O Dia Internacional/Nacional da Voz celebrado no dia 16 deste mês, está instituído no Brasil por lei desde 2008. Mas, já vinha sendo comemorado a partir de 1999, e “tem como principais objetivos aumentar a conscientização pública sobre a importância da voz e alertar sobre os problemas vocais” (1). A Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia, há 20 anos promove a campanha anual ‘Amigos da Voz’, com tema “Sua Voz Informa”. Neste 2025, a Academia Brasileira de Laringologia fez a “Campanha Nacional da Voz com o slogan: “Cuide da Sua Voz, o Som que Acompanha Você por Toda a Vida” (1).
Também entramos nessa Campanha, mas voltados para a Voz da Música Brasileira. E a escolhida para representar os demais artistas foi Clara Nunes. A começar, com o seguinte texto do Almanaque Brasil, com as relevantes palavras do genial Elifas Andreato: “Sinto Deus no momento de cantar. Cantar para mim é como respirar. Não saberia viver sem isso”, diz uma rainha do samba da década de 1980. Clara Nunes deixou saudades. Morreu prematuramente (há 42 anos), em 2 de abril de 1983, num choque anafilático durante cirurgia de varizes.
Mineira de Paraopeba, a vocação veio de berço. Pai violeiro e cantador de folia de reis. Moça, cantou em boates e clubes, no rádio e na TV, até que em 1965 (aos 23 anos de idade, apenas) mudou para o Rio. Gravou A Voz Adorável de Clara Nunes, com boleros e sambas-canção. O primeiro sucesso veio em 1968, com Você Passa e Eu Acho Graça, de Ataulfo Alves e Carlos Imperial, que marcou sua definição pelo samba.
Foi a primeira voz feminina a romper a barreira dos 100 mil discos vendidos: Claridade, de 1975, vendeu 500 mil. Quebrou outro tabu: o de que sambista não vendia discos. No auge da carreira, em 1982, lançou Nação. Era o último disco.
Sobre cantar, dizia: “Canto as músicas do meu país. Tudo o que for autêntico, eu estou aqui. Samba-canção, samba, modinha, valsa, não existe nada que eu não goste. Sou meio bobona com a música popular brasileira , com os compositores. Gosto de tantos… É uma gente maravilhosa que sabe dizer música e letra ao mesmo tempo, de tal maneira que prende a gente a noite inteira, só cantando, escutando” (2).
Modéstia à parte e, já passadas quatro décadas de sua partida, o legado musical deixado por essa inesquecível intérprete continua vivíssimo e bem executado nos meios de comunicação de massa. Por assim dizer, é oportuno repetir este tema criado por Elifas: “CANTE CLARA, OUÇA CLARA, VIVA CLARA”. A gente ouve a sua voz e logo tem a sensação de serem “novas” as suas músicas. De lançamento. O mesmo ocorre com outros cantores de sua geração, como Elizeth, Vinicius, Elis, Paulo Sérgio, que fisicamente nos deixaram há décadas, diga-se de passagem. Com Clara, esse sentimento de bem vinda sempre a sua interpretação, é bem mais forte. Que o digam os seus fãs e admiradores.
Ainda sobre ela, o cantor, compositor, musicólogo e historiador carioca Paulo César Pinheiro, que no próximo dia 28 deste mês estará completando 76 anos de idade, o qual pode ser considerado uma lenda viva da música brasileira, foi casado com Clara de 1975 a 1983, e emplacou na interpretação dela vários sucessos nacionais. Citamos, apenas dois deles: As Forças da Natureza e Canto das Três Raças.
Em 1995, foi lançado o disco Clara Nunes com Vida, produzido por ele e José Milton. Nesse trabalho, composto de 14 músicas, “foram agregadas vozes – duetos -de outros artistas”, como Chico Buarque, Elba Ramalho, Nana Caymmi, Gilberto Gil, Martinho da Vila, Emílio Santiago, etc, com músicas tipo Morena de Angola, As Forças da Natureza, Conto de Areia, Filhos de Gandhi, Mação, Menino Deus, entre outras.
