No próximo dia 1º de agosto ele estará completando 84 anos de idade. Mais de dois terços desse tempo têm sido dedicados à arte de dançar, cantar, coreografar, interpretar, etc, em todo Brasil. Estamos falando de Ney de Souza Pereira, ou melhor, do artista Ney Matogrosso, nascido na cidade de Bela Vista, Mato Grosso do Sul, em 1º de agosto de 1941.
Consta na sua biografia, cuja obra é de autoria de Ramon Nunes Mello o seguinte: “Ney Matogrosso navega em diferentes dimensões de tempo e de espaço, por isso cria novas realidades. Busco o homem e o artista, muito além do clichê da representação da liberdade sexual, o “astronauta lírico” – aquele da letra de Vitor Ramil -, ser cheio de luz que nos leva com seu canto a sobrevoar a Via-Láctea, o espaço sideral, busca de uma supernova sempre em conexão com o tempo-arte sincrônico da natureza” (1).
Essa constatação, por exemplo, pode ser verificada, também, no artigo “Breve discurso sobre o masculino e o feminino na moderna canção brasileira”, do então jovem e talentoso e versátil jornalista Nelson Motta, e publicado em O Globo, no dia 16 de fevereiro de 1975, há 50 anos, portanto:
“Muito tempo depois da escandalosa separação do Secos e Molhados e muito mais tempo depois do escândalo inicial que foi a aparição do grupo, Ney Matogrosso está na mira de uma tardia campanha contra sua forma de se expressar artisticamente, e de quebra, sua opção de vida. No outro corner, Carlos Imperial, que, como se sabe, tem vocação para o tumulto, e adora um agito, de vez em quando, mantendo assim sabiamente seu nome em evidência durante mais tempo que a carreira de muitos artistas. Abatendo suas lebres e aguardando ávido o primeiro neto.
Mas o fato de alguém, mesmo sendo Carlos Imperial, ter iniciado uma campanha contra Ney Matogrosso mostra que muita gente pensou em falar mal mas esperou alguém como Imperial levantar a lebre. E agora se apressam em abatê-la.
Mas a um conceituado editorialista também espantam, agridem e incomodam as maneiras de Ney viver e se apresentar. A um culto e respeitável homem de negócios causam certa repelência as roupas, os trajetos e a voz feminina de Ney. A outros igualmente informados, inteligentes, sensatos e até liberais, parece que Ney deveria se apresentar de forma mais máscula. Ou menos feminino. Embora todos reconheçam suas extraordinárias qualidades canoras.

Como se fosse possível desvincular a voz e a maneira de cantar de Ney de suas roupas, sua postura, suas ideias e seu timbre vocal raro e lindíssimo. Como se fosse lícito impor a qualquer pessoa um jeito de andar, de falar, de pensar e de sofrer ou de amar. Como se fosse inteligente deixar de desfrutar um todo, som e imagem, corpo e alma, martelo e bigorna, em favor de uma das partes, que nem se quer pode ter vida própria.
Mas é inquietante pensar sobre que mágico poder terão os trapos e peles de Ney Matogrosso, a ponto de enfurecer os que zelosamente zelavam e zelam pelos bons costumes. Que estranha potência a dança de Ney tem que pode provocar ódios tão violentos, definitivos e ameaçadores? O que o cantor de música popular Ney ameaça? A quem? De que maneira? A quantos? Por quê?
Que padrões de vida, que conceitos existenciais podem ser frágeis a ponto de serem ameaçados pela presença de um…cantor. Um simples ser humano que tem por dom e ofício o canto. Como alguns tem vocação para medicina, jornalismo, vagabundagem ou simplesmente ganhar dinheiro.
Qualquer leitor de almanaque sabe que os seres humanos são constituídos de um princípio masculino e um feminino. E que quando um prevalece sobre o outro isso determina o sexo da criatura. Aliás com plantas e animais dá-se o mesmo. É, portanto, impossível a existência de uma criatura, a não ser em nível de anomalia, totalmente feminino e masculino.
Ney Matogrosso também é importante porque foi um dos primeiros artistas brasileiros a terem a coragem da autoexposição total ao público. Porque Ney abre a discussão onde as pessoas podem exprimir sua violência, seus medos e seus ódios.
Ney Matogrosso, com roupas convencionais, cantando de uma maneira estabelecida canções estabelecidas, com seu timbre vocal agudo e raro, seria o máximo insólito. Quase grotesco pela evidente contradição que se conteria.
Mas ele teve a ousadia (apesar de ser uma das pessoas mais tímidas e frágeis que já conheci) de se transformar, por vontade e determinação próprias, num dos artistas mais fortes e originais destes tempos (isso em 1975, e 30 anos de idade) em que o “intérprete” é raça em extinção.
Ele inicia agora uma carreira individual e, sem o becking protetor do grupo, se tornará mais facilmente alvo de discussão, campanhas, brigas e até reflexões. Algumas perguntas: que importância terá a masculinidade num intérprete de música popular? E a feminilidade? E a assexualidade? E a mediocridade? E a verdade? E a saudade? E a maldade? E a vivacidade? E a grande cidade? E a imensa vontade?
Há intérpretes de extraordinária masculinidade aparente, mas que na verdade não são tão másculos assim. Da mesma forma que há cantoras que cantam com intensa feminilidade, mas não encontram o mesmo tom. Muitos não deixam aparecer porque acreditam que “seja imagem”, já assumindo assim uma postura de culpa do que escolheram por livre vontade, nada obrigando a isso. Domar o instinto humano é tarefa, por assim dizer, “ciclópica”.
Ney Matogrosso se “expõe à audição pública como o faquir da dor” da música de Macalé. E permite que seja questionada a sua condição humana e artística. E canta com uma afinação e uma técnica vocal que raramente acontecem na música brasileira. E inicia agora uma carreira individual destinada a provocar escândalos permanentes, mas que serão criativos, já que permitirão que os medos e os ódios se revelem e se tornem assim menos mortais” (1).
Meio século depois das geniais palavras acima, Ney está aí – e Nelson Motta, também – firme e forte e é um dos maiores cantores brasileiros. Teve vida e profissão insultadas? Sim. Mas soube impor respeito, com respeito para superar as intolerâncias … A ação do racismo e do preconceito já foi pior nas terras tupiniquins. Mesmo não sendo um(a) fã ou admirador(a) de Ney Matogrosso, após a análise do livro citada aqui nós, o leitor(a) terá certeza que trata-se de um ser original e autêntico profissional.
Notinha útil – Os parabéns de hoje do Facetas vão para o médico do Exército Brasileiro, o abnegado Dr. David, que está de plantão lá na grande Recife (PE). Ao mesmo, a nossa equipe deseja muita saúde e vida longa (www.facetasculturais.com.br).
Por Angeline e Francisco Gomes e Winnie Barros.
Fonte consultada: 1. Mello, Ramon Nunes. Ney Matogrosso – vira-lata de raça.- SP: Tordesilhas, 2018.