Ha duas semanas, eu li os seis primeiros capítulos do livro “O Filho de Mil Homens”, do escritor português Hugo Valter Mãe. Caros leitores do Facetas, ainda estou impactada com tamanha sensibilidade na escrita, mas com uma profundidade emocional que é difícil de escrever em palavras.

O filho de mil homens | Amazon.com.br

Não pretendo fazer uma resenha dos capítulos da obra, mas escrever sobre a biografia do autor. Eu sempre fico curiosa com a vida dos autores das obras que eu leio. Penso que a história de vida dos mesmos sem expressam em suas obras.

Valter Hugo Mãe - Entrevista Valter Hugo Mãe: "Tudo é máscara, e ...
Imagem disponível no site Fronteiras do Pensamento

Valter Hugo Mãe é o nome artístico do escritor Valter Hugo Lemos. Ele nasceu em 25 de setembro de 1971, na cidade Angolana Henrique de Carvalho (hoje conhecida como Saurimo). Aos 3 anos mudou-se para Lisboa, Portugal, mas cresceu na cidade de Paços de Ferreira. Na infancia foi incentivado por Nany (o autor não diz quem é, mas acredito que seja a sua professora do primário) a ler poesia, e desde então começou o seu amor pelas palavras.

Valter estudou Direito, mas seu coração estava nas artes. Na entrevista concedida ao site El País (1), mediado pela jornalista Joana Oliveira, o autor confessa o motivo de ter abandonado a Advocacia:

Os motivos porque estudei Direito são os mesmos porque escrevo livros. Eu queria muito salvar o mundo ou pelo menos salvar-me a mim. Cresci achando que eu era uma porcaria imprestável, que morreria absolutamente abandonado, sozinho, brevemente, e, durante muito tempo, achei que morreria aos 18 anos e que nunca teria autoridade para coisa nenhuma e nem seria proprietário de mais do que dois cadernos velhos. Quando a vida foi me dando oportunidades, mais do que ter a sensação de que eu estava conquistando, tinha a sensação de que estava resistindo, que estava, sobretudo, sobrevivendo. Eu fui estudar porque não podia desperdiçar essa oportunidade. Escolhi Direito porque pensei que talvez aprendesse a utilizar um instrumento que permitisse que outras pessoas não se sentissem tão periféricas quanto eu me sentia. Mas a formalidade do Direito era completamente aversa à minha emotividade. Eu chorava nos tribunais, nos julgamentos, nas audiências, comovia-me com os clientes e não conseguia cobrar um tostão de ninguém, era falido total. Então percebi que precisava trabalhar de outra forma e,  bem no fim do curso, publiquei meu primeiro livro de poemas e pensei que talvez os livros pudessem ser minhas grandes peças processuais.  Ainda hoje, uma tentação que tenho é de criar um apelo para a Justiça através dos livros”.

Em 2007, o artista ganhou o Prêmio Literário José Saramago, com a obra o Remorso de baltazar serapião. O próprio Saramago definiu o livro como um “tsunami literário”. Em 2012, conquistou o Prêmio Portugal Telecom pelo romance a máquina de fazer espanhóis. E, no ano de 2015, com A desumanização. (2)

O próprio Valter relata a sua emoção ao ouvir de Saramago (único escritor português a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura) a definição de “tsunami literário”:

“Foi incrível. É um prêmio que cresce dia a dia. Com o tempo, eu sinto que o que o Saramago disse sobre o meu livro e o carinho que ele estabeleceu comigo são algo que rende juros. Com a distância parece ainda mais incrível que eu o tenha conhecido e que ele tenha gostado de mim. Eu fiquei felicíssimo naquele momento. Achei que as agruras da minha vida valeram a pena. Quando Saramago ainda estava vivo, eu aconselhava toda gente a ganhar o Prêmio Saramago, só para receber um elogio dele [risos]”. (3)

Valter tem uma vasta obra literária: romance, poesia, contos e livros infantis (clique aqui para ver as obras). Ano passado, o autor publicou o livro “As mais belas coisas do mundo”. Já estou na expectativa para “devorar” esse livro. A minha experiência com a obra “O Filho de mil homens”, está sendo impactante. Há reflexões sobre as relações humanas, sobre a solidão, sobre a formação humana. As críticas sociais são sutis e poéticas, mas estão presentes.

Ler Valter Hugo Mãe é se deparar com uma leitura fluida, emocionante e poética. Eu estou encantada com o artista. Uma tristeza saber que vamos morrer não vamos dar conta de ler tudo que tem disponível. Mas, ler as obras desse escritor contemporâneo não pode faltar em nossa lista.

Texto: Winnie Barros

Bibliografia

  1. Entrevista disponível no no site El Pais. Hugo Valter Mãe: “Se eu fosse impedido de voltar ao Brasil, nunca mais regressaria inteiro a Portugal”.
  2. Breve biografia de Hugo Valter Mãe no site Fronteiras do Pensamento.
  3. Entrevista disponível no site Época. Valter Hugo Mãe: “A melhor coisas que os portugueses fizeram foi o Brasil.