O “planeta fome” de Elza Soares

Eu vinha guardando a 7 chaves a reportagem “DIVA DO AVESSO: Elza Soares canta o Brasil marginalizado e subverte a MPB em seu novo e melhor disco”. Capa da BRAVO!, publicada há 18 anos. Mas, depois que vi o clipe Comida, dela com os Titãs, e, na semana passada, juntamente com a Angeline, após termos adquirido o CD: “Elza Soares: Planeta Fome”, não tive dúvida, chegou a hora da publicação deste artigo, em homenagem aos 91 de vida da cantora.

No dia 23 deste mês de junho, ou seja, daqui a 4 dias, ela estará completando 91 anos. A nossa admiração é completa pela: mãe Elza, pela negra Elza, pela mulher Elza, pela cantora e compositora Elza, pela representante brasileira Elza. Por todas as Elzas. É de Drummond: “Leila, para sempre Diniz”. Parafraseando o poeta de Itabira, dizemos nós: “Elza, para sempre Soares. “A sambista maior, a diva do jazz e eleita em 2001 pela BBC de Londres, uma das dez artistas do milênio”. Essa é a Elza que canto o Brasil como ele é. Principalmente agora (2002), com o CD “Do Cóccix Até o Pescoço”.

À sua pessoa é atribuído o status de aura de diva polêmica, cantora do mundo e porta-voz da negritude, reconhecida por gerações há sete décadas e dona de uma discografia que ultrapassa a 30 volumes, “com uma vocação intuitiva para o jazz e o improviso a levou a ser tratada em condições de igualdade com Louis Armstrong e Ella Fitzgerald”.

Chegar onde chegou no mundo da “música preta brasileira” e manter-se como grande artista, não foi nada fácil. Foram muitas as adversidades na vida profissional e pessoal. “A jovem pobre e negra, que aos 14 anos canto no programa de auditório de Ary Barroso porque precisava dar de comer ao filho, que dormia no chão e acordava às 4 horas da manhã para carregar latas d’agua na cabeça: que foi mãe nove vezes e que provou, com Garrincha, os extremos de uma paixão que escandalizou a sociedade, não canta loas de vitória” (1).

Na entrevista à BRAVO!, a cantora enfatizou o quanto o Brasil é “um país perverso capaz de reunir todos em “saco em lixo”‘. Ela é, por definitivo, autora de bordões do tipo: “Eu sou uma droga perfeita, natural”, ao reportar-se sobre sua vitalidade física e mental. Ou ainda, “Só os loucos são perfeitos”; “Samba não não tem geometria”; “A carne mais barata do Brasil é a carne negra”, entre outros.

À BRAVO! assegurou, não apenas sobre o CD, mas também sobre outros temas como: a carreira artística, a família, o exílio, o samba, a pobreza, o racismo, etc. E, garante que ninguém é forte o suficiente que não venha a chorar. “Eu choro, sim e muito. Só os fortes choram. Os fracos fingem que não choram”. Leiamos a seguir, alguns trechos da entrevista em evidência.

Questionada se se acha a porta-voz da causa negra, disse: “Eu nasci negra. E continuo negra. […] Eu mantenho a minha raça com a maior dignidade. Ser negro é ter raça”. E sobre o peso da pobreza, completou: “A pobreza não faz bem a ninguém. A pobreza é uma doença que qualquer governo pode curar. […] Ninguém quer morar num barraco de zinco”.

Ao falar sobre a sua origem pobre, completou: “Nasci em São Miguel, um, barro paupérrimo!” Mas só um detalhe: se a pobreza nos permite gritar “Penta!”, também nos ensina a berrar: “Eu quero saúde, eu quero dignidade, eu quero respeito, eu quero mais cultura…” Porque todos temos passado. Se não há passado, não há memória, e sem memória, a cultura fica estilhaçada. Aliás, “é muito triste um pais que não tem memória”.

