“A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil. Ela espalhou por nossas vastas solidões uma grande suavidade; seu contato foi a primeira forma que recebeu a natureza virgem do país, e foi a que ele guardou; ela povoou-o como se fosse uma religião natural e viva, com os seus mitos, suas legendas, seus encantamentos; insuflou-lhe sua alma infantil, suas tristezas sem pesar, suas lágrimas sem amargor, seu silêncio sem concentração, suas alegrias sem causa, sua felicidade sem dia seguinte. É ela o suspiro indefinível que exalam ao luar as nossas noites do norte” (Joaquim Nabuco).
Em 2013, quando da passagem dos 125 da abolição da escravidão no Brasil, o professor de Literatura e Língua Portuguesas do Centro Universitário da Fundação Santo André, Juarez Donizete Ambires, publicou uma pesquisa sobre o tema acima, com abordagem histórica da literatura do racismo brasileiro desde aquele advento, onde “o acontecimento, entretanto, não surgiu do nada. Ele é fruto de uma perspectiva social que se escriturou, fazendo-se composto de diversos fatores” (1).
No estudo, consta um fato inusitado, ou seja, no dia da assinatura da Lei Áurea – 13 de Maio de 1888 -, o menino, futuro escritor Lima Barreto que completava 7 anos de idade nessa data, estava presente ao ato, juntamente com o seu pai, como forma de reunir forças para extinguir uma prática tão cruel, que era a nefasta escravidão, a qual já perdurava em terras brasilis por mais três séculos.

Anos depois daquele 13 de Maio, já homem adulto e escritor brilhante, Barreto “indagará sobre os destinos sociais dos libertos e descendentes que conhecia e avistara naquela ocasião. Sua própria obra acabara por ser a resposta mais verídica à indagação. Os negros escravizados e seus familiares continuavam à margem da sociedade. Projetos sociais não se ocuparam deles e não os fizeram ascender. Os preconceitos enfrentados ainda eram quase que os mesmos anteriores à assinatura da Lei Áurea. Na República, a igualdade era para uns poucos, tal como no Império. O processo social continuava altamente excludente. Para a constatação, bastava dar uma volta aos subúrbios e aos morros do Rio. Este era o bom conselho do velho Lima a propósito da vida, a propósito do treze de Maio” (1).
Agora, passados 137 – de maio de 1888 para maio de 2025 -, a pergunto que ecoa é esta: Como a sociedade brasileira enfrenta o racismo, às vezes, ocorre de forma velada, mas em outras a manifestação é escancarada? O pesquisador em análise, brilhantemente, seja do ponto de histórico quanto socialmente, explica esse situação, assim:
“No século XIX, os caminhos no sentido da erradicação da escravidão e do racismo são guiados pelo desejo de igualar o Brasil à Europa do que à aceitação do encontro positivo das raças. Negros e mestiços ainda são como inferiores pelos brancos.
No cenário político do Brasil à época da Lei Áurea, não era concebível a verdadeira empatia à causa libertária: ainda há um abismo entre negros e brancos, expresso, inclusive na literatura que se pretendia mais abrangente.
A luta contra a escravidão foi longa e, inicialmente, foi travada através do enfraquecimento legal e progressivo do regime, conquista com alforrias compradas com o pouco soldo que ficava com o negro escravizado e, mais tarde com leis como a do Ventre Livre, que tornava libertas todas as crianças negras nascidas a partir de então.
Na década em que seria lançada a Lei Áurea, o trabalho pro-abolição é intensificado, com mais adesões à causa por parte da considerada elite intelectual do país. Frentes pela libertação são inauguradas e até mesmo membros da Casa Real tomam parte na luta” (1).
Então, assim sendo, eis aqui algumas lições extraídas da pesquisa em questão, enumeradas pelo autor, ao decorrer do seu texto. Vamos à síntese das seguintes alternativas, sem, no entanto, prejudicar ao seu conteúdo original:
A). A erradicação da escravidão visando banir o racismo no nosso país, não foi feita com o intuito de positividade de negros e mestiços. Mas sim, “pelo desejo de igualar o Brasil à Europa’. Por essa razão, ainda hoje, quando se chega ao segundo quartel do século XXI, a percepção (e aceitação?), por elevada parcela da população brasileira considera os afrodescendentes como “inferiores aos brancos”. Isso, lamentavelmente é fato!
B). Ledo engano por parte de quem acha (ou achava) que o contexto (meio) político, seja ele partidário ou não, “à época da Lei Áurea”, era concebível a verdadeira empatia à causa libertária: a verdade é apenas uma, isto é, ainda há um abismo social medonho entre negros, brancos e outros elementos Brasil a fora.
C). A luta resistente pelo fim da escravidão secular que aqui existiu, enfrentou forças antagônicas terríveis: pela libertação, havia setores favoráveis sim, fosse no setor econômico, no político, etc. Porém, do lado contrário, maciçamente estavam os sustentáculos “dos senhores” de diferentes setores produtivos…; dos barões…; dos coronéis…; dos fazendeiros; dos agricultores poderosos, entre outros grupos fortes. “A mudança”, no entanto, só veio com o “enfraquecimento legal e progressivo do regime então vigente” escravocrata que já, à época, não se sustentava em pé. O que originou, por exemplo, as favelas do Rio? Foi a libertação dos oprimidos, após ouvirem dos seus senhores: “livres, deixem as minhas terras!”.
D). Em 1880, “parte da considerada elite intelectual do país” se mobilizou para para pôr fim à escravidão. O pesquisador cita alguns nomes de abolicionistas como o escritor Bernardo Guimarães, o poeta Castro Alves, o cronista Lima Barreto, entre outros. Porém, os grilhões da opressão (já bem enraizados) eram terrivelmente fortes, homogêneos.
Passado, portanto, quase um século e meio daquele histórico – pelo menos isso – daquele 13 de maio de 1888, o Brasil, de Norte a Sul continua vivendo com as chagas do racismo, do preconceito bem abertas. Sangrando. Bem à sombra da desigualdade social que grassa, grassa nos estratos sociais mais vulneráveis. Por falta de Leis não é. É o quê, então!?
Notinha útil – Neste mês as nossas felicitações vão para a nossa Winnie que completou mais uma aniversário e, para aumentar o nosso contentamento, o jovem Heitor completou mais um mês de muita vida e saúde. Aos dois, os nossos parabéns!.
Por Angeline e Francisco Gomes e Winnie Barros.
Fonte consultada: 1. Revista “o professor”, Santo André, SP, junho/2013, art. de Juarez D. Ambires.