Na semana passada foram publicadas: a crônica de Drummond sobre Villa, a exposição do BB sobre “Floresta do Amazonas“, e a declaração de Lúcia Godoy sobre a obra de Heitor. Hoje, será a análise do professor Eurico Nogueira França sobre:  “Floresta do Amazonas“, as músicas do disco, a solista Maria Godoy, o regente Morelenbaum e, principalmente, Villa-Lobos. 
DO DISCO – “O testemunho sinfônico-vocal de Villa-Lobos é esta obra terminal, finalmente gravida na voz de Maria Lúcia Godoy, sua consagrada intérprete, sob a regência do maestro Henrique Morelenbaum. Esta obra, que tem inúmeras apresentações em todo o Brasil, reafirma a representatividade nacional do gênio de Villa-Lobos, cujo centenário de nascimento acaba de transcorrer  (1987).
Segundo esse musicólogo, a trajetória de Villa, foi algo impressionante. Compões Choros, Cirandas, Bachianas, etc. Na última década de sua vida, enfrentou ma série de problemas de saúde devido uma cirurgia que se submeteu em 1948. Mas, seguiu com a sua arte, ao lado da dedicada esposa Mindinha. Ao mesmo tempo que sua música era executada no exterior (Nova York, p.e.), pela a extraordinária solista Bidu Sayão, sua brasilidade crescia “ao se concentrar na imensidão amazônica (chegou a viver com os índios no Amazonas), refoge a qualquer sentido regional e simboliza na verdade o universo brasileiro, no sentido mais profundo e selvagem da magia das nossas florestas” (1).
DAS 11 CANÇÕES1. Em plena floresta – “linda melodia de cunho indígena e ritmo selvático, expressa pelo coro masculino, com palavras de aparência indígena. A seção central do trecho sugere a floresta, que o rio atravessa, povoada de pássaros”. 2. Excitação entre os índios – “trecho sinfônico curto, rico de dissonâncias”. 3. Dança da natureza – “Na parte central soa a orquestra na sua plenitude e então entra a voz do soprano em canto que se distingue pelo primitivismo dos acentos, sugerindo a profunda solidão, sobre o delicado “background” instrumental, que é ao mesmo tempo a solidão da floresta e da alma”. 4. Dança selvagem – vibrante melodia de inspiração folclórica e que traz à imaginação do ouvinte o primitivismo da coreografia indígena”. 5. Veleiros – “a primeira das 4 canções de amor da partitura, que (…) alcançam o maior sucesso pela doçura de que estão impregnadas”. 6. A caminho da caçada – “breve trecho sugestivo onde, novamente, ouve-se a voz do soprano sobre o fundo orquestral”. 7. Cair da tarde – “Canção de amor (melodia de profunda vibração lírica), cuja orquestração exprime a contemplação crepuscular da natureza, como o colorido tímbrico (assim mesmo) que traduz o entardecer”. 8. Caçadores de cabeças – “pelo coro masculino, nas profundidades da floresta, ouve-se o tema inicial da partitura, de tão curiosa rítmica”. 9Canção de amor – “profundamente expressiva, que exprime o amor ausente e nos transmite a melancólica ideia da solidão”. 10. Melodia sentimental – “das mais criativas das canções da série, tem os moldes da seresta brasileira, com a sedução própria das nossas melodias nativas”. 11. Fogo na floresta – “por sua orquestração  magistral, Villa-Lobos sugere, sem procurar descrevê-lo o incêndio na mata virgem. O soprano, entretanto, domina esse quadro terrível com o seu canto em vocalises (assim mesmo), que segue a linha melódica de Melodia Sentimental, num exemplo de uma orquestração extremamente densa, que exprime musicalmente o fragor da queimada”.

