Em 1984 fui convidado a participar de uma palestra cujo tema era: “O ESTADO LAICO”. Nesse época o Brasil vivia uma grande “confusão política” (como sempre vive): sindicalistas em cada esquina, partidos de esquerda querendo o poder a qualquer preço, Diretas-já!, governo militar agonizando, etc. Desconfiado por achar que o auditório  do  Campus Universitário iria se transformar em debates de réplicas e tréplicas, relutei em confirmar presença ao evento. 
Fui. O palestrante, um daqueles famosos professores do Centro-Sul do país, ao se apresentar foi direto ao que veio: “Sou sociólogo. Sou filósofo. Sou teólogo. Sou cristão”. E para melhor interagir com o público, composto por professores universitários e acadêmicos de diferentes departamentos e cursos, questionou: “Qual é a diferença entre os verbos nascer, viver e morrer, se no mínimo, são da mesma conjugação? Ou melhor, no velho latim, quer dizer: nascere, vivere e morrere”.

Logo pensei: ‘Se cada uma desses 80 pessoas, formular duas respostas, o dia será curto para tanto debate’. Mas, sem perder o foco, o próprio mestre respondeu: “O nascer humano ocorre pela expectativa, o viver pelo descuido do ser e o morrer pela temeridade“. A partir daí, foram duas horas de muitos ensinamentos, prevalecendo sempre, por parte dele,  a palavra “reflexão”. No final, perguntei a um colega que cursava História:
– E “o Estado Laico?”
– Ah, fica para o próximo palestrante.
Os anos se foram e eu sempre lembrava daquela pergunta/resposta. Até que resolvi estudá-las no contexto da literatura e da música, haja vista que muitos poetas, romancistas, cantores, que viveram realmente a vida, que temiam a morte ou ainda, que aceitavam a morte com “naturalidade perfeita”.
Segundo Edward Wadie Said (1935-2003), importante intelectual palestino, crítico literário, defensor da causa árabe, o tema morte, geralmente provoca duas reações nos escritores. “Alguns assumem a imagem popular do velho sábio, cujo trabalho reflete uma nova serenidade e reconciliação com o mundo. Para outros, o comprometimento da saúde se manifesta como contradição e discórdia insolúveis, levando-os a reabrir questões incômodas e complexas de significado e identidade” (1), sobre esse acontecimento.
O escritor português José Saramago (1922-2010), que ganhou notoriedade mundial com alguns do seus livros, abordou esse tima citado por Said. Porém, antes vamos às suas origens familiares e seu ingresso no mundo da literatura. “Éramos uma família pobre (de camponeses), sem formação, com horizontes limitados, em uma linhagem contínua de analfabetos, geração pós geração. Eu lia tudo o que estivesse ao meu alcance – até mesmo jornais que pegava no chão. De leitor a escritor foi um passo lógico”, declarou ele, certa vez.
Biografia de José Saramago
Aos 25 anos, publicou seu primeiro romance. Mas logo parou a atividade literária. “Eu não acreditava que tivesse algo interessante a dizer”, completa. Só retornou à ficção nos anos 50, e não parou mais até o fim da vida. Em 1982, conquistou a atenção mundial com o romance de amor, Memorial do convento, com o qual, foi aclamado em 1998, com o Prêmio Nobel de Literatura – o primeiro lusitano laureado com essa honraria. Além de outros prêmios, é claro.
Portanto, em 1992, teve uma de suas publicações proibida para a indicação de um prêmio europeu pelo próprio governo do seu país, por considerá-lo um escritor herético. Saramago “ficou indignado” pelo banimento do seu livro que “se mudou para a ilha vulcânica espanhola de Lanzarote”, onde passou a habitar com uma comunidade de pessoas simples e com as quais se familiarizou harmonicamente.
Já era um escritor tarimbado quando publicou o seu 16º trabalho, As intermitências da morte. Logo, de início, o autor diz que a morte “não é apenas o tema central, mas também a principal personagem“. A essa altura – em 2008 -, o romancista já era um senhor de 86 anos e “parece quase parodiar a obsessão  pela morte de um escritor cujos olhos estão voltados para a ampulheta. No entanto, ao personificar comicamente a Grande Foice como uma mulher, estará Saramago adentrando suavemente a morte ou tramando uma rebelião inútil contra a injustiça da mortalidade?” (1).
A obra em questão situa-se entre as duas categorias de Said de “estilo final” – “não traz nem uma (assim mesmo) indignidade desenfreada nem a segurança de um fecho final. Aparentemente, trata-se de uma fábula sobre a importância da morte para a civilização. Se repentinamente, a população de um país não definido parar de morrer – Saramago concede à humanidade seu antigo desejo por uma vida eterna, a fim de imaginar suas terríveis consequências” (1).
