Na semana passada, segundo a professora Winnie, a imprensa pernambucana, principalmente a da capital Recife, deu ênfase aos 100 anos do nascimento do poeta, escritor, crítico e diplomata João Cabral de Melo Neto. Nada mais justo àquele que foi um dos maiores poetas brasileiros do século XX, dentro e foram do país.
Cabral nasceu no Recife, em 9 de janeiro de 1920, e faleceu em 9 de outubro de 1999, aos 79 anos (3 meses antes de completar 80 anos), no Rio de Janeiro de ataque cardíaco. Passou a infância nos Municípios Metropolitanos de São Lourenço da Mata e Moreno, distantes 264 e 195 km da capital, respectivamente, nos engenhos da família, onde teve contato com a literatura de cordel. Aliás, lia tudo que estivesse ao seu alcance, tanto na escola como na casa da avó.

Sua origem familiar apresenta nomes bem conhecidos da cultura brasileira: “Filho de Luís Antônio Cabral de Melo e de Carmem Carneiro Leão Cabral de Melo, era irmão do historiador Evaldo Cabral de Melo e primo do poeta Manuel Bandeira e do sociólogo Gilberto Freyre” (1).

O poeta foi casado com Stella Maria Barbosa de Oliveira, de 1946 a 1986, com quem teve 5 filhos e com a poetisa Marly de Oliveira, de 1986 a 1999. Em 1992, começou a sofrer de cegueira progressiva. Doença que o levou à depressão. Em 1969, aos 49 anos, foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras, para a cadeira nº 37, tomando posse em 6 de maio do mesmo ano. 
Na adolescência, estudou em colégio marista (comunidade de Maria), no Recife. Aos 22 anos foi para o Rio de Janeiro onde prestou concurso público e posteriormente em outro concurso (1947) ingressou no Itamarati. A carreira diplomática o levou a viver longos períodos fora do Brasil como embaixador ou cônsul, ora na Espanha, Londres ou França, etc, até 1988, quando se aposentou e passou a viver no Rio de Janeiro. 
Aos 21 anos, participou do primeiro Congresso de Poesia do Recife lendo o opúsculo (livro pequeno, de poucas páginas) Considerações sobre o Poeta Dormindo. No ano seguinte, isto é, em 1942, publica seu primeiro livro, Pedra do Sono, no qual apresenta uma inclinação para a objetividade, embora predomine aspectos surrealistas: “Meus olhos têm  telescópios/ Espiando a rua./ Espiando a alma/ Longe de mim mil metros”.

Em 1994, cinco anos antes de sua morte, o poeta teve sua Obra completa lançada. Extenso é o rol de livros de poesia. Entre eles Psicologia da composição, Agrestes, A educação pela pedra, Morte e vida severina. Este último foi o poema que o consagrou no meio literário. Também escreveu ensaios críticos e como crítico literário colaborou para alguns jornais. Diga-se de passa que a carreira diplomática jamais interferiu na sua produção artística. Por sinal, foi várias vezes premiado.
Morte e vida severina (1955), sua obra mais conhecida, é um auto de Natal do folclore pernambucano, ou seja, “é um belíssimo exemplo de peça literária perfeita, em que forma, conteúdo e linguagem compõem um conjunto harmonioso e indissociável. Ao abordar a injusta distribuição de riquezas que caracteriza secularmente a nossa sociedade (com particular ênfase para a questão agrária), João Cabral revira o nosso passado colonial com suas estruturas de herança medieval (concentração da riqueza, grandes propriedades, patriarcalismo, teocentrismo, etc). Significativa é a caracterização do coronel como latifundiário, ou remanescente do feudalismo” (3). Trata-se do coronel Zacarias. 
Ainda sobre esse fascinante poema, no fragmento abaixo, o retirante assiste ao enterro de um trabalhador de eito* e ouve o que dizem do morto os amigos que o levaram ao cemitério:
Essa cova em que estás,/com palmos medida,/é a conta menor/que tiraste em vida.
– É de bom tamanho,/nem largo nem fundo,/é a parte que te cabe/deste latifúndio.
– Não é cova grande,/é cova medida,/é a terra que querias/ver dividida.
– É uma cova grande/para teu pouco defunto,/mas estarás mais ancho**/que estavas no mundo.
– É uma cova grande/para teu defunto parco,/porém mais que no mundo/te sentirás largo.
– É uma cova grande/para tua carne pouca,/mas a terra dada/não se abre a boca.
– Viverás, e para sempre,/na terra que aqui aforas:/e terás enfim tua roça.
– Agora ficará para sempre,/livre do sol e da chuva,/criando tuas saúvas.
– Agora trabalharás/só para ti, não a meias,/como antes em terra alheia.
– Trabalharás uma terra/da qual, além de sonhar/será home de eito e trator.
– Trabalhando nessa terra,/tu sozinho tudo empreitas:/serás somente, adubo, colheita (4).
“O auto apresenta várias passagens ou cenas, etapas na longa jornada do retirante Severino, que sai em busca da vida, caminhando em direção ao mar e atravessando as regiões típicas dos estados nordestinos: o Sertão, o Agreste, a Zona da Mata, a Cidade Litorânea”.
Pura racionalismo na poesia de João Cabral. Vejamos nos trechos abaixo, onde o retirante explica quem é e a que vai:

