Morei em Lábrea (AM) até 1984. No início daquela década, conheci o brilhante estudante Antônio Carlos Lacerda de Souza. O jovem tinha um apelido, no mínimo, curioso: “Mirigido”. Porém, nada surpreendente. Era muito comum uns apelidarem aos outros (sem malícia; sem nomes pejorativos). O tempo foi passando, passando e tudo foi ficando distante, naturalmente. Entre 82 e 84, trabalhamos juntos e com ele aprendi muito no ofício de escritório da extinta EMATER-AM. Depois migrei para Manaus (AM) para aprimorar os estudos. No entanto, a amizade é mantida até hoje, sessentões que somos.

Agora, passados quase 40 anos, eu quis saber o porquê daquela alcunha. Inteligente como sempre, o senhor Lacerda apresentou uma explicação bem convincente: contou-me que no seu livro da 4ª série primária havia um conto de Viriato Correia com o título, “O velho Mirigido“. A professora achou interessante e propôs à turma encena-lo. O que ocorreu no salão da escola Santa Rita, como atividade cultural.

Ilustração do Velho Mirigido. Fonte: Livro Cazuza

Ainda segundo Lacerda, “na narrativa de Viriato, no velório do quase-defunto Mirigido, sala cheia de gente, Domingas o viu mexer-se dentro do caixão e foi aquele alvoroço”. Quem fez o papel do velho morto-vivo? Ele, o menino Antônio Carlos. Eis aí o porquê do do apelido.

Curioso, saí à procura desse conto, dessa crônica. Consultei a nossa incansável e apaixonada pelas ARTES Winnie Barros e, logo a mesma descobriu “O velho Mirigido” no magnífico livro infanto-juvenil CAZUZA, pulicado pela primeira vez por Viriato em 1938. É uma obra muito lida e republicada frequentemente. Trata-se de uma crítica ao rígido sistema de educação daquela época. A personagem principal é o menino Cazuza.

Capa do livro Cazuza. Fonte: Acervo Pessoal

Manuel Viriato Correia Baima Filho (1884-1967), nasceu no Maranhão. Depois de estudar em São Luís e Recife, foi morar no Rio de Janeiro, onde morreu aos 82 anos. Foi advogado, jornalista, crítico, professor de História do Teatro e brilhante escritor. Trabalhou em diversos jornais. Foi deputado estadual e federal. Mas, deixou a carreira política após ser preso, em 1930, pelas tropas getulistas.

Em 1921, com a publicação de dois livros, Terra de Santa Cruz e História de nossa história, iniciou a longa série de suas crônicas históricas, que prosseguiu com títulos como Brasil dos meus avós (1927), Alcovas da História (1934) e O país do pau de tinta (1939). Para o público infantil escreveu, entre outros, História do Brasil para crianças (1934), Cazuza (1938) e História da liberdade no Brasil (1962)” (1). Também é autor de romances e peças de teatro, além de ter sido membro da ABL.

Vamos à crônica, “O velho Mirigido“:

NAQUELA TARDE, de volta da escola, ao chegar à cancela de casa, avistei a Chiquitita que vinha correndo ao meu encontro, com ar de novidade.

Esperei-a. Ela esbarrou junto a mim, resfolegando, na sua meia língua:

Sabe? o velho MIRIGIDO morreu.

– Sério?

Morreu sim, confirmou ela. Agorinha mesmo. Morreu de repente.

A notícia começava a espalhar-se na povoação. A morte tinha sido repentina, contava-se. O velho acordara tonto, com uma zoada nos ouvidos. À tarde a sua filha Damiana, indo ao quarto levar-lhe um caldo, encontrara-o morto, já frio.

O terreiro da minha casa encheu-se de crianças.

Não quero dizer que houvesse contentamento nas nossas fisionomias, mas nos nossos olhos e nossos rostos havia qualquer coisa que positivamente não era tristeza.

O Manduca foi o primeiro a revelar o que lhe ia no pensamento.

– Que bom! disse com um sorriso de satisfação. A gente agora não precisa tomar mais remédio. O velho Mirigido não pode mais nos obrigar.

Cruzamos os olhos, risonhos. Que bom!

O Juquinha informou com ar de superioridade:

– Mamãe disse que, no domingo, vai dar-me quinino. Não sei como vai ser isso: eu não tomo mais quinino. Nem quinino nem remédio nenhum.

– Nem eu! afirmou Rosa.

Ficou decidido que nenhum de nós tomaria mais remédio.

Era noite cerrada quando cheguei, com meus pais, à casa do defunto. Já lá estava o povoado inteiro.

