Nascida na cidade do Rio de Janeiro, em  7 de novembro de 1901 e lá morreu no dia 9 de novembro de 1964, dois dias após completar 63 anos de idade. Quem é ela? A poetisa Cecília Meireles. Aos 16 anos torna-se professora e jamais deixou de se dedicar ao magistério e às letras. Aos 18 anos publicou seu primeiro livro, Espectros.Participou ativamente do movimento de renovação do sistema educacional brasileiro.  Fundou, em 1934, a primeira biblioteca infantil do país” (1).

Sua obra poética “ocupa lugar singular na história das letras brasileiras por não pertencer a nenhuma escola literária. Alta expressão da poesia feminina brasileira, inclui-se entre os grandes valores da literatura de língua portuguesa do século XX” (1).
Passado mais de meio século de sua morte a importância poética de Cecília está sempre em evidência, vigorosa. Por exemplo, a gente abre um livro de gramática, de literatura, em qualquer que seja o nível de ensino ou um caderno de vestibular, e, lá estão poemas e trechos de poemas dessa grande poetisa carioca.
Porém, fica para outro oportunidade, um artigo para sua biografia e bibliografia. A seguir, uma das  suas mais belas narrativas, publicada in Escolha o seu sonho. O texto na íntegra, é: “História de bem-te-vi“.
“Com estas florestas de arranha-céus que vão crescendo, muita gente pensa que passarinho é coisa só de jardim zoológico; e outros até acham que seja apenas antiguidade de museus. Certamente chegaremos lá; mas por enquanto existem barros afortunados onde haja uma casa, casa que tenha um quintal, quintal que tenha uma árvore. Bom será que essa árvore seja uma mangueira. Pois neste vasto palácio verde podem morar muitos passarinhos. 

Os velhos cromistas desta terra encantam-se com canindés e araras, tins e sabiás, maracanãs e “querejuás” “todos azuis de cor finíssimas…” Nós esquecemos tudo: quando um poeta fala num pássaro, o leitor pensa que é literatura…

Mas há um passarinho chamado bem-te-vi. Creio que ele está para acabar. 

E é uma pena, pois com nome que tem – e que é a sua própria voz – devia estar em todas as repartições e outros lugares, numa elegante gaiola, para no momento oportuno anunciar a sua presença. Seria um sobressalto providencial e sob forma tão inocente e agradável que ninguém se aborreceria.

O que me leva a crer no desaparecimento do bem-te-vi são as mudanças que começo a observar na sua voz. O ano passado, aqui nas mangueiras dos meus simpáticos vizinhos, apareceu um bem-te-vi caprichoso, muito moderno, que se recusava a articular as três sílabas tradicionais do seu nome, limitando-se a gritar: “…te vi! …te vi” com a maior irreverência gramatical. Como dizem que as últimas gerações andam muito rebeldes e novidadeiras, ache natural que os passarinhos estivessem contagiados pelo novo estivo humano.

Logo a seguir, o mesmo passarinho, ou seu filho ou seu irmão – como posso saber, com a folhagem cerrada da mangueira ? – animou-se a uma audácia maior. Não quis saber das duas sílabas e começou a gritar apenas daqui e dali, invisível e brincalhão: “… vi!… vi!… vi!… o que me pareceu divertido nesta era de twist. 

O tempo passou, o bem-te-vi deve ter viajado, talvez seja cosmonauta, talvez tenha voado com o seu time de futebol – que se não há de pensar de bem-te-vis assim progressistas, que rompem com o canto da família e mudam os lemes dos seus brasões? Talvez tenha sido atacado por esses crioulos fortes que agora saem do mato de repente e disparam sem razão nenhuma no primeiro indivíduo que encontram.

Mas hoje ouvi um bem-te-vi cantar. E cantava assim: “Bem-bem-bem… te-vi”. Pensei: “é uma nova escola poética que se eleva da mangueira!…” Depois, o passarinho mudou. E fez: “Bem-te-te-te… vi!” Tornei a refletir: “Deve estar estudando a sua cartilha… Estará soletrando…” E o ´passarinho: “Bem-bem-bem… te-te-te… vi-vi-vi!…” 

Os ornitólogos devem saber se isso é caso comum ou raro. Eu jamais tinha ouvido uma coisa assim. Mas as crianças, que sabem mais do que eu, e, vão diretas ao assunto, ouviram, pensaram e disseram: “Que engraçado! Um bem-te-vi gago!.”

(É: talvez não seja mesmo exotismo, mas apenas gagueira…)”. (1).
Que maravilha de texto!As florestas de arranha-céus de que fala a autora, ou seja, os edifícios que se se erguem nas cidades atualmente fazem as pessoas abandonarem os pássaros. Os quais, no passado viviam libertos distantes dos homens. Agora, muitas espécies estão sendo ou foram extintas.
Ultimamente tenho visto (e ouvido), na frente do conjunto onde moro, na deslumbrante área verde situada entre o SESI e o Hospital João Lúcio, Zona Leste de Manaus (AM), uns tucanos nas copas das árvores, sempre no lusco-fusco do dia, gorjeando  assim: “Meu canto, meu canto, meu canto“. Por extensão: canto de cantar; canto de lugar.
Até quando, portanto, esses pássaros (e outros que ainda não os vi) permanecerão nessa área? Possivelmente, até que, por ordem de um “serumaninho”, um trator Caterpillar devaste tudo em poucas horas – sempre nas madrugadas, para a comunidade não se lamentar. 
Apesar da poetisa Cecília Meireles, não está mais por aqui, é óbvio, mas “a sua preocupação pela extinção de uma espécie (bem-te-vi) de nossa fauna”, influencia-me muito, ao ponto de, também, clamar por uma convivência harmoniosa entre HOMEM x NATUREZA.
Fonte
1. Tersariol, Alpheu. Manual prático de redação e gramática. – São Paulo: Li-Bra, s/d (final dos anos 70?), páginas 481/482.
2. Imagem disponível no site Toda Matéria