“Violeta Branca, a poetisa amazonense”

Desde que li o poema Símbolo, de sua autoria, na década de 1990, fiquei interessado em conhecer melhor as obras da poetisa Violeta. Porém, não encontrava informações suficientes. Agora sim, conseguimos “Ritmos de Inquieta Alegria”, uma de suas produções literárias. Somado a advento da Internet, todo o conteúdo nos possibilitou a edição deste artigo.

Para contentar ainda mais os nossos corações, vamos à leitura destes belos versos do poema Nostalgia do Mar: “Amanhã voltarás para o mar…/Enquanto eu ficarei numa tristeza longa, dolorosa,/tu, que trazes na alma altaneira/o orgulho e a boêmia do marinheiro,/partirás sorrindo…/E não terás para mim um pensamento de amor./Tua alegria será jovial e franca./Mas sentirás que te acompanha sempre,/sempre um perfume sutil de violeta branca…”

“Violeta Branca Menescal de Vasconcelos, amazonense de Manaus, é uma das poetisas mais sensíveis do nosso país. Violeta nasceu a 14 de setembro de 1915, e (ainda muito jovem) ingressou na Academia Amazonense de Letras no ano de 1937. Tem grande produção e essa, publicada em todos os jornais e revistas, em que teve colaboração grandiosa. Publicou em 1934 um livro de versos intitulado “Ritmos de inquieta Alegria”. Hoje publicamos uma poesia – Símbolo – na qual Violeta Branca faz uma homenagem à terra em que nasceu: o Amazonas” (1). A seguir:

“É porque nasci no Amazonas/que tenho a alegria das cachoeiras,/a minha voz/o ritmo das águas rolando sobre as pedras,/e os meus olhos/são dois muiraquitãs,/com a fosforescência dos olhos das onças…/E que os meus cabelos têm o reflexo do sol/na escuridão das matas,/e o perfume agreste das orquídeas…/Que as minhas mãos sugerem gaivotas/voando pelas praias,/ou lenções brancos/dizendo adeus a quem se vai…/que meus versos têm a sonoridade/do canto dos pássaros/e o meu riso a suavidade das espumas…/E é porque eu sou um poema humano/escrito com a água dos rios/e o sumo dos frutos silvestres,/que a tua sensibilidade de homem do sul,/acostumado a lutar com o oceano,/encontrou em mim um motivo novo, uma festa inédita/na luminosidade da tua vida” (1).

Que musicalidade é essa, senhores leitores!? Enquanto mais lenta a leitura, mais fantásticos ficam os versos. Tais, como: “Que os meus versos têm a sonoridade/do canto dos pássaros,/e o meu riso a suavidade das espumas…/E é porque eu sou um poema humano” (que a imaginação do eu lírico voa aqui, vou ali, voa longe, mas sempre pertinho de você). Essa é a poesia que queremos e o estado de contentamento que precisamos ter.

A imperdível apresentação do pesquisador, professor, escritor e autor, entre outros, dos livros: “Amazônia: mito e literatura” (2003) e “A sensibilidade dos punhais” (2007), Marcos Frederico Krüger, segundo o próprio, em meados de 1994, quando ele caminhava pelo calçadão do centro do Rio de Janeiro, “sem prestar muita atenção, livros usados eram postos à venda e expostos ao sol, em plena rua. Súbito, o olhar distraído (…) ali estava Rythmos de inquieta alegria – assim mesmo, com y e th, para lhe aumentar o mistério. (…) Após quase sessenta anos de uso, pelas bocas sôfregas dos cupins do tempo” (2). Nome da autora: Violeta Branca.

“Naquele instante, o Destino me oferecia um livro que eu sabia ser um dos mais importantes da literatura no Amazonas.” Apesar de atônito, o pesquisador adquiriu o exemplar. O preço era irrelevante demais, em relação inversa ao valor do conteúdo. Com o livro nas mãos, passou a agir “como o avarento que, possuindo a arca de um tesouro, se recusa a abri-la, para não se sentir tentado a gastar a mais ínfima moeda de ouro e diminuir o valor da fortuna”. (2).

Certa feita, o mestre resolveu “escutar a música do Rythmos (…) como no tempo de Camões, “e para a sua presa, áquelas páginas jamais tinham sido folheadas. Significava isso que, até então, o objetivo de meu culto se mantivera mudo, conservando intactos os segredos”, isto é, os belos e sonoros poemas contidos na obra de valores culturais e literários inestimáveis, entre eles: Oração ao vento, Sonhar, Canção da venda, Poema do sol, Alegria, Espiral, Vertigem, O momento único, entre outros quase sessenta.

