Fernando Mendes: “Numa tarde tão linda de sol”

Ao longo de alguns anos, eu e o meu irmão José Gomes colecionamos, separadamente, uma boa parte da discografia do cantor e compositor Fernando Mendes. Em 2018, decidimos juntar os dois lotes num só, totalizando em 30 unidades (LPs e CDs). Cujo material, atualmente, faz parte do acervo do Facetas. Porém, de lá para cá, continuamos procurando “novas” unidades.

Em março deste ano (2024), “garimpando” na Praça do Sebo”, que fica no centro histórico de Recife (PE), a nossa equipe adquiriu o CD “Você Não Me Ensinou a Te Esquecer”, lançado em 2004 pela EMI Music Brasil, com 14 grandes sucessos de 1973 a 1980, de Fernando Mendes. Além da faixa-título contém hits como: A Desconhecida, Cadeira de Rodas, Ídolo de Cera, Filho por Acaso, Desejo Louco, O Preço da Ilusão, Eu Queria Dizer Que Te Amo Numa Canção, entre outros.

Nesse disco, o escritor Paulo Cesar de Araújo, autor do livro “Eu não sou cachorro, não”, e pelo menos três obras sobre o “rei” Roberto Carlos, assina o seguinte comentário: “Fernando Mendes é um dos principais representantes da geração de cantores populares românticos surgidos na década de 70. Sob a confessa influência de Roberto Carlos e Paulo Sérgio – ídolos máximos na época – ele começou a carreira como crooner de conjunto de baile em Conselheiro Pena, cidade mineira onde nasceu.

O sonho de se tornar um artista de projeção nacional o levou para o Rio de Janeiro. Ali também trabalhando como cantor da noite. Em 1973, aos 21 anos, gravou seu primeiro disco, um compacto simples com a música “A Desconhecida”, que logo alcançou as paradas de sucesso de todo o Brasil. No mesmo ano saiu o primeiro LP, intitulado simplesmente “Fernando Mendes”.

Embora desprezado pela crítica e pela intelectualidade, o cantor mineiro prosseguiu sua carreira conquistando um público numeroso e emplacando vários outros sucessos como “Eu queria dizer que te amo numa canção”, “Desejo louco”, Coração de plástico” e a marcha-rancho “Ídolo de cera”. Mas foi ao musicar um forte drama cotidiano que Fernando Mendes se consagrou definitivamente como um ídolo popular. Em 1975 ele compôs “Cadeira de rodas”, canção inspirada numa garota que tinha conhecido um ano antes, no interior da Bahia. Tema delicado e até então inédito na música popular brasileira, este amor platônico entre um rapaz tímido e uma moça paraplégica recebeu um tratamento cuidadoso do autor, que se empenhou na busca das palavras mais adequadas a remover solidão e abandono, sentiram-se rainhas de uma história de amor cantada de norte a sul do Brasil.

Cantor-compositor essencialmente romântico, mas sensível às questões sociais do país, Fernando Mendes também aborda em sua obra o cotidiano dos moradores de rua (“Debaixo da ponte“), a inadequação dos emigrantes nos grandes centros urbanos (“Eu vim da roça“), a prostituição feminina (“Preço da ilusão“), o preconceito racial e o drama daqueles que não têm a paternidade reconhecida (“Filho por acaso”). Ousada na abordagem do tema moroso, a letra de “Sádico poeta” enfrentou problemas com a censura do regime militar.

Todas as canções citadas estão reunidas nesta coletânea, que também traz o hoje clássico “Você não me ensinou a te esquecer”, principal tema musical do filme “Lisbela e o Prisioneiro”, de Guel Arraes. A trajetória desta composição de Fernando mendes (parceria com Lucas e José Wilson) é paradigmática de um fenômeno bastante comum na história da nossa música popular. Lançada em 1978, foi um grande sucesso na execução e vendagem mas, como tantas outras, não mereceu maiores atenções da crítica ou do público de elite. Regravada 25 anos depois por Caetano Veloso, ressurgiu com toda força, sendo alvo de elogiosas resenhas e incorporando-se ao repertório da chamada MPB. É como se a canção não tivesse existido antes e já não fizesse parte da memória musical de amplos segmentos da população brasileira. No entanto, “Você não me ensinou a te esquecer” é apenas mais um exemplo de riqueza do repertório popular romântico nacional, que tem no mineiro Fernando Mendes um de seus grandes criadores” (1).

Na semana passada o artista em foco (cujo nome de batismo é Luiz Fernando Mendes Ferreira, nascido no dia 7 de maio de 1950), completou 74 anos de vida e mais de 50 anos de carreira, e segue, portanto, cantando, encantando e conquistando fãs e admiradores dentro e fora do Brasil, com o seu gênero romântico popular, às vezes, com uma pitada de rock e de MPB.

O nosso blog agradece, principalmente, aos nossos leitores que seguem -semana após semana -, prestigiando as nossa publicações. Eis aqui mais uma. E, esperamos contar com a aprovação de todos. Também somos gratos pela excelente nota do festejado escritor Paulo Cesar de Araújo, por nós reproduzida na íntegra neste artigo.

“Não adianta ir à igreja rezar e fazer tudo errado/Você quer a frente das coisas olhando de lado” (2).

Notinha útil – Ontem, 17 de maio, foi celebrado o Dia Internacional contra a Homofobia, Transfobia e Bifobia. Essa data não é arbitrária. Foi escolhida para marcar a histórica decisão da OMS de remover a homossexualidade da CID, em 1990 (www.gov.br). Ainda ontem, Victor Dias do DCM Notícias – Oficial, publicou um artigo sobre o tema, cuja conclusão é esta: “Segundo dados do Observatório de Mortes e Violências LGBTI+, ao menos 230 pessoas LGBTs morreram violentamente no Brasil em 2023. A maioria delas (184) foi assassinada, e também foram contabilizados 18 suicídios. Outros 28 casos não tiveram a causa esclarecida”. O Facetas conclama a todos, numa só corrente do BEM, pelo fim da violência, independentemente de circunstância, sexo, idade, cor, classe social, etc.

Por Angeline e Francisco Gomes e Winnie Barros.

Fonte: 1. CD “Você Não Me Ensinou a Te Esquecer” de Fernando Mendes. São Paulo, EMI, 2004; 2. Da canção “Sorte Tem Quem Acredita Nela”, de Mário Marcos e MaxCilliano, no LP “Fernando Mendes”, 1976.

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