A literatura é realmente fascinante. A russa, então, apaixonante. E, seus principais criadores, geniais, imortais.

Poderíamos citar aqui, uns 10 deles, cujas obras figuram entre as mais importantes do mundo. No entanto, vamos de Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, autor de vários livros famosos, com destaque para Os Irmãos Karamázov, sua obra-prima. Nascido em Moscou a 30 de outubro de 1821, e falecido em São Petersburgo, a 9 de fevereiro de 1881, aos 59 anos.
“Filho de um médico militar assoberbado de trabalho, o menino recebeu dele poucas atenções. A mãe, desdobra-se em cuidados e carinhos orientando-o, ainda, para uma vida cristão” (1). Aos 16 anos ingressou na Escola Militar, diplomando-se em Engenharia. Em 1842, aos 19 anos, lia bastante Balzac, Victor Hugo, Byron, Scort e mestres russos. Nessa fase, escreveu “seus primeiros versos revelando, desde logo, um espírito angustiado, pessimista e irônico” (1).
“Bem posto financeiramente dentro do militarismo que não o agradava, o jovem passou a ter uma vida desregrada, tornando-se, inclusive, jogador inveterado. Introvertido e fatalista, mais se fechou ao ter conhecimento de que era epiléptico. A doença e a morte súbita do pai contribuíram para sua regeneração. Inclinado para as letras, abandonou a carreira militar em 1846, época em que produziu Pobres Diabos, seu primeiro romance” (1).
Por ser ferrenho defensor das liberdades e detentor de espírito democrata, logo logo envolveu-se nos movimentos revolucionários e, foi preso com inúmeros companheiros, na maioria estudantes. Por isso, “foi condenado à morte (1849). Contudo, no instante em que ia ser fuzilado, chegou a ordem do tzar para suspender a execução. Comutada apenas para trabalhos forçados na Sibéria ele cumpriu a pena durante 4 anos” (1).
Ainda vivendo na região siberiana, em 1857, casou-se com Maria Dmitrivna e dois anos depois o casal segue para São Petersburgo, “com a saúde profundamente abalada e o espírito marcado pelos sofrimentos. Nesse novo recanto, associa-se ao irmão Miguel e fundam a revista O Templo, conquistando a admiração da crítica. Dostoiévski continuou a escrever incansavelmente, produzindo extraordinárias obras (…). Tornando-se popular na Rússia e ainda é considerado um dos maiores escritores do mundo, em todos os tempos. Extraordinariamente sensível, soube transmitir imagens bem nítidas e, até mesmo cruéis, da vida” (1).
Para quem ainda não sabia, por exemplo, a edição de Os Irmãos Karamázov, ora em análise, tem 911 páginas e está dividida em 4 partes, que juntas totalizam seu bojo em 12 livros mais o epílogo e duas narrativas. É uma obra grandiosa, em todos os sentidos. A tradução é do mestre paulista Herculano Villas-Boas. O prefácio é do próprio autor. Tudo é fantástico! Leia a seguir, a sua íntegra:
“Ao iniciar a biografia de meu herói, Alexei Fiódorovitch Karamázov, sinto certa incerteza. Na verdade, embora eu o chame de meu herói, sei que ele não é um grande homem; assim, antevejo, fatalmente, perguntas como estas:
Em que Alexi Fiódorovitch é extraordinário, para ser escolhido como o herói do leitor? O que ele fez? Pelo que ele é conhecido, e por quê? Eu, como leitor, tenho motivos para consagrar o meu tempo a percorrer a sua vida?
A última pergunta é mais delicada, pois só posso responder:
– Talvez; você mesmo, leitor, vai descobri-lo no romance.
Pois bem… e se você ler o livro sem achar o meu herói extraordinário? Digo isso com pesar, pois já o adivinho. A meus olhos, ele é extraordinário, mas duvido muito de poder convencer o leitor a concordar comigo. De fato, ele é muito ativo, com certeza, mas de forma um tanto vaga e obscura. Aliás, seria estranho, em nossos tempos, exigir clareza das pessoas! Entretanto, há algo além de qualquer dúvida: o nosso herói é um homem estranho, diferente, até mesmo original. Todavia, a sua estranheza e originalidade, longe de garantirem o direito à atenção, são prejudiciais, sobretudo quando todo o mundo busca coordenar os indivíduos a descobrir algum sentido geral no absurdo coletivo. Quase sempre original é o indivíduo que se situa à margem. Não é verdade?
A quem discordar, afirmando: “Não é verdade”, ou “nem sempre é verdade”, posso reafirmar o valor do meu herói. Pois não somente “nem sempre” o original é o indivíduo que se situa à margem, mas, ao contrário, talvez seja precisamente ele que esteja presente no próprio coração de seu tempo, enquanto seus conterrâneos se distanciam deles, levados por correntes e modismos passageiros.
Alias, em vez de enveredar em explicações confusas e sem interesse, eu teria simplesmente começado a nossa história sem este prefácio – se a minha história for cativante, ela há de ser lida -, mas acontece que, para uma só biografia, imagino dois romances. O principal romance seria o segundo, ao narrar as ações do meu herói no tempo presente. O primeiro romance se passa há treze anos; na verdade, é só um momento da primeira juventude do herói; mas ele é indispensável, pois, sem ele, muitas coisas seriam incompreensíveis no segundo romance. Entretanto, isso apenas aumenta o meu constrangimento: se eu, que sou o biógrafo, acho que um só romance bastaria para um herói tão modesto, tão vago, como apresentar dois romances e justificar essa minha dupla pretensão?
Perdendo-me nos labirintos dessas questões, decido-me a fugir delas, deixando-as suspensas. Naturalmente, o leitor astuto já adivinhou, desde o início, que deixá-las suspensas era a minha intenção, e não deseja que eu perca um tempo precioso com palavras inúteis. A ele digo que o fiz por polidez, e também por astúcia, “para que todos estejam avisados”. Ademais, agrada-me que meu romance se divida em duas narrativas, “sempre conservando a unidade fundamental de seu todo”: depois de conhecer a própria história, o leitor verá, por si mesmo, se vale a pena abordar a segunda. Sem dúvida, todos são livres; é permitido fechar o livro já às primeiras páginas da primeira história, para nunca voltar a abri-la. Mas há leitores meticulosos, que desejam ir até o fim, para não deixarem de ser imparciais no julgamento do romance; entre eles encontram-se, por exemplo, todos os críticos russos. Ante eles, sinto-me com o coração mais leve: apesar de sua consciência metódica, dou-lhes um argumento dos mais fundados para abandonarem a história logo à primeira cena do romance. Eis o meu prefácio terminado. Concordo plenamente que ele é inútil; mas, já que está concluído, vamos deixá-lo.
Agora, vamos aos fatos” (2).
Desejamos a todos, sucesso de leitura e interpretação.
Notinha de felicitações – O Facetas parabeniza a princesinha Maria Clara dos Anjos Siqueira, que nesta data completa 10 anos de idade. Segundo sua mãe, Renata Daniele, a filha adora ouvir leituras. Há algum tempo, essa criança foi a homenageada da nossa Notinha útil, quando seu pai nos informou que lia para ela textos do nosso blog. Maria Clara, tenha muita saúde e vida longa. São os votos da equipe do Facetas (www.facetasculturais.com.br).
Por Angeline Gomes e Francisco Gomes e Winnie Barros.
Fontes: 1. Dicionário Biográfico Universal Três. SP: Editora Três, volume 4, pp. 62/63, 1983; 2. Dostoiévski, Fiódor. Os Irmãos Karazámov. – 1ª ed. SP: Martin Claret, 2013.