segundo a ABPD – Associação Brasileira dos Produtores de Discos, entre 1958 e 2004, o critério adotado para a premiação de vendagem de discos, os certificados eram definidos assim: 1. Disco de |Ouro – 100 mil cópias vendias; 2. Disco de Platina – 250 mil cópias vendidas; 3. Disco de Platina Duplo – 500 mil cópias vendidas; e 4. Disco de Diamante – 1 milhão de cópias vendidas.
Na última década de sua vida – entre 1996 a 2004 – “lança mais dez discos por diferentes gravadoras, um deles ao vivo, e o último independente, com repertório gospel, Caminhos de luz (2004).
Moreira e Bezerra são considerados os reis do samba-de-breque, ou seja, um sub-gênero musical derivado do samba. Esses dois gigantes ainda tendo por perto Dicró, o trio está completo, fazendo surgir o chamado sambandido, isto é, melhor definido na citação abaixo.

“Compostos por gente simples do morro, os sambas que interpreta são crônicas da vida nas favelas cariocas, tratando da criminalidade, da violência e da vida precária de seus moradores com linguagem irreverente e coloquial. São frequentes as referências às drogas, como em “A Semente” (Walmir da Purificação-Tião Miranda-Roxinho-Filipão), cujo clipe oficial tem mais de 1,2 milhão de visualizações; à delação, tema de “Defunto Caquete” (Adezonilton-Franco Teixeira-Ubirajara Lúcio); ou aos políticos, satirizados em “Candidato Caô Caô” (Walter Meninão-Pedro Butina). Por conta dessa temática, enfrenta problemas com as autoridades, para quem letras como “Malandragem Dá um Tempo” (Vou apontar/Mas não vou acender agora”) incentivam o consumo de maconha. Longe de fazer apologia às drogas, ou crime, as letras evidenciam estratégias de sobrevivência dos excluídos numa sociedade injusta e racista, denunciada em letras como “Preconceito de Cor”. (1)
                                         “A lei só é aplicável pra nós favelados
                                           E protege o golpista
                                           Ele tinha que ser o primeiro da lista
                                           Se liga nessa doutor”. 

Bezerra sofreu na pele (e no coração) o estigma da marginalidade. Foi preso várias vezes “para averiguação”, despejado de seu barraco (anos 70), mendigo de de rua, e por aí vai. São marcas profundas denunciadas nos versos que ecoam com a sua voz, morro abaixo, Brasil afora. 
A mensagem do seu samba não é igual aquela romantizada dos anos 30 e 40, mas autêntica porta-voz da realidade de considerável parcela da população das grandes cidades brasileiras, onde a violência urbana grassa de maneira voraz desde a década de setenta. “Ao contrário da visão cultivada pelas elites, que desprezam suas músicas, o malandro cantado por Bezerra da Silva e aquele que sobrevive à guerra social dos morros sem se tornar bandido” (1).
Tudo na arte desse cantor, era muito autêntico, original. Nenhum outro artista (independente do gênero), tem nas capas e contracapas de seus discos – sejam LPs ou CDs – fotos tão reais quanto as dos seus. Independente do seu trabalho ter sido produzido para ser consumido, a principio, nos subúrbios cariocas, mas que logo se estendeu para todo o Brasil. “Lançando seus discos em sistema comunitário das favelas, portas das lojas, shows populares e programas de rádios AM, obtém sucesso à revelia da indústria fonográfica” (1).
No nosso caso, não foi nada fácil escolher entre os discos elencados, apenas dois para completar este artigo. Um, Violência gera violência, como foto-arte e o outro, Presidente caô caô, como poema-texto de Eu sou favela (Noca da Portela-Sérgio Mosca), cujos versos per si, revelam, um pouco, mesmo que distante da realidade nua e crua da vida das pessoas que habitam em lugares que se convencionou chamá-los FAVELAS.
Vamos, à letra de EU SOU FAVELA de 1992. Para quem não lembra, início do fim da Era Collor.
Em defesa de todas as favelas do meu Brasil,
Aqui fala o seu embaixador”
     A favela, nunca foi reduto de marginal
     A favela, nunca foi reduto de marginal
Ela só tem gente humilde marginalizada
E essa verdade não sai no jornal
     A favela é, um problema social
     A favela é, um problema social 
Sim mas eu sou favela
Posso falar de cadeira
Minha gente é trabalhadeira
Nunca teve assistência social
Ela só vive lá
Porque para o pobre, não tem outro jeito
Apenas só tem o direito,
A um salário de fome e uma vida normal. 
       A favela é, um problema social
       A favela e, um problema social.      

     

Portanto, cabe a cada um de nós, cidadãos de bem que (ou que achamos que somos\), defenestrar, de uma vez por todas, os agentes causadores dessas desigualdades sociais entre tantos irmãos brasileiros.
Pesquisa e texto por Francisco Gomes
Fotos e formatação por Angeline Gomes
Fontes
1. enciclopedia. itaucultural.org.br
2. LP “Violência gera Violência”, de Bezerra da Silva, RCA, 1899
3. LP “Presidente Caô Caô”, de Bezerra da Silva, RCA, 1992.