– O meu nome é Severino,/não tenho outro de pia./Como há muitos Severinos,/que é santo de romaria,/deram de me chamar/Severino de Maria (3).
                                                            (…)
E se somos Severinos/iguais em tudo na vida,/morremos de morte igual,/mesma morte severina: que é a morte de que se morre/de velhice antes dos trinta,/de emboscada antes dos vinte,/de fome um pouco por dia (4).
“Apesar de o própria poeta afirmar que só duas coisas motivaram sua poesia, podemos distinguir três três grandes temas em sua poética: O Nordeste com sua gente: os retirantes, suas tradições, seu folclore, a herança medieval e os engenhos (…). A Espanha e suas paisagens, em que se destacam os pontos em comum com o Nordeste Brasileiro (…). A Arte e suas várias manifestações: a pintura; a literatura; o futebol; a própria arte poética” (3).

“As obras literárias desse poeta são marcadas pelo uso da metalinguagem (muitos dos seus trabalhos falam sobre a própria criação literária). Seus poemas também contêm imagens surrealistas e influência da cultura popular”. Isto é, “em termo de formato, João Cabral primou pela rigidez formal com rimas fixas, ritmo e versos rimados” (2). Daí, o apelido de Poeta-engenheiro.

Leiamos o que disse o pesquisador, crítico, professor e imortal da ABL, Eduardo Portella (1932-2017) em 1974 :”Há em João Cabral de Melo Neto uma atitude estilística de uma originalidade e de uma coerência poucas vezes atingida por nossos poetas. Uma originalidade diga-se, consciente, situada e não deslocada num plano abstrato. Sua atitude é racional, parte da compreensão lúcida da realidade literária brasileira. Sua originalidade não é a de quem se entrega ao prazer de ser original apenas. É Através dele que s poesia brasileira se volta para a palavra concreta” (3)
Em 1992, foi aos EUA receber o Prêmio Neustadt, e assim definiu sua própria concepção de poesia:
Senhoras e senhores, não é por simples aversão que me recuso a inscrever-me no exclusivo “clube”dos líricos que hoje constitui quase inteiramente a poesia escrita em nosso mundo. Nem há qualquer desdém de minha parte por esse lirismo manifestado na música popular. Penso, ao contrário, que as novas técnicas deram ao lirismo uma possibilidade  de expressão e comunicação jamais conhecida antes. Estou somente oferecendo o possível assunto de meditação aos teóricos da literatura e fazendo-lhe um apelo para que não procurem na poesia não cantada (ou cantável) escrita em nossos dias, uma qualidade, o lirismo, que nunca foi a intenção de certos autores de realiza ou mesmo de experimentar.
A poesia me parece alguma coisa de muito mais ampla: é a exploração da materialidade das possibilidades de organização de estruturas verbais, coisas que não têm nada a ver com o que é romanticamente chamado inspiração ou mesmo intuição. A esse respeito, creio que o lirismo, ao achar na música popular os elementos que o completam e ao lhes dar prestígio, liberou a poesia escrita e não cantada, e permitiu-lhe que voltasse a operar em territórios que outrora lhe pertenceram.  Fez possível também o exercício da poesia como exploração emotiva do mundo das coisa, e como rigorosa construção de estruturas formais lúcidas, lúcidos objetos de linguagem” ( 4 ).