Garante o professor, que nem todos os poemas, têm forte intensidade poética. Há os que apresentam “a jaça da imaturidade”, assim, como aqueles desprovidos do “brilho da legítima poesia”, o que é realmente compreensível. “Porém, alguns reflexos de puro ouro resgataram o valor que esperava: “o sol se desfaz em entusiasmo dentro de mim.” Tem mais riqueza lírica: “eu tenho uma sensibilidade de punhal!”

Agora o livro chega às mãos de todos (2014), haja vista que, por décadas os poemas ficaram esquecidos, ou melhor, “guardados ciosamente por quem, sensível como os punhais, o possuía, valendo cada estante por um mosteiro medieval onde os Rythmos aguardaram uma Renascença particular”. O próprio apresentador admite que errou quando enquadrou a poetisa de pré-modernista; Assim, como errou, também, a Geração de 45, sobre a mesma classificação. Revendo melhor o conteúdo ele diz: “Admito Violeta como a principal, talvez a única, representante modernista no Amazonas”.

E, ao finalizar as suas considerações, faz este registro: “E enquanto os poemas dos Ritmos (de Inquieta Alegria) circulam de mão em mão – notas de real finalmente acessíveis ao povo -, imagino que, tal como o pôr do sol, que não termina antes de oferecer todo o vário matiz de que dispõe, também a fase pré-Madrugada não se extinguiria sem que se pudesse exclamar, reconhecendo: ainda que tarde, Violeta” (2).

Violeta Branca morreu no Rio de Janeiro, três semanas após ter completado 85 anos de idade. Porém, sua poesia há de se perpetuar. Seus inúmeros versos, não bastam ser lidos, apenas, mas, acima de tudo, refletidos. A seguir, trechos dos poemas Inquietação: “Trago em mim a inquietação:/meus olhos vivem ávidos/de paisagens novas/que deem à minha sensibilidade/arrepios de emoção!/Trago em mim a inquietação/ de uma nau, que se afasta…“; Oração ao Vento: “Vento!/Vento doido!/carrega-me em teus braços./O azul ilimitado da altura me fascina,/e a amplidão cheia de sol/prende a minha alma na inquietude do voo…”; e Sonhar: Quis ser ave,/quis ser nuvem,/quis ser vento,/quis ser folha tonta/que passasse além/da curva acinzentada da montanha./Essa minha vontade/voluptuosa e estranha/era a atração dos astros./Eu me sentia humilde/para alcançar as luzes do infinito./A minha alma ia de rastos/pelas coisas terrenas. Depois, o ritmo das coisas/me abriu o olhar…/E eu compreendi/nas horas serenas/que, para chegar às estrelas me bastava sonhar…”

È isso aí, amigos leitores. Violeta Branca na nossa leitura. Violeta Branca na nossa poesia. Violeta Branca no nosso coração. Violeta Branca na nossa vida. Na próxima semana, Facetas seis anos.

Notinha útil – Nesta semana, a Dra. Winnie Barros, foi empossada como professora na área de Psicologia, da Universidade Estadual de Pernambuco. Esse ato nos orgulha muito. Ela está preste a colher os bons frutos da árvore do conhecimento que plantou lá longe, quando ainda era uma menininha do ensino fundamental. Poderíamos citar aqui nomes de professores, pesquisadores, orientadores, coordenadores, que sempre estiveram ao seu lado. Que acreditaram no seu talento e empenho, etc. No entanto, serie injusto se algum fosse esquecido. A todos – seja no Amazonas, seja no Recife ou outras lugares -, os nossos sinceros agradecimentos. Viva a Ciência!.

Por Angeline e Francisco Gomes.

Fontes: 1. “Violeta Branca, a poetisa amazonense”, Manaus, A Crítica, 27 de abril de 1997. 2. Branca, Violeta. Ritmos de Inquieta Alegria. 3ª ed. – Manaus: Editora Valer, 2014.

Um comentário em ““Violeta Branca, a poetisa amazonense”

  1. Facetas como és fascinantes, sempre nos surpreendendo. Mais uma exuberante biografia dessa poetisa amazonense. Confesso que não a conhecia…estou maravilhado com sua tamanha capacidade de transcrever suas emoções.

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