“O delito de ser mulher”

Eu sou aquela mulher/que fez a escalada da montanha da vida,/removendo pedras e plantando flores“. (Cora Coralina).

Constam nos nossos arquivos, dois importantes textos com abordagem sobre o tema MULHER. Um da renomada educadora nascida em Parintins (AM) Ruth Prestes Gonçalves (1930-2018). O outro, da também amazonense, a escritora Carmen Novoa Silva (74 anos). Oportunamente, extraímos alguns trechos para completarem o nosso artigo de hoje, sobre o mesmo assunto.

Ruth Prestes faz um retrospecto histórico desde a “primeira greve conduzida apenas por mulheres na cidade de Nova Iorque, ocorrida no dia 8 de março de 1857”, até março de 1999. O Dia Internacional da Mulher, como tal, surgiu após a Conferência de 1910 em memória àquelas 129 que lutaram por melhores condições de trabalho; por justiça.

“Após sessenta anos daquela insensatez, ou seja, o ato de repressão que sofreram, em Nova Iorque, trabalhadoras das fábricas de tecidos do Rio de Janeiro, em 1917, deram início à greve que tinha como finalidade a redução de trabalho e aumento de pagamento de salários justos, o que acabou se transformando em uma greve geral, com alguns ganhos para as operárias” (1).

Sobre os fatos afins, ainda no século XX, cita a pesquisadora, por exemplo, Bertha Luzt e Olga de Paiva, que brilhantemente, em 1919, representaram todas as braseiras no Conselho Feminino Internacional do Trabalho; em 1928, no Rio Grande do Norte, a mulher conquistava o direito de votar. Aliás, foi o primeiro Estado do Brasil tomar essa decisão. Bem antes da Constituição de 1934.

Segundo a autora, outras conquistas, a partir da metade do século XX, como sempre, ocorreram com muita luta e determinação; superando barreiras e combatendo todo tipo de discriminação. “Temos de reconhecer porém, que o preconceito contra a participação da mulher na força de trabalho, em determinadas profissões começa na própria família e na escola. Alguns pais ainda se preocupam mais coma escolha da profissão do filho do que da filha. Para muitos, por incrível que pareça, a filha já tem seu destino marcado que é o de ser esposa e mãe. Sua tarefa é cuidar da casa, do marido e dos filhos”. Por sua vez, a escola “não faz um trabalho de conscientização junto aos alunos para acabar com essa desigualdade entre homens e mulheres” (1).

E, ao endossar este versa da canção popular “que venha essa nova mulher de dentro de mim”, diz: “É preciso, e isso não se pode negar, que a própria mulher solte as amarras do seu próprio preconceito, sem as quais os ganhos a aerem adquiridos tornar-se-ão mais difíceis de serem conquistados na sua plenitude” (1).

Por sua vez, Carmen Novoa, apesar da mesma temática, é mais contundente no manuseio das palavras. Seu relato parte de exemplos da História Antiga aos dias atuais. “O homem da Antiga Palestina, ao glorificar o seu Deus, rezava: “Louvado sejais Senhor porque não me fizestes mulher”. E completa a escritora: “Nada melhor para representar a pesadíssima carga discriminatória que a mulher carrega ao longo dos séculos do que esta frase que mostra-se ainda em vigor, como já dizia Eliot, que a humanidade, por vezes, é semelhante “a raça dos caranguejos porque avançam orgulhosamente para trás'” (2). Quer dizer: há sempre uma história de opressão sobre a mulher em certos setores da sociedade, que são “tachadas pejorativamente comocoisas de mulheres‘” (2).

Coisa de mulheres tem nomes: persistência, conquistas, lutas e mais lutas por igualdade de direitos. A escritora enumera algumas dessas “coisas”, que ocorreram a partir de meados do século XIX. Foram “coisas de mulheres”: a greve de 1857, nos EUA; a realização da Assembleia Geral das Nações Unidas, em 1979, par o fim do preconceito feminino; o direito de votar e ser votada; carreira profissional independente, assim como independência econômica para si e sua família, etc. Ainda são “coisas de mulheres”, as lutas de Madre Teresa de Calcutá, de Irmã Dulce, entre outras. E, “honrar com lutas, fibras e nervos os sonhos de Santa Tereza D’ávila, ante as vulgaridades operantes”.

Há de chegar “o dia em que todas as mulheres serão reconhecidas pelo que valem! E valem muito! Vejo o aproximar-se de tempos em que não haverá motivos para subestimar almas fortes e virtuosas pelo simples fato de pertencerem às mulheres” (2). passados quase 30 anos que foram escritas estas palavras, chegou a hora de se fazer “diferente da Antiga Palestina, onde a mulher não podia frequentar a escola, nem para ensinar ou para aprender”. Misoginia jamais. Muito menos a maldosa desfaçatez – aceitável à época – apregoada pelo filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860), que escreveu em uma de suas obras esta abjeta frase: “As mulheres são serem estranhos de cabelos longos e ideias curtas”.

A nossa ideia para a produção deste artigo não tem motivação de criticar esse ou aquele seguimento sociais. Mas, sim, possibilitar a cada um/a leitor/a uma reflexão sobre a nossa visão, assim como a da educadora e da escritora ora analisadas sobre a mulher, como um todo. Há quem pensa que “o delito de ser mulher” é real.

Notinha útil – “Há sempre um nome de mulher”, e o dessa notinha é o de Patrícia Barroso da Silva (33 anos), manauara, casada com o professor Genivaldo Hassan, mãe de três crianças. Aqui, seu nome representa todas as demais mulheres, onde quer que cada uma esteja. Patrícia estava com o marido e os filhos no barco que naufragou em Manaus, no Encontro das Águas, no dia 13 de fevereiro de 2026.Cinco passageiros estão desaparecidos, inclusive ela. As buscas continuam pelas autoridades e familiares. Ser mulher e mãe é algo divino. O professor nos relatou que a esposa estava com o filho no colo, no instante do naufrágio. Ele foi encontrado bem, ela (ainda) não. Mais uma lição de Mulher, ou melhor “coisa de mulher” (www.facetasculturais.com.br).

Por Angeline e Francisco Gomes e Winnie Barros.

Fontes consultadas: 1. “Dia Internacional da Mulher”, por Ruth Prestes Gonçalves, Manaus, A Crítica, 07.03.1999; 2. “O delito de ser mulher”, por Carmen Novoa Silva,.Manaus, A Crítica, 07.03.1999; 3. Foto de Art/Brum, A crítica, 07.03.1999.

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