O Facetas já fez uso das sábias palavras de Álvaro Maia quando da publicação do memorável poema “SE”, de autoria do poeta indiano Rudyard Kipling (1865-1936) com tradução desse caboclo, em 1951. Aliás, em 1925, aos 32 anos de idade , Álvaro foi aclamado como o “Príncipe dos poetas amazonenses” devido a sua destacada obra literária lírica e regionalista.
Álvaro Botelho Maia, nasceu no Município de Humaitá (AM), situado às margens do rio Madeira, no dia 19 de fevereiro de 1893, há 133 anos, portanto, e faleceu em Manaus (AM), no dia 4 de maio de 1969, aos 76 anos. Foi jornalista, professor, poeta, tradutor, etc. Além de servidor público, deputado federal, foi governador do Amazonas, de 1951 a 1955 e membro da Academia Amazonense de Letras (AAL). Publicou várias obras, entre elas: “Na Seara da Juventude”, “Pela Glória de Ajuricaba”, “Velhos e Novos Horizontes”, e principalmente, “Canção de Fé e Esperança”.
Em 2013, a escritora, pesquisadora e membro da AAL, a amazonense Carmen Novoa Silva, organizou e publicou a “Edição comemorativa aos 90 anos do Discurso Poético de Álvaro Maia”, ou seja, a íntegra de “Canção de Fé e Esperança”, declamada por seu autor em 1923. Passados 102 anos daquela solenidade, aquelas “palavras ainda hoje poderiam ser ditas por permanecerem vivas”(1), não apenas na prateleiras das bibliotecas, mas, na memória, na vida das pessoas, na História do Estado do Amazonas.
De início, a pesquisadora diz: “São passadas exatamente nove décadas da oratória e peça poética literária mais inspirada do século passado nos anos vinte. Foi em novembro de 1923. O jovem poeta Álvaro Maia de 30 anos, faz discurso na autêntica catedral civil de Manaus, o Teatro Amazonas. Portas abertas para a grande festa cívica que ali se encontravam o que de melhor havia na intelectualidade, na cultura e na política da época. Naquela noite, comemorava-se o primeiro centenário da adesão do Amazonas à Independência do Brasil” (2).
A historiadora garante que passados 90 anos do registro de “uma página antológica” daquelas palavras, “ainda hoje podem ser compreendidas pela atualidade em muito de seus aspecto, principalmente sociais”. Via-se naquele jovem um grande estadista, o qual acreditava no futuro político e econômico do Amazonas; via-se o Álvaro otimista, por descartar a crise da borracha de uma eterna derrota comercial; e, via-se ainda, o moço conselheiro dos jovens, quando assegurava: “Os amazonenses devem repelir – para a salvação da terra – os mendigos do voto, os negocistas da felicidade do Estado e que se corrompem pelas cômodas posições de um ‘status'” (2).
Na noite de 9 de novembro de 1923, o orador “constituiu uma das mais poderosas utopias hodiernas. As inúmeras laudas proferidas sacudiram a sociedade ali presente – e graças ao dom superlativo da oratória, conseguia com que os ouvintes ficassem inebriados sem perceberem o quão longo (no sentido de atemporalidade) era aquele manifesto” (2). Comemorava-se com chave de ouro e, “em meio a programação da esplêndida festividade de inteligência e vibração patriótica, foi concedida a palavra ao amazonense Álvaro Botelho Maia, para que falasse em nome da mocidade” (2).

Iniciou a leitura de Canção de Fé e Esperança com eloquência: “Minhas senhoras e meus senhores, somente o esplendor desta hora febril, hora de reverência ao passado e de saudação ao futuro, obrigaria o mais obscuro dos moços amazonenses, a entoar, em nome de companheiros da mesma jornada, a sua canção de fé e esperança, ajoelhado, como em aras sacrossantas, sobre a Terra bendita, destinada a ser o ninho de grandes realizações quando a América implantar a hegemonia definitiva no mundo” (2).
Os presentes ouviram ainda, pela segunda vez, a seguinte admoestação: “Repetir sempre com ousadia, os mendigos do voto, os negocistas da felicidade do Estado pelas cômodas posições do movimento… A reabilitação do explorado está em marcha. Não mais protelar direitos, não mais aplaudir leis clandestinas, urdidas em segredo, como os pactos que os salteadores premeditam… Desde o operário ao letrado, encontrarão alento nos poderes obrigados a empregar os impostos a prol do povo e da terra. Não mais os traficantes da fortuna pública” (2).
Prossegue: “Os amazonenses não sonham com muralhas para o Amazonas. O sectarismo não encontra adepto aqui. Desejam que homens de todos os climas selecionados procurem estes rios, purifiquem a raça e abram sulcos para as sementes. Pensam que esses homens, nacionais e estrangeiros, têm direito às posições pelo esforço desenvolvido, que é a recompensa natural do trabalho. Querem apenas pudor, querem brio, querem competência”. Completando, conclama: “Sigamos Rui. Façamos de suas palavras um evangelho, em sua profética invocação à liberdade” (2).
Já se ouviam os aplausos, quando concluía assim o canto forte da sua canção esperançosa por dias melhores, em todos os sentidos: “É inútil abafar a chama da liberdade nos peitos em que resplandece silenciosamente, porque, no momento oportuno, ela encontrará abertura por onde fuja em caminho do céu, rasgando valas e crateras. E essa chama triunfante existe dentro de nós: apenas aguarda a hora de rebentar o seio negro em que jaz, e voar, e fulgir*, e viver…” (2). * Assim mesmo, com “l”, do verbo fulgir.
Recomendamos aos nossos leitores “Canção de Fé e Esperança”. Trata-se de uma obra fascinante, tal qual “Oração aos Moços” de Rui Barbosa, que Álvaro faz menções em sua poética. Não são livros densos em páginas, mas importantes para a nossos literatura, nossa História. Nosso refletir.
Por Angeline e Francisco Gomes e Winnie Barros.
Fontes consultadas: 1. A Crítica, Manaus, sexta-feira, 19.02.1993; 2. Carmen Novoa da Silva – org. Álvaro Maia: “Canção de Fé e Esperança”, 90 anos depois (1923-2013), Manaus, AAL, 2013.