Morte e vida severina, foi publicado pela primeira vez em 1955. Porém, foi adaptada várias vezes para o teatro e/ou para o cinema. Por exemplo, em 1978 Zelito Viana fez um filme, tendo como ator principal José Dumont. Tem mais: em 1968, para uma dessas apresentações,  Chico Buarque e João Cabral, criaram Funeral de um Lavrador. É fantástico! É um espetáculo complementar à obra original, simplesmente! Vamos à letra, cuja interpretação é do próprio Chico e,  ao vídeo de 
                                     FUNERAL DE UM LAVRADOR
Esta cova em que estás com palmos medida
É a conta menor que tiraste com vida 
É a conta menor que tiraste com vida 
      É de bom tamanho, nem largo nem fundo
      É a parte que te cabe deste latifúndio 
      É a parte que te cabe deste latifúndio 
Não é cova grande, é cova medida
É a terra que querias ver dividida
É a terra que querias ver dividida
      É uma cova grande pra teu pouco defunto
      Mas estarás mais ancho que estavas no mundo
      Estarás mais ancho que estavas no mundo
É uma cova grande pra teu defunto parco
Porém mais que no mundo te sentiras largo
Porém mais que no mundo te sentiras largo
      É uma cova grande pra tua carne pouca
      Mas a terra dada, não se abre a boca
      É a conta menor que tiraste em vida
      É a parte que te cabe deste latifúndio 
      É a terra que querias ver dividida 
      Estarás mais ancho que estavas no mundo
      Mas a terra dada, não se abre a boca.
A jornalista Romyne Nóvoa autora da reportagem “Auto de Natal -‘morte e vida severina’ A EXPLOSÃO DA VIDA“, escreveu, uma ano após a morte do poeta, ou seja, em dezembro de 2000, já começa assim:
A poesia de João Cabral de Melo Neto, um dos maiores nomes da literatura brasileira, é, ainda, hoje. atual. A sua obra maior, o poema “Morte e vida severina” é o retrato da vida árdua do nordestino que luta por um pedaço de terra, mesmo seca, e assim tentar “arrancar alguns roçados da cinza“‘ (5).
Que as obras desse gigante da nossa poesia perdurem por muitas décadas, séculos. Enquanto que as mazelas sociais que afetam o Brasil, mas precisamente o Nordeste, que por ele foram combatidas, sejam, um dia, erradicadas.
*  Eito: Tanto designa a roça onde trabalhavam os escravos no engenho de cana, como a limpeza de  uma plantação por turmas que usam enxadas.
** Ancho: Largo, espaçoso; no texto, estarás mais ancho significa “terás mais espaço”.
Perguntinha útil: Quem foi mesmo Roberto Alvim?
Pesquisa e texto por Francisco Gomes
Formatação de vídeo e foto por Winnie Barros
Fontes
1 .htt ps://www.ebiografia.com
2. Português de olho no mundo do trabalho: volume único/Ernani Terra, José De Nicola. – São Paulo: Scipione.2005.
3. Literatura brasileira: teoria, textos, testes/por/Volnyr Santos /e/ Adão E. Carvalho. Porto Alegre, Sulina/1974/.
4. Textos, leituras e escritas: literatura, língua e produção de textos, volume único/Ulisses Infante. – São Paulo: Scipione, 2005.
5. CD Chico Buarque de Hollanda: volume 3 (gravadora RGE, 1968)./Abril Coleções. – SP.: 2010.
6. “Auto de Natal – ‘Morte e vida severina’: A EXPLOSÃO DA VIDA”, por Romyne Nóvoa, A Crítica, Manaus, 20 de dezembro de 2000.
7. Imagem 1 – Disponível no site Biblioteca Parque Villa-Lobos
8. Imagem 2 – Extraída do Jornal ACrítica, Manaus, 20.12.2000.