“O QUE TORNA O MAL TÃO FASCINANTE? 
FOLHEANDO AS PÁGINAS DA HISTÓRIA É DIFÍCIL 
ENCONTRAR UM ASSUNTO  QUE TENHA INTRIGADO 
MAIS A INTELIGÊNCIA HUMANA DO QUE O MAL.
 UM LIVRO DE HISTÓRIA QUE TRATE DA
 DESUMANIDADE DO PRÓPRIO HOMEM É MAIS INSTIGANTE
 DO QUE OUTRO QUE DETALHE OS ATOS DE BONDADE 
DAS PESSOAS. O MAL DESTRÓI A INTEGRIDADE, 
A FELICIDADE E O BEM-ESTAR DE UMA SOCIEDADE
 “NORMAL”; APESAR DISSO, SOMOS ATRAÍDOS POR
ELE, TALVEZ COM A ESPERANÇA  DE CHEGARMOS A APRENDER 
COM NOSSOS ERROS. MAS O MAIS PROVÁVEL
 É QUE SEJA POR UM DESEJO PERVERSO DE 
OUVIR FALAR SOBRE AS DESGRAÇAS QUE SE ABATEM 
SOBRE OS OUTROS, ENQUANTO NOS CONSOLAMOS COM 
A IDEIA DE QUE NUNCA VAI ACONTECER CONOSCO”.
Assim fez constar o trecho acima, a editora, na contracapa da obra Os mais perversos da história, de Miranda Twiss. Tem mais: na orelha do livro está escrito: “O Mal é um fato da vida. Não o vemos somente nos regimes totalitários de Stalin e de Hitler, mas também em crimes cotidianos como assassinato, estupro, assalto, sem falar dos milhões de vidas brutalizadas pela opressão política ou religiosa, pela pobreza, pela doença e pela fome.
Um fator une homens e mulheres apresentados neste livro e os atos de maldade que cometeram: todos tiveram poder ilimitado sobre as pessoas cujas vidas controlaram. Seus regimes de terror abrangem um período de quase dois mil anos, desde o império de Calígula, que começou em 37 d. C., na época do Império Romano, até o genocídio de cambojanos, arquitetados por Pol Pot, na década de 1980. Esses personagens, motivados pelo poder, pela religião, por ideias políticas ou pelo sadismo e pela luxúria, e as vezes pela insanidade, tornaram-se sinônimos de terror em todo o mundo. 
Mas como mostra este livro, o Mal tem gradações. Juntos, Hitler e Stalin assassinaram dezenas de milhões de pessoas. Elizabeth Báthory, conhecida como “Condessa Drácula”, provavelmente matou menos que as centenas mencionadas por seus acusadores. Mesmo assim, os fios vermelhos da crueldade, da tortura e do terror que permeiam essas vidas fazem deste livro um registro fascinante – embora perturbador – da brutalidade fria. Eis aqui uma lista abominável da desumanidade, da intolerância e da falta de misericórdia”.


Miranda Twiss nasceu em Londres e é graduada em História pelo Goldsmiths’ College da Universidade de Londres, com mestrado em pesquisa histórica em Birkbeck. À época (2002) escrevia para vários jornais e revistas. Há quem diga que do ponto de vista acadêmico, o livro é pobre e simples a sua leitura. Seja como for, o certo é que num só trabalho, o leitor obtém informações sobre homens e mulheres (16 ao todo) considerados propagadores do Mal contra os seus semelhantes.
Adquiri a primeira reimpressão do livro em questão, em 2005, por meio dos Correios. Oportunamente, portanto, apresento aqui uma síntese do registro desses personagens históricos. Os 16 considerados perversos pela pesquisadora são: Calígula – O imperador esquizofrênico; Nero – O quinto imperador romano; Átila, o Huno – A tempestade do oriente; Rei João – Um monarca cruel e implacável; Torquemada – O inquisidor espanhol; Príncipe Vlad Drácula – O Empalador; Francisco Pizarro – O conquistador dos Incas; Maria I Tudor, a Sanguinária – Rainha católica de um país protestante; Ivã IV, o Terrível – Czar de Todas as Rússias; Elizabeth, condessa de Bárthory – A condessa Drácula; Raspútin  – O “monge louco” que derrubou uma dinastia; Joseph Stalin – um tirano do século XX; Adolf Hitler – o pai da Solução Final; Ilse Koch – A cadela de Buchenwald; Pol Pot – O arquiteto do genocídio; e Idi Amin – O carniceiro da África.
