Há alguns meses vi, en passant, um crítico de música fazendo interessante análise sobre o Samba e o Fado. O Samba, segundo ele, chegou ao Brasil, com o escravo africano. Hoje é considerado um autêntico gênero musical brasileiro; o Fado tem origem do lundu do Brasil-Colônia, trazido por escravos angolanos, e levado para Lisboa nas primeiras décadas do século XIX pela Família Real Portuguesa.

Realmente, estudos confirmam a versão acima. O Fado tornou-se conhecido em Portugal, a partir de 1821, quando do retorno de D. João VI àquele País. Entrando em desuso por aqui, ou seja, deixando de ser tradição musical. O Fado é “canção popular característica da cultura portuguesa, quase sempre composta sobre temas melancólicos e sombrios”, na definição do filólogo Evanildo Bechara.

É canção tipicamente urbana, geralmente cantada nas ruas e bares de Lisboa. Em Coimbra, por exemplo, é muito prestigiada nos meios estudantis. “É acompanhada ao violão e eventualmente dançada. A temática da dor e do destino, recorrente na poesia portuguesa, aparece, no Fado tradicional, mas também há Fados alegres e satíricos, e outros sobre temas variados, como política e religião” (1).

O Fado batido, “como dança de umbigadas”, parecido ao lundu, surgiu no início do século XIX e era muito popular no Rio de Janeiro e na Bahia. Quase uma década depois, 1830, “já existiam em Lisboa inúmeras casas de Fado (…). Por volta de 1840, o canto ganhou especial importância, o que parece haver coincidido com a substituição da viola pelo violão” (1).

No final do século XIX, “o Fado se enriqueceu musicalmente”, a partir do momento que era apresentado em espetáculos. Assim, foi “atenuada a morbidez dos temas poéticos”. Depois “de 1830, com intérpretes como Amália Rodrigues, cujos ornamentos melódicos trazem à lembrança o canto cigano e mourisco, e Hermínia Silva. O violão ganha destaque e passou a responder ao cantor. Em meados do século XX, o Fado tornou-se conhecido fora de Portugal” (1). Desde 2011, portanto, que o Fado é considerado pela Unesco, Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.

Em 1994, ano em que Lisboa foi considerada a Capital Europeia da Cultura, foi lançado “Biografia do Fado”, isto é, um box com 2 CDs nos quais estão “reunidos alguns dos nomes mais famosos e carismáticos do Fado e que durante os últimos 70 anos deram voz à canção de Lisboa” (2).

São 44 músicas de quase 40 (alguns cantam mais de uma) notáveis intérpretes lusitanos. como: Carlos Ramos, Alfredo Marceneiro, Vicente da Câmara, Fernando Farinha, Antônio Mello Corrêa, João Ferreira Rosa, entre outros; Berta Cardoso, Maria Albertina, Amália Rodrigues, Teresa Silva Carvalho, Maria da Fé, Fernanda Maria, entre outras. Com canções: Disco 1 Fado de Lisboa, Amizades, Lenda das Almas, Foi Deus, Antigamente, Lisboa à Noite; disco 2Belos Tempos, Fadista Louro, Saudade Vai-te Embora, Quantas e Boas, Lenda das Rosas, Prece.

Parte desse grandioso trabalho deve-se ao produtor Valentim de Carvalho, “o mais persistente dos editores portugueses e desde sempre se dedicou a gravar fadistas” (3), o qual já produziu os mais belos álbuns que o cancioneiro lusíada possui, como “Com que Voz”, de Amália ou “Guitarra Portuguesa”, de Carlos Paredes. Não há outro trabalho igual a esse, desse gênero. É simplesmente imperdível por parte dos amantes e admiradores do Fado. Começa assim, com esse verso de David Ferreira, na Voz de Carlos Ramos: “Perguntaram-me pelo Fado: eu conheci-o…”

Mas, foi o compositor Aníbal Nazaré que deu a definição poética ao gênero, na voz de Amália quando ela cantou: “Almas vencidas,/noites perdidas/sombras bizarras/(..,) amor, ciúmes,/cinzas e lume/dor e pecado/(…) tudo isto é Fado…” Por sua vez, Frederico de Brito, o Britinho, com intuição certeira, compôs: “Pois eu/ (…); sei que o Fado é um dos tais,/que não conheceu os pais/nem tem certidão de idade”.

E, ao finalizar seu “histórico”, David Ferreira, diz: “Os Fados que aqui ouvimos (…), contam a história simples de amores e tragédias domésticas, numa altura em que o Fado e o Rádio ocupavam nos tempos livres das classes médias o papel que hoje vemos protagonizado pelas novelas de Televisão” (3).