“A primeira parte de As intermitências da morte tem pouca trama, tecendo considerações sobre as consequências políticas e sociais da partida da morte. O Estado pondera como as futuras gerações suportariam uma população crescente vivendo de pensões por velhice e invalidez. As companhias de seguro procuram saídas para pagamentos devidos aos permanentemente vivos. (…). As pessoas fazem eutanásia em seus familiares mortos-vivos, transportando-os através da fronteira, onde a morte permanece ativa. As empresas de serviços funerários ficam reduzidas ao preparo de funerais para animais” (1).
A abordagem acima, trata-se de uma sátira à vaidade humana, com seu anseio pela imortalidade. Porém, o escritor admite não dispor de explicações satisfatórias para responder tal questão: “por que as pessoas continuam a morrer fora dos limites do país, e a morte ainda acontece para os animais e as plantas?” Isso quer dizer que o “autor nunca esteve atrás de consolo de uma pós-vida”. Não, não é esse o contexto.
Na segunda metade do livro, “a morte retorna às suas operações (…) para comunicar suas vítimas seu fim iminente”. Continua tratando-se de uma sátira, mas que desaparece “com a entrada da personificação da morte (escrita com o “m” em minúsculo)”. Essa é a trama, “quando um dos avisos letais da morte é inexplicavelmente devolvido à sua toca subterrânea. Desconcertada com o fato de alguém ter escapado à sua convocação, a morte assume forma humana como uma linda mulher para ir atrás do seu alvo – um solitário violoncelista de meia-idade, o protótipo do homem comum de Saramago” (1). É ficção? Sim.
Em 1995, lança Ensaio sobre a cegueira, seu enredo é absurdo: “A população de uma cidade é atingida por uma epidemia de cegueira, mas o que substitui a visão é uma brancura e não a escuridão: e se fôssemos todos cegos? (…). As intermitências da morte apresenta um desenvolvimento semelhante: ‘E se a morte deixasse de nos matar'”. (1).
A epígrafe da obra ora em análise cita a hipótese de Wittgesstein de que o pensamento da morte requer “novos âmbitos de linguagem”. Existe a suspeita de que Saramago tenha escolhido essas palavras por ironia, para nos fazer crer que a morte será invocada indiretamente através de uma linguagem figurativa, em vez da morte absolutamente literal, com seus significantes ataques de irritação, que acabamos conhecendo. A persona feminina da morte não pareceria estranha paras os portugueses – nas linguagens do romance de amor, “morte” é uma palavra feminina. “Até onde sabemos, a morte não é um gênero”, garante o autor. 
Em As intermitências da morte, seu criador subverte a alegoria medieval da dança da morte, ou seja, a popular figura de discurso, que atrai qualquer um para si, independentemente de posição social. “No romance, em vez de a morte ser o músico (o elemento) que conduz as pessoas a seu fim, é o violoncelista humano que seduz a morte”(1). Que maravilha! O desfecho, dessa obra, “é o de um possível retorno ao seu início, criando uma estrutura  circular que ecoa o ciclo da vida. Ele conclui que, mesmo que a morte continue a reinar e a existência humana permaneça finita, o impulso de contar história não tem fim” (1). É isso mesmo.
Sabe-se que a História da humanidade está repleta de exemplos de notáveis que temiam e/ou desafiavam a Dona da Grande Foice. O pensador italiano Umberto Eco, chegou a sugerir “que a melhor maneira de um escritor idoso enfrentar a mortalidade é reconhecer a estupidez do mundo que será deixado para trás”. Outro italiano, Dante Alighieri em seu  dolce stil nuovo – novo estilo poético -, ou seja, no seu imortal canto épico amenizou a passagem humana pela face da terra, recomendando a todos o paraíso, o inferno ou o purgatório. O poeta e romancista francês Victor Hugo, aos 50 anos – viveu até 83 -, passou a “ser atormentado pela ideia da morte, nascendo daí uma poesia alucinada, que trata do eterno conflito entre o bem e o mal, em O fim de satã“.
É possível que o impulso satírico de José Saramago em As intermitências da morte esteja desenfreado, quando se constata esse comentário do narrador do livro em análise: “Nós, seres humanos, não podemos fazer muito mais do que mostrar a língua para o carrasco que está prestes a nos cortar a cabeça.”. Aí entra Naparstek: “O idoso escritor português mostra atrevidamente a língua à morte – mas o mesmo também se conforma com a inevitabilidade dela”, isto é, “a única certeza absoluta que temos em relação  esse assunto, é de que não podemos impedir a morte. Ao aceitar isso,  acho que mostramos nossa sabedoria”, certifica-se o genial lusitano.