Só lembrando que o livro foi concluído em 2002, Idi Amin, por exemplo, ainda estava vivo. Mas dessa data para cá, os Anais da História Universal já cadastraram outros, e atuais ditadores que existem em diferentes pontos da Terra. Dois deles, infelizmente são: Saddam Hussein que governou o Iraque de 1979 a 2003. Em 30 de dezembro de 2006, foi enforcado, por ordem de um Tribunal Internacional, liderado pelos EUA. O outro, ainda está no poder, é o presidente da Síria, Bashar al-Assad, de 54 anos, no cargo desde julho de 2000, quando sucedeu a seu pai, Hafaz al-Assad, que governou aquele país por 30 anos, até morrer.
Porém, voltemos ao contexto da obra em destaque: “Na maioria das vezes preferimos acreditar que a bondade humana vai prevalecer e os malfeitores vão ter o que merecem. Mas a justiça para os dezesseis homens e mulheres deste livro só foi feita ocasionalmente – os bons podem sofrer, mas os malvados também florescem” (1). Obviamente que esses ditadores  não agem sozinhos. Seus cúmplices estão por todos os lados e são muito “eficientes” em fazer valer uma ordem dada – mesmo que seja criminosa. Não é só isso: por coação direta ou velada, milhares (até milhões) de pessoas seguem esses “líderes”, mesmo que seja pelo temor. Porque agindo assim estão protegidos da fúria dos seus senhores.
Quem ainda lembra de Idi Amin Dada (1925-3003)?  Foi um dos maiores sanguinários da África. Ou melhor, do mundo de todos os tempos. As suas brutalidades em Uganda, ganharam o noticiário internacional: fosse por meio das ondas do rádio, da televisão, dos jornais impressos, das revistas, etc, durante a década de 1970. Quando, finalmente, foi deposto, já havia ceifado a vida de mais de 300 mil inocentes. Lembro-me muito bem dessa tragédia humana, pois, entre 1977/79, os poucos exemplares das revistas Veja e Manchete que circulavam – de mão em mão – na cidadezinha de Lábrea (AM), onde eu vivia, traziam reportagens estarrecedoras sobre o terror pelo qual passada Uganda. Idi Amin Dada, jamais foi penalizado pela matança contra a humanidade.
Todos citados no livro foram cruéis. Pol Pot, por exemplo, durante quatro anos impôs o terror no Camboja. Se as suas práticas genocidas tivessem perdurado por uma década ou por duas décadas, a carnificina teria atingido um estágio difícil de se imaginar. E o assassino Stalin? Por mais de 30 anos como ditador da URSS, seu regime exterminou milhões de russos, principalmente (fala-se em 12, 13, 14 milhões de seres humanos). O próprio filho do “Camarada Stalin” preferiu se matar para não seguir vendo as atrocidades governamentais do pai socialista. Apesar de tudo isso, “quando se foi, houve grandes manifestações de pesar por sua morte. Mas, Stalin teve sua imagem intacta durante anos após sua morte. A maioria das pessoas perversas (…) tem seus defensores que preferem ignorar os relatos das atrocidades cometidas por elas, afirmando que relatos são mera propaganda” (1). Stalin tirou a Rússia do cabo da enxada e transformou-a em uma superpotência, mais sem levar em consideração o sangue derramado de tatos seres humanos.
A Segunda  Guerra Mundial, perpetrada por Hitler, deixou para sempre um rastro de terror pela morte de milhões de pessoas, principalmente os judeus. Mesmo assim, há quem defenda que jamais houvera genocídio entre 1939 a 1945. “É claro que retratar as pessoas como encarnações do Mal tem suas vantagens. Quando seu inimigo é visto sob uma luz desfavorável, qualquer meio para vencê-lo torna-se aceitável, e suas próprias maldades podem ser justificadas” (1).