Atualmente, a representante é Maria do Carmo de Carvalho Rebelo de Andrade (35 anos), cantora e compositora, conhecida por Carminho. “A grande voz do Fado e uma das artistas portuguesas com maior projeção internacional (…). Filha da conceituada fadista Teresa Siqueira, estreou-se a cantar em público aos 12 anos (…), mas nunca pensou que pudesse ser a sua profissão” (4). Em 2009, lançou “Fado”, seu primeiro disco, tornando-se um dos mais aclamados discos do ano e da década. Nos anos seguintes vieram outros trabalhos bem aceitos pelos ouvintes e pela crítica. A qualidade do seu trabalho é irrepreensível.

No final de 2014, edita o CD “Canto”, quando a sua relação com o Brasil ganha raízes ainda mais profundas. Nesse trabalho está incluída a inédita O Sol, Eu e Tu, de Caetano Veloso e e seu filho Tom. Faz dueto com Marisa Monte em Chuva no Mar, além de outras participações especiais de outros músicos, entre eles Naná Vasconcelos. “Canto” tem 14 músicas e é excelente.

No Brasil, no âmbito nacional, cito aqui três Fados inesquecíveis: 1. Fado Tropical, de Chico Buarque e Ruy Guerra, de 1973, onde estão versos assim: “Oh, musa do meu fado/Oh, minha mãe gentil/Te deixo consternado/No primeiro abril/Mas não sê tão ingrata/Não esquece quem te amou/E em tua densa mata/Se perdeu e se encontrou/Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal/Ainda vai tornar-se um imenso Portugal“; 2. Navegante, de Sérgio Souto e Jota Maranhão, “é um Fado perfeitamente construído”, afirma João Máximo, de 1980, onde estão versos: “Descobrir teus desejos/Navegar em teus ais”. Diga-se de passagem: Navegante, na voz do cantor Jessé, é algo emocionante; 3. No LP “Meu Fado”, de Fafá de Belém, de 1992. Pense num disco fascinante! Em Fado das Queixas estão estes versos, de Frederico de Brito e Carlos Rocha: Como as marés?/Tu já sabias/Que eu tinha o queixume/Do mesmo embalei…/ Tu já sabias/Que amava deveras;/Também quem tu eras/Confesso, Não sei!”

Aqui em Manaus (AM), cuja região foi fortemente colonizada pelos portugueses, ainda estão presentes hábitos e costumes por eles deixados como na culinária, na música, na vestimenta, etc. Cito um exemplo real desse herança lusitana: chegou ao conhecimento do Facetas, por meio do Biólogo Marcelo Freitas, ardoroso estudioso de música e defensor da cultura regional, que a senhora Joyce Maria de Alencar Araripe Bastos Caminha é uma grande cantora de Fado, ainda não profissionalmente.

Em entrevista com ela, a sua grandeza artística ficou comprovada e a mesma aceitou colaborar com o nosso blogger. Joyce Maria (59 anos) é manauara; servidora pública federal aposentada e formada em Direito. Seu interesse pela música vem da infância, da juventude. Apesar de não ter formação musical, tem um dom aguçado por essa arte. Bela voz, carismática, espontânea, criativa, versátil. “A música já vem pronta. Muitas vezes em sonho, outras enquanto dirijo, cozinho, converso…”, garante.

A artista Joyce Maria (Fonte: Acervo pessoal da artista cedida para o Facetas Culturais)

A sua família sempre esteve envolvida com a música. Fosse em reuniões, aniversários ou outras comemorações, apesar de caráter amador. Seu pai, Wagner Bastos (88 anos), é dono de uma voz limpa, firme, potente, impecável. Sua irmã, Waldisa Bastos (já falecida), quando jovem fazia parte do Coral do Teatro Amazonas. Sua tia, também Waldisa, além de compositora, tinha uma voz invejável. São exemplos da herança musical herdada por Joyce.

Seu despertar pelo Fado, principalmente, foi desencadeado por influência de sua tia, a qual tinha “um sotaque irrepreensível de fadista, e como se fadista fosse, profissionalmente falando. Joyce conta que quando esteve em Portugal há quase dois anos, não conseguiu afastar esse gênero da sua vida. A “simpatia pelo Fado foi tamanha”, que, de volta ao Brasil, ou melhor, a Manaus, compôs Se Voltares um Dia e Meu Lindo Portugal. São duas composições de versos apaixonantes. E quando as letras ganham os arranjos do talentoso maestro Ivan Rodrigues, o resultado é a elevação da emoção do ouvinte à flor da pele.

Ai, no meu coração reside Uma saudade tão triste De quando te vi partir. (…) Um dia te dei, querida A lua, as estrelas Minha vida E te pedi pra deixar.

Acima, duas belas estrofes, das oito que completam Se Voltares Um Dia. Sem exagero: não deixam nada a desejar, se comparadas aos mais importantes versos criados por notáveis compositores genuinamente portugueses.

