O paranaense Elifas Andreato (1946-2022), não foi apenas um ícone das artes gráficas brasileiras; um artista plástico que, por mais de 40 anos produziu centenas de capas de discos de diferentes cantores. Ele também foi diretor musical do show “O sorriso ao pé da escada”, de Jessé, gravado ao vivo, no Tuca/RJ em 1983, que resultou no lançamento do álbum duplo homônimo.

O projeto teve início em setembro do ano anterior. E, nada – criação, cenário e direção – passou despercebido aos olhos do diretor. São dele, por exemplo, os dois textos divididos em 4 etapas: a memória, a história, o camarim e o artista. Nos quais, a voz off é do próprio Elifas. Com participação também de Jessé, é claro. Ao todo são 26 músicas mais os textos. Se as canções dos discos emocionam ao ouvinte, imagina-se como ficou o coração de quem estava presente ao show!
A narração/declamação vai da 1ª à última música. Fala-se inclusive, de Dolores Duran, Maysa, Dalva de Oliveira, Elis Regina e Charles Chaplin. Pura arte. Incrível! Teria esse show passado despercebido pela crítica especializada? É possível. Haja vista que Jessé era mais um cantor rotulado de “brega”.
Elifas diz a Jessé: “pretendo dirigi-lo e sobretudo para você se coloque como personagem e depois como narrador dessa história (do show). Acho que o espetáculo deve parecer um ensaio. O cenário será mesmo aquele circo azul, sustentado por uma escada, com uma plateia de palhaços (bonecos em tamanho natural). Quanto ao título eu não tenho mais dúvida: reli ontem o livro de Henry Miller e me convenci de que deve ser mesmo “O sorriso ao pé da escada”: o que você acha?”
Em seguida, Elifas passa a detalhar/narrar cada uma das quatro etapas descritas acima, assim:
A MEMÓRIA. “A campainha toca três vezes. A luz apagou. No palco um foco de luz corta a escuridão e ilumina a lembrança de que muito antes dele, antes mesmo dos muitos anos que cantou por aí nos bailes, cantaram: Mário Reis, Francisco Alves, Vicente Celestino, Cyro Monteiro, Sílvio Caldas, Orlando Silva… e Cauby Peixoto...
Personagens das histórias da Rádio Nacional , do Café Nice, da Taberna da Glória, vozes que se misturam na memória do tempo que ele não viveu. Ele ouve o som de um disco antigo… uma voz que se parece com todas as outras daquele tempo e se confundem numa canção antiga que fala de um amor impossível. Então uma lua pregada ali, no pano azul do cenário, ilumina o cantor perdido no sonho do amor escrito na letra da canção – “A deusa da minha rua, tem os olhos onde a lua, costuma se embriagar…”

A HISTÓRIA. “Ele vai de um lado ao outro do palco e desaparece, ouvindo o som dos passos da mulher que o poeta inventou…
A luz da lua desaparece. No seu lugar agora gira um globo de espelhos, espalhando brilho no palco mal arrumado.
O cantor senta ao piano e o ensaio começa como sempre começavam todos os bailes: nas lembranças de … – “Moonlight Serenade”.
Depois, ele surpreende os casais, que agora voltam às suas mesas, com um número de grande efeito. – “Concerto para uma só voz”.
O próximo número foi sempre o grande momento do cantor; os casais quase não dançavam e no final aplaudiam com entusiasmo. Ele canta “Bridge Over Troubled Water” e assim como fazia antigamente nos bailes, o cantor proporciona ao público presente um momento inesquecível.
Ainda sob os aplausos do número anterior, o cantor agora lembra um rock. Um rock que fazia muito sucesso em bailes de formatura. Um número que não pode faltar no espetáculo de agora, faz parte da sua história. E o ensaio continua no balanço de “Rock Around The Clock”.
Os contra-regras cuidam do cenário. São palhaços de pano. Fotografias, velhos manequins, restos de muitos espetáculos, colocados ali aos pares, como se dançassem. As maracas anunciam o próximo número, “Sabor a Mi”, a saudade aperta, seca a garganta e o pó arde os olhos. Agora, tudo ali no palco tem cheiro de laquê… gosto de Cuba-libre.
Agora… ele está de costas para a plateia. Em silêncio. Como se estivesse vendo ali no palco a sua própria história. Um foco de luz percorre o palco e a memória. São objetos, pessoas, lembranças… como se fossem imagens de um velho filme. De repente, alguém aparece! É apenas um vulto. E por instante dança no silêncio. Roda como a boneca de pano, como faziam os casais antigamente, quando dançavam “Dois pra lá dois pra cá…”
Todas as lembranças do passado agora estão ali. Todos aqueles anos cantando nos bailes. Cada sábado, cada lugar, traz agora a lembrança do começo, dos tempos mais difíceis. “Foi nos bailes da vida, ou num bar em troca de pão … Os casais rodam em silêncio, os movimentos são lentos…os pés se arrastam. – “… Que muita gente boa pôs os pés na profissão”…
Todos aqueles anos estão agora ali, iluminados por um refletor. – “…Tenho comigo as lembranças do que eu era”.
Cada palavra, cada som, mexe mais fundo. Ele está ali, embaixo da luz, mas não vê o público. O suor arde nos olhos… -“Cantar era buscar o caminho que vai dar no sol…
Ele está ali, agora iluminado, diante da plateia que não pode ver como via os casais dançando. Ele não vê o público, mas sabe que todos olham pra ele. Então ele inventa rostos, imagina expressões… e tenta entender o som das palavras sussurradas no escuro! – “… Todo artista tem ir aonde o povo está”.
Ele anda. Aproxima-se da plateia e canta com ela: – “Foi nos bailes da vida, ou num bar em troca de pão”…
A plateia segue cantando, ele se afasta, vai até uma escada muito alta, embaixo de uma lua. Um vulto sobe a escada e sobre ele o foco de luz. E o ensaio continua com a confissão “Campo Minado” (1).
Calma, leitor. A narrativa do Elifas é apenas sobre o ensaio. Imaginemos como fora o show. Emocionante, com certeza. Uma provinha desse emoção está nos dois discos. Ouça-os.
Na próxima semana, a 2ª e última parte deste tema. Aguardem!
Notinha útil – Hoje, 13 de julho, comemora-se O dia mundial do rock. Não há como ignorar esse tão palpitante gênero musical, executado nos quatro cantos do planeta, por milhões de profissionais, admiradores e fãs. A todos, os parabéns do Facetas (www.facetasculturais.com.br).
Por Angeline e Francisco Gomes e Winnie Barros.
Fonte consultada: 1. LP Duplo “O sorriso ao pé da escada” de Jessé. RJ: Gravadora Columbia, 1983.