DO BIOGRAFADO – O maestro surpreende o leitor (ou ouvinte dos clássicos), sempre: economiza palavras valorizando seus significados.. “Heitor Villa-Lobos nasceu no Rio de Janeiro em 5 de março de 1887. O pai do músico chamava-se Raul Villa-Lobos, foi ele quem introduziu o HÍFEN no patrimônio familiar, que originalmente escrevia com uma só palavra. Funcionário da Biblioteca Nacional e excelente músico, foi responsável pela inscrição de Tuhu – apelido familiar de Heitor -, adaptando para o filho uma viola que ele usava como violoncelo.
Aos 10 anos, Tuhu perderia o pai. A mãe, Noêmia, excelente pianista, queria que o filho fosse médico. O apoio decisivo de uma tia, também exímia pianista, ajudo na formação do futuro compositor, no qual cedo se notou franca predileção por dois tipos de musica aparentemente contraditórios: a de Bach e a caipira, de genuína origem folclórica. 
Em 1905, decidiu percorrer o Brasil percebendo a riqueza da música folclórica em todo o seu esplendor, recolhendo experiências memoráveis. Em 1907, escreveu aquela que pode ser considerada sua primeira composição musical séria: Os cânticos sertanejos, para pequena orquestra.
Em 30 de junho de 1923, com o apoio decisivo de dois grandes financistas brasileiros – Carlos e Arnaldo Guinle – Villa-Lobos embarcou rumo a Paris, com o intuito de mostrar à Europa aquilo que realizava. Lá apresentou as primeiras audições dos Choros nºs 3, 4, 8 e 10, além de outras peças ainda inéditas, e o admirável Noneto.
Nos Estados Unidos, onde costumava passar longas temporadas, sua obra já era conhecida desde 1944. Em 1957, ao completar 70 anos, foi homenageado pela cidade NY. No campo pedagógico foi um inovador, criando o ensino de canto nas escolas do país e regendo corais orfeônicos de até 40 mil vozes. A pedido do Vaticano, compôs, em 1958, a obra Magnificat Halleluia. Agraciado com o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Nova York por ser um eminente compositor. Foi alvo, no Brasil, de diversas honrarias por onde passava.
Em 16 de julho de 1959, quando das solenidades das BODAS de OURO do Teatro Municipal do Rio, recebeu Medalha Comemorativa, falecendo meses depois, em 17 de novembro  do mesmo ano, na cidade do Rio de Janeiro. A extraordinária fecundidade criadora de Villa-Lobos foi responsável por mais de MIL obras catalogadas e talvez mais de UMA centena de páginas extraviadas, fecundidade que o levou, por vezes, a utilizar o pseudônimo de Vilalba Filho” (1)
DA SOLISTA GODOY – “Cantora igualmente dotada para a cena lírica e o palco de concerto, tem Maria Lúcia Godoy na voz privilegiada o timbre aveludado de cunho brasileiro, a rara extensão natural e a expressividade penetrante. Resultam esses dons no ecletismo  das suas interpretações, que abrangem vários gêneros, desde a música popular que lhe empresta saborosa autenticidade nacional. Mas a mesma genuinidade a distingue quando encarna, por exemplo, no alto pleno clássico, a Eurídice de Orfeu de Gluck ou uma das heroínas de Puccini. 
Cultora também da poesia, autora de significativos poemas recentemente publicados (década de 80) na imprensa de Minas, livros infantis de temas ecológicos, adotados nas escolas. Maria Lúcia Godoy, demonstra assim, sensibilidade ainda mais pronta para recriar a música vocal brasileira, não só a de Villa-Lobos como de outros compositores nossos. Assim como criou amplo renome internacional, sendo solista de grandes nomes da música clássica mundial. 
Nascida em Mesquita (MG), em 02.09.1929 (com 90 anos), de família das mais prolíficas, possui Lúcia numerosas condecorações, entre as quais a Grande Cruz da Inconfidência, conferida pelo Governo de Minas. Juscelino Kubitschek, Tancredo Neves, Francelino Pereira e José Aparecido se irmanaram em homenagem à personalidade da cantora, musa da mais alta intelectualidade de Minas”.