A casa enchia-se de gente. Era uma palhoça com dois quartos pequeninos à esquerda. Ao centro, um salão por onde se entrava para os quartos.

No meio do salão, a mesa de jantar. E sobre a mesa, o corpo do preto velho, com duas velas à cabeceira.

Em derredor, homens e mulheres, cantando em voz alta as rezas que no sertão se usam para os mortos.

No terreiro, o Macário Carpinteiro serrava e aplainava tábuas para fazer o caixão fúnebre.

Hora a hora, a casa se enchia mais. Agora, em cavalos e carros de boi, iam chegando os moradores de longe.

O fato aconteceu antes da meia-noite, quando os pequenos da minha idade ainda estavam acordados.

Assisti a tudo e de tudo me recordo claramente.

Na sala mortuária pesava, naquela ocasião, grande silêncio. Havia terminado uma reza. Homens e mulheres repousavam um instante para recomeçar outros cantos. Não se ouvia um cochicho, nada. De repente, a Domingas Cabacinha soltou um grito horrível. Tinha visto o corpo do velho Mirigido mexer-se em cima da mesa. A sala tornou-se ruidosa. A Domingas contava em voz alta o que acabara de ver. O Mamede, o professor João Ricardo e o Lourenço Bacurau desmentiram-na.

– Eu estava com os olhos pregados no corpo, quando o corpo se mexeu, insistia a moça, de olhos apavorados.

– Não se mexeu. Não podia ter-se mexido! bradava fortemente o velho João Ricardo com o tom de quem não gosta de ser contrariado.

– Que barulho é este aqui? Rugiu subitamente o velho Mirigido, erguendo-se.

E pulou da mesa abaixo.

O que se passou não se descreve. Toda aquela gente rompeu porta afora, aos gritos, aos tombos, desvairada, varando o mato. As crianças caíam enroladas nas saias das mulheres; caíam as mulheres e os homens embaraçados uns aos outros.

A Domingas Cabacinha, ao disparar para o quintal, rolou por cima da cabeça da Totonha e enfiou a cara numa gamela de miúdos de porco.

O Macário Carpinteiro foi parar do outro lado do rio, num buraco à beira d’agua.

O Jorge Carreiro torceu o pé. A mãe da Tetéia desmaiou no meio do terreiro. Tio Olavo, primo-irmão de meu pai, perdeu a fala durante vinte e quatro horas.

A Chiquinha Tucum, ao pular a cerca do quintal, ficou nos ares a noite inteira, presa pelas saias.

O próprio Mirigido, no dia seguinte deu com o Mamede meio apatetado no fundo da estribaria, agachado debaixo da barriga do cavalo.

O pior de todos foi o professor João Ricardo. O pavor fê-lo subir num tronco de paineira.

Ninguém soube como pôde chegar lá em cima, com tanto espinho. Uma luta para o tirar, depois. Ao descer, tinhas as roupas em tiras e o corpo lanhado pelos espinhos agudos.

No domingo que se seguiu, o Juquinha não veio à nossa roda de brincar.

Fomos buscá-lo em casa. Estava com uma cara que fazia dó.

– Tua mãe te deu quinino? Perguntou a Rosa.

– Deu.

– E o velho Mirigido veio com o facão? insistiu ela.

– Veio, sim, o danado! Nem parece que esteve no meio da casa, va-não-vai para o outro mundo.

– Mas, se ele tiver outro ataque, vai mesmo! afirmei. Quem disse foi vovó Cadinha.

– O Juquinha fez um muxoxo:

Vai nada! Aquele não morre nunca mais! E depois de um silêncio doloroso:

– E a gente fica tomando remédio a vida toda” (2).

Fantástico! Fantástico! Se uma estória dessa narrada ou encenada por adultos às crianças já é encantadora, imagina-se contada pelo próprio menino Cazuza. Os pequenos vão à loucura. Risos aqui; susto ali; indagação acolá, e todos do grupo ficam com o aprendizado aguçado, querendo mais, é claro. Prova disso está aqui no depoimento de Lacerda, quando era menino que fez o papel de Mirigido, e vive dessas boas lembranças até hoje.

Esperamos que os nossos leitores propaguem sempre as artes, a si mesmos e aos seus filhos, sobrinhos, alunos, etc. Esse é o objetivo do Facetas.

Por Francisco Gomes e Winnie Barros.

Fontes 1. Nova Barsa, vol.4. Britannica, SP/RJ, 1999, p. 435. 2. Corrêa, Viriato. Cazuza. Cia Ed. Nacional, SP, edição de 1968, pp. 46/48.