Entre algumas centenas de livros lidos por mim nos últimos 40 anos, no mínimo, algumas dezenas são inesquecíveis. Cito um: Os miseráveis, do francês Victor Hugo. De sua autoria, li ainda Os trabalhadores do mar e O corcunda de Notre-Dame. Pense num poeta genial e num escritor magnífico, cuja riqueza de sua lírica, o sagrou como um dos mais românticos de todos os tempos.
Em 1985, quando da passagem do centenário da morte desse poeta, o jornalista Álvaro Cardoso Gomes, publicou uma reportagem sob o título: “VICTOR HUGO: UM HERÓI ROMÂNTICO”, segundo ele, Victor foi o maior na prosa e na poesia daquele país e amado pelo seu povo a ponto de merecer regalias em vida e homenagens póstumas: “Grande pompa revestiu seu funeral: o corpo acompanhado pela multidão comovida, foi conduzido do Arco do Triunfo ao Panteão. E paradoxalmente, um coche dos pobres levava o férito, por expressa vontade daquele que sempre cortejara o poder” (1)
Se por um lado é considerado o fundador do romantismo francês, por outro, como político, migrou da postura conservadora e monarquista para o liberalismo reformista e os ideais revolucionários. Essa contradição foi uma constante em sua vida. Seja como poeta, romancista, dramaturgo ou partidário. “Gênio precoce, grande escritor, parlamentar ativo, pai exemplar, amante ardoroso, íntimo dos poderosos, protetor dos perseguidos. Enfim, uma vida digna do folhetim do século XIX” (1).
Victor-Marie Hugo, 3º filho do general napoleônico Sigilbert Hugo, nasceu em Besançon, França, em 26 de fevereiro de 1802. Durante a juventude passou longas temporadas na Itália e na Espanha. Estudo Direto em Paris, mas deixou o curso para seguir a literatura. De saúde debilitada, sempre mereceu cuidados especiais. Certa vez, ele disse que a sua breve infância, teve três mestres: um jardim, um velho padre e sua mãe. “Estes mestres irão constituir-se em vertentes de sua obra poética. A natureza, a religião e a família  são polos determinantes de sua produção” (1).

Em 1817 envia para a Academia Francesa o poema As vantagens do estudo. Não foi aprovado porque indicou a precoce idade: 15 anos. A Comissão Julgadora pensava tratar-se de uma mistificação. Mas, no ano seguinte foi laureado por aquela instituição. Nessa época, com os irmãos funda e dirige O conservador literário, para o qual escreve artigos críticos, ensaios e poemas, usando pseudônimos. Nesse meio, escreveu seu primeiro romance, Bue-Jarnal, sobre uma revolta de negros em São Domingos, mas a obra só foi publicado em 1826, quanto tinha 24 anos.  
 

Aos 20 anos – em 1822 – publica Ode sobre a morte do duque Du Barry, sendo seu talento reconhecido pela crítica. Ainda nesse ano apaixona-se por uma amiga de infância, Adéle Foucher e casa-se com ela,  mas sua precária condição financeira não permite desposá-la. Somente quatro anos depois, com a reedição de Odes e baladas, obtêm uma pensão do rei Luiz XVIII, que o leva a ser aceito pelo pai da amada. Da união nasceram quatro filhos:  Lèopoldine, Charlas, François e Adèle. 