DO REGENTE MORELENBAUM – Atualmente com 88 anos, maestro Henrique Morelenbaum, é dono de uma rica história adquirida com a música. Sobre ele o musicólogo Eurico Nogueira diz: “Considerado um dos regentes mais completos da atualidade (já era assim na década de 80). É graduado em violino, viola, composição e regência, com distinção e medalha de ouro, pela Escola de Música da Universidade do Rio de Janeiro, onde atualmente é professor titular de graduação e pós-graduação, lecionando contraponto, fuga (assim mesmo) e composição.
Ele iniciou sua carreira no Teatro Municipal, através de concurso, em 1951, como 1º violino da orquestra. A partir daí galgou por mérito as sucessivas posições de Maestro Adjunto, Maestro de Coro e por duas vezes Diretor, foi responsável por intenso trabalho na direção de óperas, “ballets” e concertos sinfônicos. 
Atuando também no exterior, Morelenbaum dirigiu a “Gala Performance” do Ballet do Rio de Janeiro em Londres, na presença da Família Real. Em continuação desta mesma “turnê”, dirigiu em Newcastle, Glasgow, Liverpool, Roma e Florença. Em Nápoles, no Teatro San Carlo, dirigiu com grande sucesso a ópera “II Guarany”.
Em 1974, a convite do “Institute of International Education”, percorreu os Estados Unidos de costa a costa. Em seguida, foi à Europa como regente convidado dirigindo a OSB na Áustria e na Espanha. Em 1975 dirigiu os quatros espetáculos de reabertura do Teatro Amazonas. Em 1975/76 dirigiu na República Dominicana e em Monte Carlo. Em 1977, além de sua atividade nas principais cidades brasileiras, dirigiu na Venezuela, no Paraguai e no Equador, sempre com grande êxito. Em todos os anos Morelenbaum apresentou nos palcos do Brasil e do mundo regências que marcaram época.
Detentor de vários prêmios a nível nacional e internacional, o maestro é membro do Conselho Interamericano de Música da OEA, e dirige atualmente a Sala Cecília Meireles, conhecida sala de concertos do Rio de Janeiro” (1). 
DOS LEITORES – Nós, do Facetas temos o dever (e a alegria) em compartilhar a história desse legado deixado por Villa-Lobos, e cuidadosamente mantido (e divulgado) pelo Banco do Brasil, Godoy, Morelenbaum e Eurico, até chegar aos nossos dias. Se você tem esse disco (vinil, LP), ouça-no, e verá o quanto seu conteúdo é clássico, valioso, inigualável. 
DA NOTINHA URGENTE – Independe de credo, de classe social, de política, de ciência, etc, conclamamos a todos os nossos seguidores, que façam uma reflexão sobre as palavras a seguir, pregadas há mais de 350 anos, para que a humanidade possa se unir, em pleno século 21, e vencer as adversidades: “Toda a vida – ainda das coisas que não tenham vida – não é mais que uma união. Uma união de pedras é edifício, uma união de tábuas é navio, uma união de homens é exército. E sem esta união tudo perde o nome, e mais o ser. O edifício ser união é ruína, o navio sem união é naufrágio, o exército sem união é despojo. Até o homem – cuja vida consiste na união de alma e corpo – com união é homem, sem união é cadáver”.
     Fragmento do “Sermão do Santíssimo Sacramento“, do padre luso-brasileiro Antônio Vieira (1608-1697), editado no http://www.facetasculturais.com.br, de 21.03.2020.
Pesquisa e texto por Francisco Gomes
Arte por Angeline Gomes
Fonte
1. LP “Floresta do Amazonas” – Villa-Lobos, por Maria Lúcia Godoy, edição BB, Karmim Promoções, Rio de Janeiro, 1988.