Modéstia à parte, o Facetas já começa a temporada de 2026, em alta. Como sempre, fiel aos principais temas que os aborda desde a sua criação há dez anos: literatura, música, biografia, entre outros. Por exemplo, hoje vamos direto ao ponto, mais uma vez, é claro.
“Bela, talentosa e encantadora”. Isso é o mínimo podemos dizer sobre Maria de Fátima Palha de Figueiredo (69 anos), ou melhor, a cantora paraense Fafá de Belém. Neste ano de 2026 ela estará completando 50 anos de carreira artística, e repleta de sucessos. A sua vasta discografia (de 1976 a 2019: 25 álbuns de estúdio, 04 álbuns ao vivo, 34 coletâneas; além de 36 importados, multimídia, singles, EPs, compactos, DVDs e artistas convidados) confirma ser uma das mais influentes artistas brasileiras de todos os tempos. É possível que a atual geração não saiba, mas em 1984, Fafá participou – de corpo e alma – da Campanha pelas DIRETAS JÁ que ocorria de Norte a Sul do Brasil, por eleições diretas para presidente da república, que não ocorria desde o início dos anos 60.
O primeiro disco de Fafá de Belém, foi lançado em 1976, “Tamba-tajá”. São 13 músicas como a homônima, do maestro Waldemar Henrique, Xamego (Luiz Gonzaga/Miguel Lima), Cá Já (Caetano Veloso), Canção da volta (Antônio Maria/Ismael Neto), Fracasso (Mário Lago), etc. Segundo a própria cantora, “o nome deste disco é uma homenagem ao maestro Waldemar Henrique, e este trabalho é dedicado a Milton Nascimento e Roberto Carlos” (1).

Sobre a canção-título, a gravadora PHONOGRAM, na contracapa do LP, diz, em texto, o seguinte: “A canção Tamba-Tajá é uma prece à planta do mesmo nome, nativa da Amazônia e, devido a sua lenda, considerada sagrada pelos índios macuxis e pelos caboclos marajoaras (v, foto de J. Castrioto).
Segundo a lenda havia um índio macuxi perdidamente apaixonado por uma índia de sua tribo e, como ela era paralítica (termo esse usual à época; hoje, não), carregava-a amarrada às costas para onde quer que fosse. A paixão alucinante do índio era o que lhe dava força para vencer os obstáculos que a cada momento lhe surgiam à frente. Principalmente por que os macuxis viviam sem pouso certo.
Um dia, caminhando pela mata, o índio (casal) deparou-se com uma tribo inimiga, que logo o(s) reconheceu e saiu em sua perseguição. A luta foi desigual mas o macuxi conseguiu escapar ileso com sua companheira. Entretanto, durante a fuga, o índio sentiu que a cada momento a índia pesava-lhe mais aos ombros. Refugiou-se à beira de um igarapé é então notou que sua amada estava morta. Ali mesmo fez uma cova e, não vendo mais sentido continuar vivendo sem aquele amor, enterrou-se junto com ela.
Na lua cheia, naquele mesmo lugar nasceu o Tamba-Tajá.
O Tamba-Tajá é uma planta muito festejada pelos nativos, não apenas por sua graça e feminilidade mas, principalmente por seus mistérios e segredos.
Sua forma é simples, semelhante a de um triângulo.
Sua cor é verde, com nuances escuras espalhadas pela palma da folha. A tessitura é macia, meio aveludada tal a pele de um bebê, levemente marcada por veios de linhas aparentes.
Se bem observado, o Tamba-Tajá tem um detalhe curioso, que de certa forma reforça a origem da lenda: abaixo de seu vértice mais alongado, acha-se acoplada, uma outra folha, em tamanho minúsculo, cuja forma se assemelha ao órgão genital feminino. O acasalamento dessas folhas simbolizam o índio macuxi e sua amada.
Na Amazônia e principalmente nas casas precárias do interior, o Tamba-Tajá é encontrado como planta decorativa e é colocada uma folha atrás da porta, para assegurar aos casais moradores o eterno amor, pois segundo o dito popular, “Quem tem o Tamba-Tajá seu amor não perderᔓ (1).
Interessante lenda da cultura popular da Amazônia Brasileira. Abaixo, alguns, dos mais belos versos da composição Tamba-Tajá, criação do “maestro, pianista, escritor e compositor Waldemar Henrique (1905-1995). Artista símbolo do Pará. A cidade de Belém (PA), por exemplo, possui uma Praça e um Teatro que levam o seu nome”: “Tamba-tajá me faz feliz/Assim o índio carregou sua macuxi/Para o roçado, para a guerra, para a morte/Assim carregue o nosso amor e boa sorte. // Tamba-tajá me faz feliz/Que mais ninguém o que beijei/Que mais ninguém escute aquilo que escutei/Nem possa olhar dentro dos meus olhos o que olhei” (2).
Simplesmente fantásticas, tanto a lenda quanto a música. Que Fafá de Belém continue proporcionando muitos outros momentos de contentamentos musicais aos seus fãs e admiradores. Nós, do Facetas, esperamos que gostem do tema aqui suscitado.
Por Angeline e Francisco Gomes e Winnie Barros.
Fontes consultadas: 1. LP “Tamba-Tajá”, de Fafá de Belém, SP/RJ: Phonogram, 1976; 2. http://www.vagalume.com.br