Com 21 anos inicia sua carreira de romancista com a obra Ana de Islândia, aproximando-se das ideias românticas. Porém, em 1827, lança sua peça de maior sucesso: Cromwell, passando a liderar o movimento romântico francês, opondo-se definitivamente ao classicismo. O prefácio desse drama se tornou, historicamente, mais importante que a peça em si, por ter causado um grande escândalo ao defender o romantismo. “A partir daí, ainda com 25 anos, começa a ser venerado como um mestre. Sua casa (…) torna-se um verdadeiro centro cultural” (2)
Apesar de ter uma peça vaiada e outra censurada, o dramaturgo não desanimou. O sucesso veio: na poesia com As orientais (1824); na prosa com O último dia de um condenado (1829) – um apelo pelo fim da pena de morte no seu país; e no drama, com Hernani (1830), no qual exalta o herói romântico, em luta contra a sociedade. Na política, declara apoio à revolução de 1830 e à ascensão da monarquia constitucional. Em 1837, publica uma de suas obras mais importantes: Notre-Dame de Paris, “célebre romance que se passa na Idade Média e que mostra as tendências românticas fundamentais: a fusão do belo e do feio (a cigana Esmeralda e o corcunda Quasimodo) e do sublime e do grotesco. (2)
Aos 39 anos, após 3 tentativas fracassadas, é eleito para a Academia Francesa de Letras. Porém, apesar de sua fecunda produção literária, o poeta vivia deveras infeliz, ou seja, atormentado por problemas conjugais. Achando por bem voltar-se para a jovem atriz Juliette Drouet, com quem já tinha ligações pessoais de 1833. A moça abandonou a carreira e entrega-se a uma vida recolhida, dedicando-se totalmente a ele, numa relação amorosa que somente iria terminar com a sua morte em 1883, dois anos antes da morte de Victor, em 1885.  
Em 1848, o mestre sofre duas derrotas: o fracasso da peça Les Burgraves, o que o fez abandonar o teatro; e a morte, por afogamento, da filha mais velha, Lèopoldine e do marido, por acidente, nas águas do rio Sena, perto de Villequier. “Maltratado pelo dor, por algum tempo deixa de lado a literatura. Somente alguns anos mais tarde, publicaria sua obra mais terna, mais sensível, As contemplações, revelando o grande amor pela filha morta:
                                           Agora, ó meu Deus, que tenho
                                           esta calma sombria
                                           De poder d’ora em diante 
                                           Ver com meus próprios olhos
                                           a pedra onde sei que na sombra
                                           Ela dorme para sempre (2).
Em 1848, torna-se deputado republicano, opondo-se ao ambicioso Napoleão III. Mas, em 1851, veio o golpe imperial e o poeta precisou exilar-se por quase 20 anos. A princípio, na Bélgica, depois na Inglaterra. Essa experiência foi por ele definida assim: “Uma espécie de longa insônia”. Sendo 15 anos do exílio, só na ilha inglesa de Guernsey. Porém, se por um lado foi negativo viver fora de sua pátria, por outro, “foi o período mais fértil de sua vida literária”, como: na poesia, destacam-se: Os castigos (1853), em que satiriza as campanhas militares do imperador; As contemplações (1856), com a melhor de sua lírica (acima mencionada); a primeira série do ciclo épico, A lenda dos séculos (1865); e na prosa, os seus melhores romances, que constituem propostas de reforma social: Os miseráveis (1862), ano em que o autor completa 60 anos de vida. O livro torna-se um sucesso extraordinário. Fechando esse ciclo: Os trabalhadores do mar (1866); e O homem que ri (1869).

“Os miseráveis: épico da injustiça social é um estudo da natureza do bem e do mal. O romance gira em torno de Jean Valjean, criminoso reabilitado que apesar de ter pago sua dívida à sociedade, é impiedosamente perseguido pelo detetive Javert, que se recusa a deixar que Valjean esqueça o passado” (3).


Entre 1855/57, o poeta vive atormentado pela ideia da morte. Nessa  fase, a sua poesia trata do eterno conflito entre o bem e o mal, ainda no exílio. Somente em 1859, foi anistiado pelo imperador Napoleão III, mas o romancista decide ficar morando naquela ilha inglesa que tão bem o acolhera. Portanto, decidiu voltar à França em 1870, com a Proclamação da República, sendo recebido de forma triunfal em seu país. No entanto, uma tragédia (em dose dupla) barrou o seu contentamento: a morte da mulher Adèle, seguida pela do filho Charles Hugo, também escritor. Recuperado, decide voltar à vida política.

Em 1876, é eleito senador da República, tornando-se ídolo da esquerda. Ao mesmo tempo que solidifica sua fama de escritor popular, vivendo “a plenitude de sua glória nacional e internacional”, influenciando muito “a literatura ocidental”. No Brasil, por exemplo, o seu maior seguidor foi o poeta Castro Alves (1847-1871). Ao completar 80 anos, os parisienses o aclamam e as autoridades dão seu nome à rua  Notre Dame-des-Champs em que vive. 
Quando morreu, em 22 de maio de 2885, em Paris, Victor Hugo deixa escrito em seu testamento o pequeno texto com  as seguintes palavras:

                                          “Creio em Deus.
                                            Lego 1 milhão de francos aos pobres.
                                            Renuncio ao sufrágio de qualquer religião”.

“Desaparecia assim o grande escritor que conseguira emocionar multidões, graças a seu visionarismo poético e à compreensão dos dramas sociais de sua época. Mas a força de sua obra, o produto de um gênio inspirado, consciente de sua missão, o levaria (e o levará)  ser reconhecido como mestre de várias gerações” (1). 
                                          “O futuro tem muitos nomes:
                                           Para os fracos, o inatingível.
                                           Para os temerosos, o desconhecido.
                                           Para os valentes, oportunidade”.
                                                                          (Victor Hugo)
Diante de toda essa expressividade literária abordada, não é necessário o Facetas fazer a conclusão textual deste artigo. Cada leitor, fará a sua própria, oportunamente, como valentes que são.
Pesquisa e texto por Francisco Gomes
Fotos por Winnie Barros

Fontes
1. “Victor Hugo: um herói romântico”, por Álvaro Cardoso Gomes, rev. Visão, 22.05.1985, pp. 78/81.
2. 501 grandes escritores, RJ, Sextante, 2009, pp. 146/147
3. Nova Barsa, volume 7, SP/RJ, 1999 – pp. 481/482.