No Brasil, os questionamentos sobre o tema suscitado, são os mesmos universais. Por exemplo, o poeta Álvares de Azevedo (1831-1852), que buscou no “mal do século” a solução para a sua morte, registrou estes versos: “Minha mãe de saudades morreria/ Se eu morresse amanhã“. O cantor e compositor Raul Seixas (1945-1989), em pelo menos duas canções de sua produção artística, faz notada alusão ao tema morte: “Quem vai chorar, quem vai sorrir?/Quem vai ficar, que vai partir? (Trem das sete), ou ainda: “A morte, surda, caminha ao meu lado/Em que esquina ela vai me beijar (Cato para minha morte).
Outro exemplo clássico da nossa literatura vem do poeta Manuel Bandeira (1886-1968), o qual sempre teve sérios problemas  de saúde. “Na verdade, a morte o vinha rondado há muitos e muitos anos, desde a sua adolescência, sempre à espreita. E certamente por senti-la sempre ao seu lado durante toda a vida é que o poeta já não dava à “indesejada” a menor atenção e dela não tinha medo – o poeta encarou a morte com bom humor -. (“Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.”) (2), ou como antes já havia cantado:

                                                         Bem  que, filho  do norte
                                                         Não sou bravo nem forte
                                                         Mas, como  a  vida  amei
                                                         Quero  te  amar,  ó morte
                                                                       (2)
Manuel Bandeira: 10 poemas memoráveis - Cultura Genial
O sacerdote anglicano Henry Scott Holland (1847-1918), foi professor Regius de Divindade na Universidade de Oxford, Inglaterra, in A morte não é nada, escreveu: “A morte não é nada/Apenas passei ao outro lado do mundo./Eu sou eu. Você é você./O que fomos um para o outro, ainda o somos./Dá-me  o nome que sempre me deste./Fala-me como sempre me falaste./Não mudes o tom a um triste e solene./Continua rindo com aquilo que nos fazia rir juntos./Reza, sorri, pensa em mim, reza comigo./Que o meu nome se pronuncie em casa como sempre se pronunciou, sem nenhuma ênfase, sem rosto de sombra. /A vida continua significando o que significou: continua sendo o que era./ O cordão de união não se quebrou./ Por que eu estaria fora dos teus pensamentos, apenas por que  estou fora da tua vista?/Não estou longe, somente estou do outro lado do caminho” (3).
“Mesmo que toda obra artística seja um grande fingimento e o poeta é um grande fingidor, nesse fingir sempre há um QUE de autobiográfico, pois o Ser Humano, mesmo que travestido de Deus, criando universos artísticos, tem suas limitações e essa limitação é dada por vivências e experiências, as quais sempre se revelam de  alguma forma eu suas obras” (4). Isso completa, muito bem, a ficção literária (e poética) de Saramago, aqui analisada. 
Assim sendo, e se algo mais não vai ser dito, vamos ao latim vulgar (popular): nascere, vivere e morrere, ou melhor, expectativa, descuido do ser e temeridade, respectivamente, como afirmara aquele palestrante em 1984. Elisa, finaliza os estudos de Ben Naparstek sobre o mestre português, dizendo o seguinte: “O verdadeiro prazer em ler Saramago não está na sua trama, mas na sua voz – com alternâncias generosas e agressivas, terrenas e urbanas , filosóficas e pedantes. Seus personagens, frequentemente sem nome, são quase sempre tímidos e apagados – revisores, balconistas, figurantes” (1). 
Notinha útil – Nossos leitores já conhecem bem a idoneidade do nosso trabalho. Mesmo assim cabe aos mesmos um esclarecimento: o tema acima abordado não tem qualquer correlação com essa temeridade da morte pela qual o mundo está passando. Este conteúdo estava pronto para ser publicado desde do final de dezembro de 2019. Nós, do Facetas, também estamos seguindo à risca as recomendações médicas, assim como os nossos familiares e demais parentes. Enquanto antas debelarmos essa pandemia, melhor será para toda a humanidade.
Pesquisa e texto por Francisco Gomes
Formatação fotográfica por Winnie Barros
Fontes
1. Naparstek, Ben. Encontro com 40 grandes autores/trad. Elisa Nazarian. – SP: LEYA, 2010
2. Silveira, Joel. Manuel Bandeira de pijama. Gazeta Mercantil, Perfil, 29 e 30 de outubro de 2000
3. “A morte não é nada“, texto nos enviado pelo incansável leitor, senhor José Joaquim Freire.
4. http://www.recantodasletras.com.br (por Paulo Luna, 23.02.2008, cód. do texto: T872586).
4. Imagem de José Saramago disponível no site José Saramago
5. Imagem de Manuel Bandeira disponível no site Cultura Genial