Terra! Terra! Terra!

“Nesta vida, morrer é fácil. Difícil é a vida e seu ofício…” (Vladimir Maiakovsky).

Na semana passada, a imprensa mundial “fugiu” das guerras para noticiar – exaustivamente -, a saga de quatro astronautas distantes há milhares de quilômetros da Terra, quando faziam um giro nos arredores da lua, numa cápsula na NASA a uma velocidade de mais de 40 mil km/h. Enquanto essa façanha ocorria, os demais bilhões de pessoas ficaram aqui mesmo, na Terra. A nossa morada.

No próximo dia 22 de abril, será lembrado (ou comemorado) o Dia Internacional da Terra, proposto em 1970, pelo senador norte-americano Gaylord Nelson, “cuja finalidade é criar uma consciência comum aos problemas da contaminação, importância da conservação da biodiversidade e outras preocupações ambientais para para proteger a Terra”.

O escritor Frei Betto (81 anos), publicou, há mais de 20 anos, um texto sob o título DESTERRADO“, com esta reflexão sobre a Terra: “No 8º andar, mesmo descalço, estou distante da superfície. Há uma montanha de cimento e ferro entre meu corpo e a terra (chão) que produz alimentos e flores, abre-se em rios e mares, acolhe pedras e absorve chuvas. Desço. A caminho do trabalho, sou transportado por veículo que me mantém a certa distância do dorso do Planeta. Trafego por avenidas que já foram rios e ruas que vedam as costas de nossa morada cósmica com uma densa camada de asfalto. Subo no elevador, caixa metálica que nos distribui por salas e escritórios. À hora do almoço, piso calçadas espessas com meus pés cobertos por grossas solas de material sintético.

Nunca deixo meu corpo em contato direto com a mãe Gaia. Meu computador tem um fio-terra, mas eu não. Guardo em mim toda energia acumulada, que dilata gorduras que entopem artérias, faz desabrochar úlceras, prepara o coração para o infarto e aquece a tensão que me tornam estressado.

Não piso a selva para não sujar os pés; temo me arranhar na aridez das pedras; e quase nunca mergulho no mar. Ser aéreo, trafego sem contato direto com o Planeta que é minha terra mátria. Carregado pela fita isolante que me envolve, não piso na Terra. Piso em meus semelhantes. Impaciente, reajo a todo contratempo e trago a intolerância como escudo. Sou um filho de Gaia. que cortou o cordão umbilical, como se pudesse dispensar o leite materno. Já não intercambiamos energias. Meus pés servem apenas para movimentar as pernas. Assim, isolo meu corpo e o corpo do Planeta, escondendo-o sob pedras, areia, asfalto e prédios.

Enterro a Terra. Sem me dar conta de que construo minha própria tumba, tão lacrada quanto as do faraós. A diferença é que eles as ocupam quando mortos. Eu ocupo um espaço muito mais amplo do que as pirâmides. Vivo no imenso sarcófago da megalópole, cujos shopping centers são pirâmides estilizadas. Sou um desterrado. E ainda insistem em me convencer de que isso é progresso” (1).

Outra prece dedicada à Terra, vem da música homônima de Caetano Veloso, lançada originalmente no disco “Muito“, em 1969, segundo próprio, essa composição surgiu quando o baiano estava preso pela ditadura militar, e viu, pela janela, fotos da Terra feitas pela NASA, à distância. A seguir, a letra oficial: “quando eu me encontrava preso/na cela de uma cadeia/foi que eu vi pela primeira vez/ as tais fotografias/em que apareces inteira/porém lá não estavas nua/e sim coberta de nuvens/terra/terra/por mais distante/o errante navegante/quem jamais te esqueceria? // ninguém supõe a morena/dentro da estrela azulada/na vertigem do cinema/mando um abraço pra ti/pequenina como se eu/fosse o saudoso poeta/e fosses a paraíba/terra/terra/o mais distante/o errante navegante/quem jamais te esqueceria? // eu estou apaixonado/por uma menina terra/signo de elemento terra/do mar se diz terra à vista/terra para o pé firmeza/terra para a mão carícia/outros astros te são guia/terra/terra/por mais distante/o errante navegante/quem jamais te esqueceria? // eu sou um leão de fogo/sem ti me consumiria/a mim mesmo eternamente/e de nada valeria/acontecer de eu ser gente/e gente é outra alegria/diferente das estrelas/terra/terra/por mais distante/o errante navegante/quem jamais te esqueceria? // de onde nem tempo nem espaço/que a força mande coragem/pra gente te dar carinho/durante toda a viagem/que realizas no nada/através do qual carregas/o nome da tua carne/terra/terra/o mais distante/o errante navegante/quem jamais de esqueceria? // nas sacadas dos sobrados/da velha são salvador/há lembranças de donzelas/do tempo do imperador/tudo tudo na bahia/faz a gente querer bem/a bahia tem um jeito/terra/terra/o mais distante/o errante navegante/quem jamais te esqueceria? (2).

Nestes dias de abril, no Brasil (entre 19 e 22) são várias as Datas Comemorativas. Entre elas, escolhemos o Dia da Terra, para que todos juntos, possamos refletir melhor o nosso modelo de vida neste Planeta. Já somos mais de 8,3 bilhões de seres humanos (entre outros bilhões de outras espécies), possamos sobreviver um pouco mais, às guerras. Ficam aqui, as duas mensagens citadas: Frei Betto e Caetano Veloso.

Por Angeline e Francisco Gomes e Winnie Barros.

Fontes consultadas: 1. Almanaque BRASIL de Cultura Popular, SP: MKT/TAM, 2005; 2. Veloso, Caetano. Literatura Comentada. SP: Abril Educação, 1981.

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