Além de compor e cantar divinamente bem, sem parceiros (por enquanto), mas conta com os arranjos do maestro Ivan, a artista uma tem particularidade e muita sensibilidade poética: grava a sua própria voz em todas as composições, sem instrumento algum, é claro. “A melodia surge como por mágica, muitas vezes em sonho e somente depois coloco a letra”. Mas, às vezes, surgem juntas, como “algo muito especial”. Uma “força estranha”, ou melhor, divina, que vem “da fronte do artista”, como constatou Caetano Veloso, há algumas décadas.

Joyce em seu estúdio (Fonte: Acervo pessoal da artista cedida para o Facetas Culturais)

Questionada se pretende se profissionalizar e gravar seu CD, a princípio, ou mesmo ter as letras gravadas por outros cantores, sejam veteranos ou novatos, garantiu que sim. Sem dúvida. Pois tem material suficiente “para que as pessoas conheçam mais a minha veia de compositora”, tanto no Brasil, como principalmente em Portugal.

Joyce Maria domina bem outros estilos musicais: “Meu leque de composições é muito diversificado, não tenho um estilo somente, passeando pelo Pop, MPB, Toadas do Boi-Bumbá, Sertanejo Romântico, Fado e por aí vai”. Isso demonstra a sua versatilidade musical. Apenas dois exemplos: 1. Há no YouTube um clipe da Som Star Produtora, gravado em São Paulo, no qual ela canta Carimbumbá, uma fusão do Carimbó do Pará com o Boi-Bumbá do Amazonas. É um espetáculo à parte. Coisa de profissional. 2. Apesar de autêntica admiradora do Festival de Parintins, ainda não se fez presente às festividades naquela Ilha, mas acompanha de perto a manifestação cultural que lá existe. Neste período em que o mundo vive assolado por essa doença, ela compôs ( e canta) Pandemia, retratando como estar a nossa Parintins, em todos os aspectos. São da compositora estes versos abaixo: “A cidade está triste com as perdas humanas, lógico, mas também pela desolação que houve com a consequência de não ter havido ainda o festival”. “Silêncio/Ensurdecedor/Pandemia chegou/A floresta fechou. E o povo/Que tanto lutou/Enlutado ficou/Recolhido, chorou. (…). Vem meu povo, chama/ O mundo e o Brasil de norte a sul/Chama pra brincar em Parintins/De vermelho e azul”.

Música Carimbumbá

Apesar de ainda não ter se apresentado oficialmente como cantora – somente entre amigos e familiares -, já é conhecida no meio artístico. Em 1999, de sua autoria, Boi-Bumbá, A Nona Maravilha do Mundo, foi escolhida pelo Hans Donner, da Rede Globo, como vinheta protagonizada pela GLOBELEZA Valéria Valenssa, do Festival de Parintins daquele ano, muito divulgada na imprensa nacional, local e em vários outros países.

Valéria Valenssa, Joyce e Hans Donner (Fonte: Acervo pessoal da artista cedida para o Facetas Culturais)
Hans Donner, Joyce e Valéria Valenssa (Fonte: Acervo pessoal da artista cedida para o Facetas Culturais)
Notícia sobre a vinheta de Parintins (1999) composta por Joyce (Fonte: Acervo pessoal da artista cedida para o Facetas Culturais)

A nossa fadista, ou melhor, nossa grande cantora e compositora, nasceu no dia 22 de novembro, exatamente no “dia da Música e do Músico e também, no dia de Santa Cecília, padroeira de ambos”. Nós, do Facetas, e assim, esperamos dos nossos leitores, estamos na torcida para que esse nome seja oficialmente lançado nos meios artísticos com sucesso merecido, dignificante.

Finalizamos portanto, com chave de ouro, apresentando estes versos da primeira e da última estrofes de Meu Lindo Portugal:

Acolheu-me Portugal Terra amada, tão gentil Pátria mãe tão adorada Pelo meu país, Brasil

Aos pés de Nossa Senhora Em oração peço contrito Que Ela cuide desta terra Oh, meu Portugal bendito.

Notinha útil – Nossos agradecimentos ao biólogo Marcelo Freitas Ferreira da Silva, que fez chegar ao nosso conhecimento, a talentosa Joyce Maria, uma artista nata, isto é, pronta para seguir a sua carreira artística. Logo agora, na semana em que o Facetas completa CINCO anos de sucesso absoluto.

Pesquisa e texto por Francisco Gomes Fotos e vídeo por Winnie Barros

Fontes 1. Macropédia, Nova Barsa, volume 6, SP, 1999, p.182. 2. https//www.finac.pt. 3. CDs e encarte de “Biografia do Fado”, EMI/Made in France, 1994. 4 http://www.carminhomusic.com. 5. CD “Calabar”, Col. Chico Buarque, SP: Abril, 2010. 6. LP “Sérgio Souto”, SP, 1980. 7. LP “Meu Fado”, de Fafá de Belém, Portugal, 1992. 8. Facetas entrevista Joyce Maria, na primeira quinzena de julho/2020.