África Brasil: 50 anos

No dia 22 de março de 2026, há 20 dias, Jorge Duílio Lima Menezes, o cantor e compositor carioca, mais conhecido como Jorge Ben ou Jorge Ben Jor, completou 87 anos de vida, e continua na ativa artística: compondo, cantando e fazendo shows. Seu pai era o estivador Augusto Menezes. Sua mãe Sílvia Saint Ben Lima, era africana originária da Etiópia. Daí, o sobrenome Ben. “Não nasci em berço de ouro, mas tive uma infância das mais bacanas”, diz Jorge.

Considerado um dos artistas mais influentes brasileiros, Jorge Ben é motivo de orgulho para toda a nação. Principalmente para seus fãs e admiradores. No texto “A força intuitiva que atropela qualquer explicação“, o jornalista Maurício Kubrusly, assegura: “Senhor absoluto do ritmo, o ritmo também o possui integralmente: a ele Jorge se curva e se amolda, tornando supérfluo todo o resto. O resultado é uma música que se comunica em primeiro lugar com o corpo, tocando a mente, na maioria das vezes, de forma apenas casual” (1).

O também jornalista e crítico musical Matinas Suzuki Jr., na reportagem “Um canto livre, que nunca fugiu à sua negritude”, afirma: “A pulsação rítmica das músicas de Jorge Ben é, em parte, selvagem e inconsciente. Mas está também indiscutivelmente ligada a uma determinação de usar o caminho musical para demonstrar amor e orgulho pelos antepassados africanos, sua cultura e suas tradições” (1).

Continua Suzuki: “Jorge Ben é o Orfeu Negro. Por suas artérias corre o vinho escuro que narra a saga feiticeira da sensibilidade popular de nosso país. […] É impressionante a economia de metáforas na poesia de Jorge. Um nó poderoso, que vem de uma cultura silenciada, amarra o voo da duplicidade da linguagem. Poderíamos dizer que se trata de uma poética que se articula a partir de um simbolismo modesto. Sua poesia transpira a vida. Em seus versos palpita um coração que vibra com as belezas da raça” (1).

No início dos anos 1960, existiam, no mundo musica, diferentes influências como: o rock, o samba, a bossa nova, entre outras. Mas o ritmo daquele jovem Jorge tinha outra alquimia, “uma batida mastigadinha”. Ele mesmo tentou dar uma explicação, “logo no seu primeiro sucesso, Mas Que Mada, de 1963: “Esse samba, que é um misto de maracatu. Tem outro requebro, suingue todo singular, assinatura que garante identificação imediata”, conclui Kubrusly. Fantástica constatação!

Vamos então, ao ponto alto deste artigo: há 50 anos, em 1976, Jorge Ben lançava o álbum “África Brasil” composto por 11 músicas. Entre elas, as inesquecíveis Taj Mahal, Xica da Silva, A História de Jorge, O Plebeu e a faixa-título África Brasil (Zumbi). Nesta última constam os seguintes versos: “Eu quero ver o que vai acontecer/Quando Zumbi chegar // Pois aqui onde estão os homens/De um lado cana de açúcar/Do outro lado um imenso cafezal/Ao centro senhores sentados/Vendo a colheita do algodão Branco/Sendo colhidos por mãos negras” (2).

Sabemos que esse genial artista emplacou muitos e muitos outros sucessos como: Chove Chuva, Cadê Teresa?, País Tropical, Fio Maravilha, Porém, sempre nos flagramos cantarolando “Tê tê tê tê tereretê tê…/Taj Mahal ..”. ou “Xica da Xica da Xica da Xica da Silva/A negra.”. É a pura arte em ritmo, em notas, em músicas; é a cantoria de Ben Jor que está coladinha na gente, seja quando estamos cantando ou pensando em cantar.

Segundo a Abril Cultural, a canção África Brasil (Zumbi), é um “misto de ritmos da Rodésia, Tanzânia e Quênia; é uma composição do estilo mais característico de Jorge Ben e sugere rituais de umbanda, onde a aparente desordem estrutural constitui a essência do objetivo a ser alcançado”. Já Xica da Silva, foi “composta para o filme homônimo de Cacá Diegues, Xica da Silva – “a imperatriz do Tijuco/A dona de Diamantina” – é um dos grandes sucessos de Jorge Ben. O êxito da composição ultrapassou fronteiras, projetando o autor em nível internacional”. Por sua vez, sobre Taj Mahal, a Abril, faz esta síntese: “O primeiro registro é de 1972 e apresenta Jorge Ben cantando sozinho. Três anos mais tarde, Ben e Gil gravariam juntos a composição, num álbum duplo intitulado Ogum – Xangô, Gil e Jorge. Nessa produção, os dois artistas aparecem em uma das fases mais positivas de suas carreiras, quer como improvisadores, quer como intérpretes “a dois”. A faixa Taj Mahal, sobretudo, revela impressionante criatividade, com a dupla sustentando os vários improvisos com muita vibração” (1).

A musicóloga Ana Lúcia Corrêa da Silva, em sua pesquisa intitulada “O moleque que venceu na vida, mas não virou senhor”, faz este comentário: “Da infância e adolescência pobres, vividas na Zona Norte do Rio de Janeiro, ele só guarda recordações felizes. Aliás, essa felicidade fácil e sem maiores pretensões é marca registrada desse ingênuo menino grande”.(1).

Possibilitamos aqui, um valioso relato aos senhores leitores, desse “menino grande” que canta e nos encanta desde a juventude dos seus 24, ou seja, há mais de meio século, com ginga, criatividade e muita disposição. Ele chegou aos 87 anos de idade, contente, firme e forte. É, A história de Jorge (tanto do seu autor quanto das suas estrofes) estes versos: “Olha, essa é a história de um menino/Que tinha um amigo que voava…// Um dia, Jorge soube de tudo e voou para toda gente ver/O espanto foi geral” (2.). É a poesia transpirando a vida, como disse acima, Suzuki.

Notinha útil – Ontem foi comemorado o Dia Nacional da Biblioteca. A data foi instituída em 1980. Apesar da avançada era digital, isso não impede que você tenha a sua prateleira de obras físicas. Pensa nisso, vai.

Por Angeline e F. Gomes e Winnie Barros.

Fontes consultadas: 1. LP História da MPB (Grandes Compositores), SP: Abril Cultural, 1982; 2. LP África Brasil, de Jorge Ben, RJ: Philips, 1976.

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