Ainda referente ao disco “Do Cóccix…”, considerado pelos especialistas como o melhor de todos da profícua carreira da carioca, que pode torná-la (à época) “uma diva de vez”, respondeu: “Esse negócio de diva tem um compromisso muito sério. Eu gosto do meu lado marginal. Por isso eu faço todas as vozes, todos os ritmos nesse disco. Para não ter uma morada só, mas todas as moradas”.

Indagada se se considera om destaque no gênero imenso que é o do jazz, disse que sim. Que “The queen of the Jazz

Elza Soares”, já fora visto na Alemanha, Londres e Nova York. Mas apesar do ponto de equilíbrio que há entre o samba e o jazz, afirmou: “Há uma associação da minha voz com a voz do jazz”. E a associação da bossa ao jazz? Disse: “O João Gilberto foi o cara que mais me deu apoio. Era um cara que, na minha casa, cantava para eu dormir (brinca)”. E, voltando ao samba, sentencia: “Cantar samba é muito difícil. […] Samba você põe uma fita métrica e não sabe o que vai medir aquela coisa ali. Samba não tem geometria”.

Agora, uma pergunta inusitada: “O que levou vocês ao exílio às vésperas da Copa de 70?”. Em seu relato, a cantora narra que recebeu uma carta na qual constava uma determinação para a mesma deixar o país em 24 horas. Ela não acreditou. Achava tratar-se de uma brincadeira. Ignorou. Então “metralharam a minha casa, quase mataram meus filhos”. Os repórteres insistem: “E qual foi o motivo?” Ela é taxativa: “A gente forma opinião. E pra ditadura, isso era muito perigoso”, ou seja, para o sistema, a cantora era “uma ameaça à moral e os bons costumes”.

No entanto, dias difíceis estavam por vir para Elza. primeiro a morte do marido Mané Garrincha; depois a morte prematura do pequeno Garrinchinha, aos 8 anos, num acidente de carro. Esses momentos a deixaram desapontada, desorientada, fragilizada, que a mesma decidira passar uma temporada em Los Angeles. E, ao responder esta pergunta: “E o que você aprendeu do racismo por lá (EUA)?”, externou com pesar estas palavras: “Lá você sabe onde mora o preconceito. Aqui você não sabe onde ele existe. Aqui o negro rico é branco, e o branco pobre é negro”.

E para decidir a excelente entrevista, surge a pergunta: “Você se acha a cara do Brasil?” Sem atalhos disse: sim. “O Brasil otimista. Eu não sou dado a derrota. Derrota pra mim é uma palavra que tem de ser banida de qualquer dicionário”. A verdadeira cara do Brasil, sim. Assim tem sido desde quando era uma menina e foi ironizada pelo temível apresentador Ary Barroso, que ao vê-la diante de si, perguntou-lhe: “De que planeta você veio?” A reposta foi mais severa ainda: “Do planeta fome. O mesmo planeta seu”.

Por assim lembrar, o CD “Planeta Fome” retrata a triste realidade da base da pirâmide social brasileira, em todos os aspectos. Por exemplo Brasis (Seu Jorge-Gabriel Moura-Jovi Joviano), rima bem esses desníveis. Vamos, a seguir, a alguns trechos dessa música.

“Tem um Brasil que é próspero/Outro não muda/Um Brasil que investe/Outro que suga.

(…)

Tem um Brasil que soca/Outro que apanha/Um Brasil que saca/Outro que chuta/Perde, ganha/Sobe, desce/vai à luta, bate bola/Porém não vai à escola” (2).

Salve Elza sempre: aos 91, aos 100, aos 150… A tua luta jamais será em vão. Muitos brasileiros acordaram (e saíram) do marasmo que viviam a partir de você. Do teu exemplo de vida. “Você tem fome do quê? Você sede de quê?

Por Ageline e Francisco Gomes

Fontes

  1. “Flor de Lótus”, por Regina Porto e Marco Frenette, BRAVO!, ano 5, agosto de 2002, pp. 63/67.
  2. CD “Planeta Fome”, de Elza Soares, RJ, gravadora Deck, 2019.

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