Capinan: “Antes de fazer letras, eu fazia poesia”

A priori, a nossa ideia era a de publicarmos um artigo sobre José Carlos Capinan, Roberto Carlos e Ney Matogrosso. Os três nasceram em 1941, têm 83 anos de idade e são excelentes artistas. O 1º é baiano e nasceu em 19 de fevereiro; o 2º é capixaba e nasceu em 19 de abril; e o 3º é sul-mato-grossense e nasceu em primeiro de agosto. Porém, após a análise de “Cancioneiro Geral (1962-2023)”, cuja organização é de Cláudio Leal e Leonardo Gandolfi, resolvemos fazer uma síntese sobre a carreira de mais de seis décadas do baiano. Ficando, portanto, os outros dois para artigos individuais, também.

O livro é tão envolvente, que ficamos sem saber ao certo o que escreveríamos aos nossos leitores. Vamos, então, começar por esta nota da editora do poeta: “José Carlos Capinan nasceu em Esplanada, na Bahia, em 1941, e atualmente mora em Salvador. Formado em pedagogia e medicina, poeta do movimento tropicalista, é autor de diversos livros e da peça Bumba meu boi (1963), musicada por Tom Zé. Este Cancioneiro geral abarca mais de sessenta anos de trabalho artístico do autor, reunindo todos seus livros de poesia, além de poemas esparsos e uma vasta seleção das canções escritas pelo poeta entre 1965-2023, musicadas por Gilberto Gil, Edu Lobo, Paulinho da Viola, João Bosco, Moraes Moreira” (1).

Isso justifica a sua declaração ao jornalista Luiz Carlos Maciel, publicada no jornal “Última Hora”, do RJ, em outubro de 1969: “Eu comecei a fazer letras a partir de umas experiências, que é um comportamento totalmente diferente. Antes de fazer letras, eu fazia poesia. E ainda há uma certa linguagem poética em minhas letras – numas mais, em outras menos – em vez de uma linguagem descontraída, aberta, comum, pop, etc. Nosso trabalho, agora, é nesse sentido: de abrir, fazer sons, brincar com as palavras etc. Eu ainda preciso me livrar mais de um comportamento literário” (1).

Uma coisa é certa. Seja como poeta, seja como compositor, Capinan é acima de tudo um ser genial. “O filho de Osmundo e Judite despertou para a arte poética nos folhetos de cordel lidos na infância”, diz seu biógrafo Leal. Por meio do cantador cordelista Cuíca de Santo Amaro, “Na juventude de Capinan, a leitura do romance brasileiro dos anos 1930 completou a descoberta do imaginário da civilização nordestina”. Por exemplo,” em Inquisitorial, de 1966, livro de estreia, seus poemas elevaram a qualidade formal da poesia participante, criando, sem estreiteza, um caminho estético pessoal da contestação ao autoritarismo” (1).

“Outro vento renovador de Inquisitorial, segundo Merquior, vinha de seu compromisso com “a desclassificação do idioma lírico”, no ensaio “Capinan e a nova lírica”, de 1972, de José Carlos Merquior, o qual visualizou na produção capinaniana “o seu caráter de poesia social”, ou seja, “a ocorrência dessa posição de luta define o horizonte anímico dessa poesia, que é uma gravidade sem tristeza”. E assim completa Merquior: “O verso de Capinan é nobre, sério, sóbrio. Capinan pesa as palavras; e porque nelas descobre o peso da realidade, se proíbe de degradá-las com slogans versificados” (1). Esse observação é dos anos 70. Imagina-se o que de bom ele criou de lá para cá.

O escritor e editor paulista Ênio Silveira (1925-1996), em “A boa e verdadeira luta” de 1995, assegura: “Inquisitorial é um belo livro de poemas, cuja duradoura beleza é e será sempre revolucionária, porque, como diz Capinan num de seus versos de tão viva lucidez dialética: “Em si, como todas as coisas, o bem não existe:/Pelo mal se define e se contradiz”.

Já pisando em solo fértil da poesia, ainda em meados dos anos 60, Capinan se lança como compositor, e não tardou para colher os bons frutos, os quais, até hoje são compartilhados com excelentes parceiros músicos. Cláudio Leal, narra: “ao longo de 1966, Capinan ampliou os diálogos gerencionais nas feiras do compositores do Teatro Jovem, no Rio. Em mais um passo para a superação de fronteiras poéticas, iniciou a parceria com o sambista Paulinho da Viola. Naqueles anos de divergências sobre o horizonte pós-bossa nova, Paulinho, Edu Lobo e Gilberto Gil foram os principais parceiros do letrista, vinculados a vertentes diferentes da música brasileira” (1).

