Lima Barreto, passado mais de um século de sua morte, ainda é considerado um excelente jornalista, brilhante escritor. Um crítico do seu tempo, cujo pano de fundo era a cidade do Rio de Janeiro. “Ele escreveu sobre as mudanças significativas que aconteciam no contexto social, expondo e examinando os problemas do nosso tempo em seus contos e romances. Escrevendo sob a lente da classe média carioca. O mesmo não faziam os historiadores oficiais. Ele via o outro lado da moeda: retratava o povo oprimido e inconsciente do que se passava; mostrava a luta pelo poder entre os barões da agricultura e a burocracia militar e civil; registrava a vida dos subúrbios, com seus dramas e suas pequenas felicidades, seu lado terno e humano” (1).
Afonso Henriques de Lima Barreto
nasceu no Rio (RJ) no dia 13 de maio de 1881, e no Rio faleceu no dia 1º de novembro de 1922, aos 41 anos de idade. Desde sempre foi “vítima de racismo; órfão de mãe aos 7 anos; filho de pai com doença psiquiátrica; alcoólatra e sem estabilidade financeira”. Sua vida foi marcada pelo sofrimento. Mesmo como escritor, teve a existência atormentada pelo preconceito. Mas, essas aflições não o impediram de nos deixar um incontestável legado literário.
“Testemunhou os principais fatos políticos das últimas décadas do século XIX: a abolição da escravatura, o advento da República, a Revolução de 1893 e a revolta de Canudos”. Sem sua mãe, tornou-se uma criança de temperamento difícil. Mas tinha o hábito da leitura, o que fê-lo criar a sua própria biblioteca com cerca de 800 livros, revista, periódicos, etc, em francês, inglês, italiano e espanhol, que tratavam de História, Literatura, Filosofia e Arte.
Ingresso na Escola Politécnica do Rio. “No entanto, na faculdade, enfrentou o tremendo preconceito dos outros estudantes com relação à sua condição de descendente africano”. Para piorar, em 1902, seu pai enlouqueceu. O jovem, assumiu tutor dos irmãos menores e da madrasta. Sem alternativa, largou os estudos acadêmicos e foi ser escrevente. Foi nessa época que passou a frequentar “os cafés cariocas onde reinava a vida intelectual e política da cidade. Nesse meio, conheceu muitos jornalistas e, logo começou a escrever para jornais. Nasceu assim, que grande parte de sua obra se constitui de artigos para revistas e periódicos” (1).
Em 1909, publica seu primeiro romance, Recordações do escrivão Isaías Caminha. Em 1911, foi a vez de Triste fim de Policarpo Quaresma. Com esse livro, “alcança a consagração que tanto almejava”. Mas, a aclamação da crítica chegou tarde demais. O escritor que já definhava pelo consumo alcoólico, chega a ser internado em um hospício, com loucura e visível decadência física. Mesmo assim, continuou produzindo literatura. Em 1915 publicou o romance Numa e a Ninfa. Ele continuou escrevendo até 1919 (nesse ano foi novamente internado vítima da loucura), publica seu último livro, “Clara dos Anjos, que denuncia a vulnerabilidade da mulher negra no Brasil do início do século XX“, publicado postumamente (1923/1924). O autor faleceu em novembro de 1922.
Barreto pertence ao Pré-Modernismo, cujo período vai de 1902 a 1922. O Brasil precisava promover novas tendências artísticas, por um lado. Por outro, “o país vivia um momento culturalmente contraditório: ainda havia a influência das correntes da segunda metade do século XIX; já começava a ser preparada a grande renovação modernista, que se iniciaria em 1922, com a Semana de Arte Moderna, em São Paulo” (1).
Foi, então nessa fase que Barreto publica o genialíssimo conto “Um músico extraordinário”, cujo pano de fundo é o Rio de Janeiro. A cidade era infestada de graves problemas sociais. Tanto no centro como nos subúrbios. As belezas naturais eram vista pelos visitantes na Baía da Guanabara de dentro de navios, por temerem doenças como cólera e febre amarela. Isso foi sensivelmente captado pelo grande jornalista Lima Barreto, inserido no conto ora em análise. Por sinal, o grande desenhista carioca Francisco Vilachã (19554-2020), ilustrou a história imaginada por Barreto e fez uma bela publicação. Aliás, tudo gira em torno de Ezequiel, que acha que seu maior sonho é ser músico, mas mas não quer trabalhar como funcionário público. Então, como ser um grande músico? A sua história, portanto, é uma história sobre o autoengano. Essa é a genialidade do texto.

O livro é fascinante! Se o texto original é excelente, as ilustrações em Quadrinhos falam por si. Esse conto tem mais de um século de existência, e, se comparado aos dias de hoje, é um texto bem atual, principalmente se vinculado a realidade social da cidade do Rio de Janeiro de ontem – do tempo do autor – e a de hoje, dos dias atuais. Recomendamos aos nossos leitores este livro. Sua leitura é para todas as idades.
Notinha útil – no próximo dia 30 deste mês, ou seja, na segunda-feira, a matriarca da família Gomes, Dona Angelina, que atualmente mora em Rondônia, estará completando 90 anos de vida. Ela é, sem dúvidas, motivo de orgulho para filhos, netos, bisnetos, todos enfim. A nossa equipe entra nesse clima bem familiar, para parabenizá-la.
Por Angeline e Francisco Gomes e Winnie Barros.
Fonte consultada: 1. Vilachã, Francisco. Um músico extraordinário (Lima Barreto em Quadrinhos). – SP: Kit’s Editora, 2021.