“A gente também fala tupi”

A Rádio Senado, cuja programação é veiculada em praticamente todo o Brasil, divulga uma série de campanhas educativas voltadas para todos os seguimentos sociais. O título acima, por exemplo, “explora a influência da língua tupi no português falado no Brasil, destacando palavras e expressões de origem tupi que fazem parte do nosso cotidiano”, justifica a emissora. Como já tínhamos dados nesse sentido, vamos divulgá-los aqui, em pelo menos três edições semanais. São termos superinteressantes e, às vezes, curiosíssimos. Vamos a algumas dessas palavras.

GURI: “Do tupi gwiri, designando o filhote de bagre e, por extensão, a criança. Tem o significado de pequeno, em sentido amplo. É muito usado no Brasil meridional (Região Sul) para designar crianças, adolescentes e jovens, inclusive no feminino, guria”. Na música O Meu Guri, Chico Buarque consagra essa palavra, assim: “O guri no mato, acho que tá rindo/Acho que tá lindo de papo pro ar/Desde o começo, eu não disse, seu moço/Ele disse que chegava lá//Olha aí/Olha aí/Olha aí o meu guri, olha aí”. Trata-se de um clássico do cancioneiro nacional, principalmente na interpretação de Beth Carvalho e Elza Soares. A canção aborda a dura realidade da violência urbana e a relação de uma mãe com seu filho inserido nesse contexto de insegurança.

Fonte: https://www.ufrgs.br/sextante/palavra-e-chave-que-abre-caminho/b

TRAÍRA: “Do tupi tare’íra, peixe, pronunciado traíra pelos portugueses; conhecido também como cipó-de viúva, dorme-dorme, jeju, maturaqué e taraíra. A semelhança fonética com trair e vocábulos do mesmo étimo, dado que a traíra tem dentes fortes, com quatro incisivos afiados, capazes de ferir com gravidade o pescador, fez com que designasse também traidor”. Um exemplo: o jogador de futebol Dunga, ao ergue a taça do Tetra da Seleção Brasileira em 1994, irritado com as críticas que recebera da imprensa, disse aos fotógrafos: “Essa taça é para vocês, bando de traíras”.

JURURU: “Do tupi yuru-ru, pescoço pendido, dando a impressão de ter perdido a alegria por estar de cabeça baixa, calado; na passagem do tupi para o português, jururu tornou-se sinônimo de desanimado”. Por exemplo: O filho do patrão, ultimamente, anda meio jururu.

GUARARAPA: “Variação de guararape, do tupi wara’rape, nos tambores. Seu primeiro registro foi feito por frei Rafael de Jesus (1614-1693) em Castrioto ou História da Guerra entre Brasil e Holanda durante os anos de 1624 a 1654, terminada em gloriosa restauração de Pernambuco e das Capitanias confinantes: “Guararapes, na língua do gentio, é o mesmo que estrondo ou estrépito, que causam os instrumentos de golpe, como o sino, o tambor, o atabale e tantos outros, e o rumor e as concavidades deles (montes), lhes deu o nome de Guararapes”. Passou, então a designar o som da pancada e do golpe propriamente dito. Com tal sentido aparece em A Briga na Procissão da Via-Sacra, cordel de Chico Barbosa, em que, na celebração religiosa, com atores improvisados, um centurião romano bate em Jesus Cristo. Este reage, enfrentando o agressor: “Até mesmo São José/Que não é de confusão/Não ânsia de defender/O filho de criação/Aproveitou a guararapa/Pra dar um monte de tapas/Na cara do bom ladrão./A briga só terminou/Quando o doutor delegado/Interveio e separou/Cada um pro seu lado!/Desde que o mundo se fez/Foi esta a primeira vez/Que Cristo foi pro xadrez/Mas não foi crucificado”. Tem mais. O Aeroporto Internacional do Recife (PE), é chamado de Guararapes – Gilberto Freyre.

SACI: “Do tupi sa’si, entidade fantástica. É portador de deficiência física, como se diz, pois tem uma perna só. Usa um gorro vermelho, por isso foi tomado para mascote do Internacional de Porto Alegre, um dos maiores times de futebol do Brasil. O saci integra uma legião de seres fantásticos, presentes nas crendices de nosso povo, de que são exemplos a mula-sem-cabeça, o lobisomem, o boitatá e bruxas que voam em cabos de vassouras para ali adiante fazer seus feitiços”.

TICO-TICO: “Do tupi tik tik, modo de os indígenas determinarem um pássaro pelo som de seu canto. Com 15 centímetros de comprimento, de cabeça estriada de tinto e negro com pequeno topete, garganta branca e colar ferrugíneo, ele é conhecido também pelos nomes de jesus-meu deus, maria-é-dia e maria-judia. Temos, também, Tico-Tico no Fubá, a famosa música composta por Zequinha de Abreu. E, ainda, deu nome a O Tico-Tico, primeira revista informativa do Brasil, lançada em 1905. Tinha quadrinhos, charadas, História, ciência, adivinhações, variedades. Escreve Crlos Drummond de Andrade (1902-1987): “O Tico-tico é pai e avô de muita gente importante. Se alguns alcançaram mas fizeram bobagens, o Tico-tico não tem culpa. O dr. Sabe-Tudo e o Vovô ensinaram sempre a maneira correta de viver, de sentar-se à mesa e de servir à pátria. E da remota infância, esse passarinho gentil voa até nós, trazendo no bico o melhor que fomos um dia. Obrigado, amigo!’ “

Muito legal, senhoras leitoras, senhores leitores. O nosso intuito é enriquecer o domínio do idioma. Nos próximos artigos teremos mais expressos interessantes.

Notinha útil – Nesta semana, a Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) realizou vários eventos científicos com professores, acadêmicos e convidados afins, em comemoração da Semana de Farmácia. A integrante deste Facetas, Angeline Gomes, foi certificada e premiada, pois, entre tantos projetos apresentados na modalidade oral, ficou entre as três melhores exposições das avaliadas. Tanto para ela, quanto para a Instituição e organizadores dos trabalhos, os nossos parabéns. Viva a CIÊNCIA! (www.facetasculturais.com.br)

Por Angeline e Francisco Gomes e Winnie Barros.

Fontes consultadas: Coluna “Etimologia”, do professor Dionísio da Silva; revista Caras, anos 2008,2009 e 2010, nºs 758, 824, 830, 867,884 e 885.

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