Com esses, que nas décadas seguintes seriam destaque na MPB, também fez parceria com nomes, hoje, de destaque do cancioneiro nacional como: Caetano Veloso, Jards Macalé, Fagner, Geraldo Azevedo, João Bosco, Ederaldo Gentil, Moraes Moreira, entre outros. “Capinan questionou as fronteiras entre os ofícios de poeta e letrista, sem identificar distâncias maiores no domínio, métrica, vocabulário e poder expressivo. (…) Em sua trajetória, as letras quase sempre antecederam as melodias e se espalharam na musicalidade inerente a seus poemas de livro” (1).

Em 1967, quando do advento do FIC – Festival Internacional da Canção, Ponteio, ganhou o 1º lugar. O nome propalado era o de Edu Lobo, como autor (da música; a letra é de Capinan). O mesmo ocorre com Soy Loco Por Tí, América, de Capinan e Gil, assim por diante. Muitos locutores e apresentadores, não anuncia o nome do compositor que, na maioria das vezes, não é de autoria do interprete. Hoje, com o sucesso da internet, essa situação se agravou. E muito.

Outros exemplos: Ladainha (1965) (composição: Capinan; Música: Gil); Cirandeiro (1966) (música: Edu Lobo; Composição: Capinan); Bonina (1968) (composição: Capinan; Música: Caetano); Clarice , cujos belos versos são assim: “Que mistério tem Clarice/ Pra guardar-se assim tão firme/ No coração?”. Aliás, o lendário poeta Augusto Campos, no seu livro Balanço da Bossa, elogiou a letra do bolero-baião-seresta Clarice, de 1969, de Capinan/Caetano; Gotbam City (1969), de Jards Macalé e Capinan, O Acaso Não Tem Pressa (1971), de Paulinho da Viola e Capinan; Sofrer, de Paulinho da Viola/Capinan; Moça Bonita (1981), de Geraldo Azevedo/Capinan. É uma composição linda demais; Papel Machê (1984), de João Bosco/Capinan, sucesso nacional na interpretação de Bosco: “Cores do mar/ Festa do sol/ Vida é fazer/ Todo sonho brilhar/ Ser Feliz…”; Cidadão (1991), de Moraes Moreira/Capinan, e Movimento dos Barcos (1972), de Macalé/Capinan, entre tantas outras.

Conterrânea, de Capinan, a cantora Maria Betânia, declara: “Não sou autoridade em escritos sobre livros, obras escritas de modo geral. Mas não me faltam sentimento, amor e alma para senti-los. Um livro de Capinan, com seleção de suas letras , poemas, textos, me anima, me comove, e mexe fundo comigo.

Canto desde muito cedo seus poemas musicados por tantos amigos em comum, nessa juventude guerreira e poética nos trouxe esse bem imenso. Capinan escrevendo é lírico, político, guerreiro, autor raro, brilhante, vivendo na carne cada verso, cada rima, cada expressão. Não conheço assunto em que Capinan não encontre poesia e se expresse lindamente. Autoridade total em cada assunto, cada enredo, e luminoso em toda poesia.

Meu amigo querido, inspirando gerações de cantores, músicos, autores. Que siga assim. Bravo Capinan, aplaudo de pé, comovida” (1).

Senhores, Capinan impressiona sempre. Um de seus poemas, “Movimentos dos Barcos”, tem estes versos: “Estou cansado e você também/Vou sair sem abrir a porta e não voltar nunca mais/Desculpe a paz que lhe roubei/E o futuro esperado que não dei/É impossível levar um barco sem temporais/E suportar a vida como um momento além do cais”. Amigos e amigas, Capinan é isto, como ele mesmo versou: “O poeta não mente. Dificulta”. Sim, dificulta a proliferação da maldade; do desamor; da desnatureza humana, etc. Porém, a sua poesia – cantada ou recitada – faz plantar o amor e preservar a vida.

Por Angeline e Francisco Gomes e Winnie Barros.

Fonte Consultada: 1. Capinan, José Carlos. Cancioneiro Geral (1962-1923) – 1ª ed. – SP: Círculo de Poemas, 2024.

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