Fala, mestre Suassuna!

Apesar de ter nascido em João Pessoa, no dia 16 de junho de 1927, ele viveu a sua infância em Taperoá, localizada na região do Cariri, no interior da Paraíba. Estamos nos referindo a Ariano (Vilar) Suassuna. Aos 15 anos foi morar no Recife, onde fez o curso de Direito na UFPE; foi casado com Zélia de Andrade Lima (de 1957 – 2014) e tiveram seis filhos; foi servidor público e produziu ali quase todo o conjunto de sua obra literária, etc. O próprio escritor costuma dizer que pertencia tanto ao Estado da Paraíba quanto ao Estado de Pernambuco. O primeiro como sua casa materna e o segundo, como sua casa paterna.

Ariano faleceu no Recife no dia 23 de julho de 2014, aos 87 anos de idade. Ao longo da vida foi escritor, filósofo, dramaturgo, professor universitário, artista plástico, ensaísta, poeta, político e advogado. Por causa da sua vasta contribuição para a cultura de Pernambuco, merecidamente, tornou-se patrimônio cultural estadual, recebendo o Título de Cidadão do Recife e de Olinda. Por duas vezes, foi Secretário de Cultural: de 1994 a 1998, no governo de Miguel Arraes; e de 2007 a 2010, durante o primeiro mandato de Eduardo Campos.

Em 2007, foi entrevistado, pelo jornalista Paulo Araújo, da Editora Abril. Do registro desse encontro, extraímos alguns trechos para esta publicação, do nosso blog, como bem de início relata o entrevistador: “O escritor e secretário de Cultura de Pernambuco conta como aprender a ler e se apaixonou por literatura e diz por que nunca deixou os alunos entediados em 32 anos de magistério (professor de Estética da UFPE, de 1956 a 1994, quando se aposentou. Mas, em 2008, voltou a lecionar no curso de Letras)” (1).

“Nesta entrevista, concedida à NOVA ESCOLA no seu casarão do século 19, localizada às margens do rio Capiberibe, no Recife, (…) Suassuna fala como se tornou um grande leitor e escritor; comenta a situação da Educação Brasileira e diz quais são as estratégias que usa para dar boas aulas desde os 17 anos”. Aliás, aos 7, antes de entrar para a escola, aprendeu a ler, por orientação de sua mãe e por uma tia. Afirma: “Eu não tenho o hábito da leitura, eu tenho a paixão da leitura. O livro sempre foi para mim uma fonte de encantamento” (1).

Foto de Eduardo Queiroga

Órfão de pai aos três anos de idade, porém, dele herdou “uma biblioteca fabulosa para os padrões do sertão naquela época. Tinha de tudo: Ibsen, Dostoiévski, Cervantes, Machado de Assis, Euclides da Cunha. Meus tios viviam comprando livros em Campina Grande (PR) para em ler. Eram Eça de Queiroz, Guerra Junqueira e um título do qual me lembro muito, Doidinho (1933), de José Lins do Rego.”

Paulo Araújo – Como começou a escrever?

ARIANO SUASSUNA – Certo dia, eu tive uma prova de Geografia e não sabia nada. Então resolvi dar as respostas por meio de versos. O professor quis saber quem era aquele aluno e, em vez de me dar uma bronca, me elogiou. Dias depois, ele deu um jeito de publicar no Jornal do Commercio, aqui do Recife, um dos meus poemas que havia mostrado a ele. Em 1947, eu e outro colega fundamos o Teatro do Estudante de Pernambuco, que encenava peças de nossa autoria. Nesse mesmo ano – aos 20 anos – escrevi Uma Mulher Vestida de Sol e não parei mais.

PA – O senhor usa o computador para escrever?

AS – Jamais! Escrevo tudo a mão. Minha letra é muito bonita. Acho que a única função do computador foi aposentar as máquinas de datilografia, que já usei um dia. O meu genro é quem lê os originais e depois passa para o computador.

Admite o sucesso de sua obra literária à TV, cuja comunicação se dar por meio da oralidade, principalmente. Por exemplo, se o professor escolher boas adaptações e exibi-las para os alunos e depois “facilitar o acesso ao livro, eu divido que eles não se interessem. Mas é preciso lembrar que fazer o aluno participar da aula, como se fosse um ator!”. E orienta: “Acho que todo professor tem de ter alguma coisa de ator, senão ele não terá sucesso. Sendo somente um expositor de ideias, dificilmente ele atrairá a atenção dos estudantes”.

PA – Como era o seu método de avaliação?

AS – Na universidade, minhas provas não eram difíceis e nunca reprovei por faltas. Eu não queria que os alunos fossem às aulas por obrigação. Fazia questão de não fazer chamada e também passava trabalhos que estivessem de acordo com o nível de aprendizado deles.

PA – Suas aulas-espetáculo, que já encantaram tantas pessoas Brasil afora, são planejadas?

AS – Não. Eu tenho um certo dom de improviso e ele nunca me faltou.

PA – Hoje muitos professores promovem rodas de conversas com as crianças. O que o senhor pensa dessa prática?

AS – Acho ótimo! Não tem nada melhor do que desenvolver a oralidade desde cedo.

PA – Que jeito era esse – como o senhor classifica o povo brasileiro?

AS – Eu tinha aprendido com Euclides da Cunha que nós éramos pardos. Gilberto Freyre, por sua vez, dizia que éramos morenos. Até que no censo de 1980 voltava a pergunta sobre a cor das pessoas. Deu uma polemica danada. Vieram me ouvir e eu dizia que todo brasileiro era mestiço, influenciado por Sylvio Romero. Quando a dúvida ficou insuportável, só uma frase do padre Vieira me salvou. Ele diz: “Quem quiser acertar em história, em política, ou em sociologia, deve consultar as entranhas dos sacrificados”.

PA – E o que o senhor fez?

AS – Deixei de ouvir todos e até a mim mesmo e fui consultar o movimento negro do Recife. Me disseram que todos esses termos (pardos, morenos, mestiços) atrapalhavam a vida e eles só queriam ser vistos como negros, simplesmente.

E, a entrevista segue com abordagem a outros temas, como: Ser Ariano um ferrenho crítico do chamado “lixo cultural” que os EUA tentam impor ao resto do mundo; sobre seus projetos prioritários como Secretário de Cultura que vão percorrer Pernambuco, levando dança, teatro, música, canto e literatura ao público; o porquê da obra o Auto da Compadecida, de 1955, quando ele próprio, ou seja, o autor ainda não tinha consciência do problema racial brasileiro; do seu discurso de posse na ABL, em 1999; e, por fim, como recebeu a homenagem da Império Serrano do Rio de Janeiro, em 2002, com o enredo “Aclamação e Coroação do Imperador da Pedra do Reino: Ariano Suassuna”.

Brindamos assim, aos nossos leitores com estas sábias palavras do educador em questão. Precisamos sim, refletir sobre o modelo de Educação praticado no Brasil atual. E, juntos, todos nós, tentarmos encontrar meios que possibilitem melhor aprendizado ao nosso alunado, de Norte a Sul do país.

Por Angeline e Francisco Gomes e Winnie Barros.

Fonte consultada: 1. Revista Nova Escola, nº 203, jun/jul de 2007. Ed. Abril: SP, pp. 16/20. foto de Eduardo Queiroga.

Um comentário em “Fala, mestre Suassuna!

  1. Muito bom o texto. Ariano Suassuna era mestre mesmo. Dotado de uma inteligência incrível. O Brasil está carente de pessoas brilhantes. O Brasil precisa de mais Ariano Suassuna.

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