A autora admite que o conceito de MAL de hoje é diferente daquele de séculos anteriores ao que vivemos. Porém, ela acha que alguns dos 16 citados como “os mais perversos”, tinham nos seus atos um vínculo com a religião, fazendo a seguinte observação: “Em muitos casos, a religião parece ter dado a essas dezesseis pessoas uma razão para impor suas atrocidades, ou servido de instrumento para receberem o perdão por seus atos perversos. Quando achavam que Deus estava do lado delas, seus inimigos não estavam lutando somente contra elas, mas também contra o seus Deus. Por isso, todos os atos cometidos poderiam ser justificados” (1) independente de sua magnitude. Assim, eram algumas dessas  justificativas: 1. “Depois de cada orgia de matança, Ivã, o Terrível, passava semanas purificando-se diante do altar“; 2.Francisco Pizarro conquistou e devastou o império inca em nome de Cristo“; 3.Maria I Tudor, a Sanguinária, mandou queimar centenas de protestantes em nome da Igreja Católica“.
Dos 16 relacionados, 3 são mulheres: Elizabeth Báthory, Ilse Koch e Maria I Tudor. A primeira matou mais de 600 moças em seus castelos; a segunda, transformou Buchenwald (campo de concentração) em seu parque de diversões; e a terceira, foi a primeira rainha inglesa que fez por si (e para si), apesar de um reinado curto, mas assassinou muita gente, mesmo que proporcionalmente o número tenha sito menor do que aquelas pessoas desaparecidos no governo do seu paí, o rei Henrique VIII. Até mesmo pela sua condição “de ser mulher a tenha tornado mais vulnerável às acusações de perversidade”. A historiadora questiona: “Teriam sido essas três usadas como bote expiatório, iguais a tantas outras ao longo da história humana ?”
Os vícios dos homens e mulheres costumam estar na raiz da maior parte das perversidades que demonstram ser capazes. Alguns deles são: inveja, orgulho, vaidade, poder, ganância, como ficaram evidentes na vida dos elencados no livro. A própria autora pergunta e responde: “De onde vem o Mal? Acho impossível acreditar que uma criança nasce má”.  “Ivã foi uma criança maldosa; a infância de Calígula alimentava o lado sombrio de sua natureza. Tudo é muito circunstancial,” garante.
Miranda intrigada com o tema por ela suscitado, pergunta novamente: “Será possível justificar o Mal?” E continua: “Na verdade, não compreendemos  realmente o Mal – consideramos esse termo mais uma expressão absoluta do que comparativa. Então, o Mal é aquilo que se opõe ao bem, à virtude, à probidade, à honra. Se o Mal destrói a integridade, a felicidade e o bem-estar de uma sociedade, por que ele é tão fascinante para considerável parcela da humanidade. Deus pode representar AMOR e PERDÃO, mas os livros de história estão cheio de atos terríveis cometidos em nome deles” (1).
Só para explicar a origem do título deste artigo, segue o pequeno relato. Nos contam os historiadores, que o rei da França Luís XVIII (1755-1824), que governou aquele  de 1814 até 1824 (exceto o Governo dos Cem Dias), quando estava no leito de morte, vítima de gangrena e obesidade, teria dito: “Après moi, le déluge!”. Não se trata de uma citação de sua autoria. Sabe-se ser uma frase atribuída a uma das favoritas de Luís XV, Marquesa de Pompadour, ou Madame du Barry. “Depois de mim, o dilúvio!”, não era então a frase da moda (vez ou outra, lembrada). “Do que nos sentimos ameaçados hoje? “A vida é muto curta”, diz-se com frequência. Que paradoxo, no momento em que o tempo de vida é continuamente aumentado” (definição de Hans Jonas e tradução de Paula Rosas).
                                               Depois de mim, o dilúvio!
                                               Depois de morto que me importa os outros?
                                              Morto eu, morto o mundo” (2).
Amigo leitor, você ache que os perversos aqui citados, além de muito que já se foram e os que ainda estão espalhados pelo mundo, pensavam ou pensam diferente do rei francês? Pensavam e pensam até pior. Até porque Luís XVIII tentou pacificar a França diferente de Napoleão. Que nos livremos do mal. 
Fontes
1. Twiss, Miranda. Os mais perversos da história; trad. de Dinah de Abreu Azevedo. – SP: Editora planeta do Brasil, 2004.
2. books.google.com.br