Sobre esse disco e sobre a cantora que o inspirou, Paulo César, diz: “Quando um artista morre, mexer em sua obra requer extremo cuidado. Não se sabe exatamente se você está violentando aquilo que ele nos legou. Ele já não está entre nós para nos dizer se gosta ou não do que foi feito. Enfim, é sempre um assunto muito delicado e perigoso. Por isso eu ter aceito a incumbência de pilotar executivamente esse projeto. Fui eu que produziu quase todos os discos de Clara. Sabia com certeza seus gostos e preferências. E não queria que alguém, estranho ao nosso trabalho, fizesse de repente alguma coisa de que ela não gostasse. Portanto, a escolha dos convidados é mais dela própria do que minha. O critério foi seu próprio bem-querer. Eu apenas chamei as pessoas de quem ela gostava muito. É claro que faltou bastante gente. Clara era querida e respeitada e o que ela mais fez em vida foi cultivar amigos. Mas quem sabe por ter faltado Roberto Carlos, ou Caetano, ou Bethânia, ou Gal, já não mereça esse disco histórico um segundo volume? Vou torcer pra que isso aconteça.

Foi um disco sofrido de fazer. Rolou grande emoção no estúdio. Houve choro farto de alguns. Outros embargaram a voz várias vezes. Arrepiaram-se todos. E eu senti, para a minha grande felicidade, o quanto ela foi adorada. E, acima de tudo, como seus colegas de profissão admiravam o cristal de sua voz e suas interpretações inigualáveis, e quanto respeitaram-na como a artista excepcional que foi. Só ter constatado isso já me deu infinito prazer. Agradeço a cada um pela participação, pelo carinho imenso por ela demonstrado em cada brilho de olhar, em cada sorriso, em cada arrepio na espinha. Valeu por tudo tudo, pessoal, e mais ainda por terem contribuído para manter viva e sempre acesa a memória de uma das maiores cantoras que esse país já teve.
Perdoem-me os músicos. Foi impossível identificar todos os que tocaram em cada faixa, já que, nos discos antigos, não há nenhum nesse sentido. E, citar uns esquecendo outros, o erro seria ainda maior. Obrigado a vocês e me perdoem de novo.
Que esse disco sirva para que as gerações que não a conheceram percebam seu valor e importância na música popular (em todo o Brasil). E vamos pensar, desde já (por que não?) no segundo volume desse belíssimo trabalho.
P.S.: Acho que Clara se emocionaria com os duetos” (3).
Caro leitor, cara leitora, o disco em questão é lindo. Bem produzido. Duetos impecáveis, e cheio de emoções como garante o próprio Paulo César Pinheiro. Caso você não possa ouvi-lo, siga as nossas recomendações, neste lembrete: seja como cantor (a), locutor(a), professor(a), ator, atriz, ou pessoa comum, cuida bem da sua voz. Como diz a Campanha Médica: “Ela Será a Tua Companhia Por Toda Vida”. Mas, ouça música. Ouça Clara. Sem forçar as tuas cordas vocais. Cantarola estes versos que sabemos de cor: “Ninguém ouviu/Um soluçar de dor/No canto do Brasil”, ou “Detalhas tão pequenos de nós dois/São coisas muito grandes pra esquecer“, ou “Alguém me disse que tu andas novamente/De novo amor, nova paixão todo(a) contente”, ou “Das lembranças que trago na vida/Você é a saudade que eu gosto de ter” ou ainda, “Linda/Mais que demais/Você é linda sim“. E assim por diante. Sabemos que você sabe (e gosta) de outros verso musicais. Cante-os.
Por Angeline e Francisco Gomes e Winnie Barros.
Fontes consultadas: 1. htpp//bvsms.saude.gov.br; 2. Andreato, Elifas. Almanaque BRASIL de cultura popular, SP: NS & A/TAM, pág. 87, 2005; e 3. Contracapa do CD “Clara Nunes com Vida”, RJ: EMI, 1995.