Juntos: Gonzagão e Gonzaguinha

Foi longa a espera dos fãs e dos admiradores pela reconciliação e encontro dos dois. Tanto na música quanto na vida pessoal. Estamos falando de pai e filho, ou seja, de Luiz Gonzaga e Luiz Gonzaga Jr, respectivamente. Mas deu tudo certo, por fim, Em 1981, saíram em turnê pelo Brasil. Dez anos depois, em 1991, algumas músicas dos shows foram lançadas em disco. Um LP espetacular. Trata-se de um álbum imperdível dos dois. músicos de peso do cancioneiro brasileiro.

Na contracapa do mencionado LP, o poeta Francisco Rodrigues, autor do livro “Fumando Espero”, faz uma excelente análise sobre esse trabalho musical, e da importância dos seus nomes no contexto da música nacional, independente das desavenças que os mantiveram afastados um do outro por décadas. A seguir, texto do citato poeta:

PAI E FILHO, eles são dois dos mais importantes nomes da nossa música popular. LUIZ GONZAGA, Gonzagão, o velho “Lua”, “Rei do Baião”, levou a todos os pontos do país a música brasileira, um estilo contagiante que até hoje, mais de cinquenta anos do seu aparecimento, continua vivo no sentimento de todos aqueles que amam e respeitem a alma de sua terra. LUIZ GONZAGA JR., surgiu bem depois, no final dos anos 60, a partir do Festival Universitário da Música Popular Brasileira, levado aos ares através da extinta TV Tupi. Gonzaguinha que as últimas gerações conhecem bem de perto, por suas canções – de protesto ou românticas – de alto teor explosivo, resgando o peito em verdades que ele não podia deixar escondidas. Como autor ou intérprete, com diversos sucessos nas vozes de outros artistas como Maria Bethânia, Simone, Gal Costa, Alcione (principalmente as cantoras), Emílio Santiago e outros. Gonzaguinha revelou escancaradamente os mais o afligiam ou – e na maioria das vezes, principalmente – que faziam seu povo sofrer. Ele foi porta-voz dos nossos sofrimentos e anseios num período em que era imperioso o silêncio total. Mas ele não calou e, metaforicamente ou não, gritava contra as injustiças, deixando tranquila (e ativa) sua consciência, uma das raras expostas em melodias e versos neste país.

O trabalho de denúncia das injustiças através da música começara mesmo com o velho Gonzagão que, nos anos 40 e 50 (Asa Branca é de 1947), iniciava, com os parceiros Humberto Teixeira e Zé Dantas, uma série de canções sobre a seca nordestina e o ingrato destino de seus filhos, jogados à própria sorte. Essa veia de sede de justiça e de alegria sobre as maldades cometidas contras as populações mais carentes, Gonzaguinha certamente herdou do pai. Mas a carreira do compositor que desenvolveu a partir de 68 (Pobreza por Pobreza)revelou um autor de estilo absolutamente pessoal, original a partir mesmo dos assuntos abordados em suas canções..

Neste álbum – Gonzagão e Gonzaguinha Juntos – estão reunidas (são 12 ao todo) algumas das canções que pai e filho gravaram juntos (A Vida do Viajante, Mariana, Não Vendo Nem Troco, Eu e Minha Branca); e ainda composições de Gonzaguinha que o velho Gonzagão gravou ao longo de sua carreira (Festa, Pobreza por Pobreza, Diz Que Vai Virar e Erva Rasteira, todas de 68; Lembranças de Primeira, de 70; e From United States Of Piauí, de 72), entre outras que completa o LP em questão.

Em 1980, quando lancei o livro “Fumando Espero”, Gonzaguinha fez o prefácio. Ele dizia, entre outras coisas: “Muita paciência, amigo para enfrentar a vida. Ela é isso: você. […] Anotar na agenda: compreenda, devagar, de-va-gar. Fumar e fazer. Tragar. Tragar-se. O primeiro passo foi dado. Lembra de quantos você já deu?” Num poema, Renascimento, dedicado a Gonzaguinha, eu dizia: “O sofrimento é que ensina a tornar gigante o anão”. Gozaguinha e Gonzagão foram gigantes” (1).

Independentemente de serem fãs ou admiradores desses dois valiosos artistas, os nosso leitores sabem que o legado musical deles há de se perpetuar por muitas décadas. Maiores informações sobres os mesmos estão disponíveis na Internet, o que não era possível há 30, 40. anos, a não ser por revistas e jornais impressos. Recomendamos as suas biografias, assim como a audição de “Juntos: Gonzagão e Gonzaguinha”. O texto acima do poeta Francisco Rodrigues, nos leva a refletir sobre a condição social de parcela dos brasileiros: ondem, hoje, e que sabe, ao longo deste século, por meio de composições e melodias?

Notinha de pesar – A família Gomes está em luto. No dia 16.03.2026, foi vítima fatal de um acidente de trânsito, o nosso tio Francisco Gomes da Silva (70 anos). A tragédia ocorreu na cidade Nova Mamoré (RO), mas precisamente na BR 425, que liga Porto Velho a Guajará Mirim. Ao filho Jonas e à esposa Maria, os nossos sinceros sentimentos pela dor da partida do nosso querido Tio Chico (www. facetasculturais.com.br).

Por Angeline e Francisco Gomes e Winnie Barros.

Fonte consultada: 1. LP “Juntos: Gonzagão e Gonzaguinha”, SP: gravadora RCE, 1991; 2. Foto capa de Vittore Talone e Cristina Gamma.

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