Em agosto deste ano, publicamos artigo sobre o jornalista pernambucano Mauro Mota (1911-1984). Agora, é a vez de Aníbal Fernandes, também jornalista. Ambos de Nazaré da Mata (PE). A contribuição literária dos dois para a cultura brasileira, extrapola as fronteiras do país. Vejamos.
“Aníbal Gonçalves Fernandes nasceu em Nazaré da Mata, em 30 de de dezembro de 1894. Estudou no Colégio Salesiano do Recife e no Seminário de Olinda, formando-se em Direito pela Faculdade de Direito do Recife, em 1915. Foi professor, secretário de Justiça e Interior, deputado estadual e jornalista.

Começou em 1912, no Jornal Pernambucano, do professor Milet. Entrou no Diário de Pernambuco em 1917. Foi professor de Literatura e Francês do Ginásio Pernambucano, sendo afastado da cátedra por ser contra a Revolução de 1930. Foi reintegrado em 1934, quando tornou-se redator chefe dos Diários Associados.
Em 1945, o jornal posicionou-se a favor de Eduardo Gomes, candidato à Presidência da República, contra Getúlio Vargas. No dia 3 de março, o acadêmico Demócrito de Souza Filho foi atingido por um tiro, quando discursava na sacada do Diário. O jornal acusou o governo pela tragédia. As autoridades suspenderam sua circulação e prenderam Fernandes. O Diário voltou a circular em 9 de abril e em maio ele foi efetivado como seu diretor, continuando o combate, até que Vargas foi deposto em 30 de outubro.
Aníbal aposentou-se em 1949. Faleceu no Recife, em 12 de janeiro de 1962. O prefeito Miguel Arraes autorizou a instalação de um busto do jornalista, na Praça da Independência. O escritor foi membro da Academia Pernambucana de Letras e do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano. Recebeu do governo francês a Legion d’Honneur e a Inglaterra o distinguiu com a King’s Medal.
Sua primeira visita à França foi em 1927. Ao voltar, comentou: “Deixar Paris com a saudade que se sente ao deixar uma pessoa amada”. Dessa paixão resultou um profundo conhecimento da cultura francesa, como se pode aferir no texto Ideias francesas em Pernambuco na primeira metade do século XIX, de sua autoria” (1).
Segundo Mário Gomes, Presidente do Conselho Editorial da CEPE Editora em 2009, “Dizer que Aníbal Fernandes atuou por meio século como jornalista pode levar a supor que tenha vivido tão longa e ativamente como Barbosa Lima Sobrinho, que também foi a vida inteira jornalista e com muita intensidade. O seu legado era mais do que os filhos que teve e os livros que publicou – era o amor incondicional a duas cidades, Recife e Paris”.
Mário diz ainda que Aníbal praticava “um jornalismo em primeira pessoa”, ou seja, “não era o de gabinete, era o das ruas e o das grandes questões nacionais e internacionais”. E completa: “Todo jornalista dever ser um escritor – era o que ele pensava e levava à prática: a sua inspiração maior nisso era francesa”, aliás, “talvez não haja no jornalismo pernambucano exemplo mais eloquente de amor pela França”.
Ideias francesas em Pernambuco… advém de uma Conferência realizada por ele na Academia de Letras do Rio Grande do Norte (ALRN), em 1952, publicado em 40 páginas como encarte da revista Continente em 2009. É simplesmente fantástico! Nele, o autor narra fatos históricos e culturais franco-brasileiro com sapiência ímpar. E assegura: “O fato concreto é que Recife sempre foi uma cidade muito ligada à cultura francesa. “Tudo se quer à francesa” – dizia um jornal pernambucano em 1840, citado por Gilberto Freyre”.
No evento acima citado, o pesquisador relembrou a visita a Paris dois anos antes, e disse que àquela ficaria fiel até o fim “com aquele encantamento com que te vi pela primeira vez naquele longínquo 1927, num dia esplêndido de maio”. Essa afirmação diz muito na sua biografia.
Aníbal foi um francófilo maior. Por exemplo, “morto ele e após as honrarias privadas e públicas (ao velório e sepultamento compareceram o governador de Pernambuco, Cid Sampaio, e o prefeito do Recife, Miguel Arraes), no exato momento em que ia ser sepultado, o cônsul da França, Marcel Morin, para que a família e os pernambucanos vissem sempre a comenda de Aníbal, ao mesmo tempo quebra uma tradição e a reafirma, pois a Legião de Honra que está junto ao corpo de Aníbal ele a retira e dá à família, e, a sua própria, de herói de guerra, ele a põe no lugar. E assim, Aníbal Fernandes, como manda o protocolo, foi sepultado com a comenda maior da França” (1).

E, assim finaliza seu discurso como conferencista naquela Academia: “A França, conservando para nós o ideal democrático, por excelência, que é sobretudo a nossa decidida vontade de ser livres, não exporta hoje para nós outra revolução, que não seja a da ciência, das artes e das letras; as quais ali se renovam, no único ambiente possível para a inteligência; que é o ambiente da liberdade, ou seja, o ambiente “antirrobô'” (1).
Senhores leitores, aqui a referência sobre um texto imperdível da nossa História. Mas, precisamente da História de Pernambuco e de fatos também históricos francesa ocorridos a partir de meados do século XIX. Esperamos que gostem do nosso resumo aqui no Facetas. À Nazaré da Mata, distante 43 km do Recife, os nossos parabéns pelos dois ilustres escritores a citados,
Por Angeline e Francisco Gomes e Winnie Barros.
Fonte consultada: 1. Livreto anexo da Revista Continente, Recife: CEPE, nº 105, setembro de 2009.
Olá, artigo muito bem escrito. Me chamo Paulo Rodolfo, sou bisneto de Aníbal, e estamos com um projeto de resgate de suas obras, catalogando os 27 anos da coluna diária que ele escrevia no DP, chamada “cousas da cidade”. Criamos também um perfil no Instagram @cousasdorecife onde celebramos referências, artigos e ideias de Aníbal. Gostaria de fazer contato com vocês para pensarmos em algum trabalho em colaboração sobre AF. Segue meu email paulorodolfoneto@gmail.com
Obrigado e abraços.
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