As cantigas poéticas de Elias José

Ilustração de Ângelo Abu ,

Você sabe o que é o PNLD? É o Programa Nacional do Livro Didático, segundo o MEC, tem por objetivo “avaliar e a disponibilizar obras didáticas, pedagógicas e literárias, entre outros materiais de apoio à prática educativa, de forma sistemática, regular e gratuita às escolas publicas da educação básica das redes federal, estaduais, municipais e distrital”. Tudo impulsionado, é claro, pelo FNDE – Fundo Nacional do Desenvolvimento da Educação.

No mês passado, consultei vários títulos com o selo do PNLD, e todas edições de 2018, nos quais consta este lembrete: do “6º ao 9º ano“, como: Apática, de Marcelo Xavier; Os olhos cegos dos cavalos loucos, de Ignácio de Loyola Brandão; Futurações, de Caio Riter; Fragmentos chineses, de Franz Kafka; As três Marias , de Rachel de Queiroz; Janelas mágicas, de Cecília Meireles; Cantigas para entender o tempo, de Elias José; Procura-se um amor, de Adriana Falcão; Informe do planeta azul e outras histórias, de Luís Fernando Veríssimo, entre outros.

Independente de serem destinados ao público infanto-juvenil, é prazeroso demais folhear, ler, observar as ilustrações desses livros. É encantador mesmo! Os adultos também se divertem com as personagens, autores, tudo, enfim. Já li livros mundialmente conhecidos, de autores consagrados, mas sem entusiasmo. E, às vezes, li livretos, de autores desconhecidos do grande público, simplesmente fascinantes. Tudo é muito relativo. Quem “manda” é o leitor. Isso, ao nosso ver, não é uma justificativa, é uma constatação.

Da lista acima, Cantigas…, é o livro mais extraordinária. Apesar de ter apenas 40 páginas. No entanto, o seu conteúdo é ótimo. Grandioso. São 22 poemas imperdíveis. Diz a editora: “Autor de belíssimas páginas de poesia, Elias José consegue se superar nestas Cantigas para entender o tempo, que jorram sensibilidade e extrema delicadeza para falar do tempo do amadurecimento, das pequenas alegrias do cotidiano, e, sobretudo, do amor. Uma leitura que enternece e lava a alma”.

Na apresentação consta: “Há gente que faz tudo para “enganar” o tempo. Elias José, ao contrário , pretende entendê-lo. E tenta isso com um expediente muito especial: a poesia cheia de ritmo – certamente um elemento importante do tempo – e carregada de figuras, aquelas palavras que procuram falar mais e além delas mesmas.

Com a leveza que o caracteriza, Elias José passa por muitos temas ligados ao tempo – ou a vida, que ele limita. E, do cotidiano a estações do ano, chega ao sentimento que mais o inspira: o amor, o único que, para ele, nem o tempo supera. Tomara que apreciem essas Cantigas, e nelas passem um bom e precioso tempo” (1).

Elias José (1936-2008), era mineiro de Santa Cruz do Prata (distrito de Guaranésia). De lá mudou-se para Guaxupé, onde viveu toda a sua vida. Era “formado em Pedagogia, Letras e Supervisão Escolar, sempre se dedicou à área da Educação. Inclusive tinha três cursos de pós-graduação de Literatura Brasileira. Mesmo com essa intensa vida de professor, além de outras funções administrativas na Faculdade de Filosofia de Guaxupé, escreveu mais de cem obras literárias ,muitas delas premiadas, dentre as quais: O Fantasma no Porão, Caixa Mágica de Surpresa, O Jogo da Fantasia, Cantos de Encantamento” (1).

Esse poeta sempre transitou “com desenvoltura e entusiasmo entre os mais variados públicos, e por gêneros literários diferentes, tem um especial carinho pela poesia e pelos adolescentes, para quem escreveu muitos títulos interessantes, além destas Cantigas: Amor Adolescente; Cantigas de Adolescer; Segredinhos de Amor; Cantigas de Amor. Postumamente Poemas pra Matar Saudade, em homenagem à sua figura ímpar, em todos os campos” (1). Sua produção foi traduzida na Argentina, EUA, Itália, Polônia, Nicarágua, Canadá e México.

Cantigas… é dedicada a esposa Sílvia, com quem foi casado por 33 anos e tiveram Iara, Lívia e Érico. As belas ilustrações são de Ângelo Abu (Ângelo Hermeto Abi-Saber), o qual nasceu em Belo Horizonte em 1974. Estudou Psicologia, mas formou-se em Cinema de Animação, na Escola de Belas Artes da UFMG. Seu forte é o desenho. Inclusive, muitas de suas caricaturas foram premiadas. Desde de 1996 já ilustrou muitas “obras de literatura infantil e juvenil”. Para a Cia das Letras, já fez 15 capas para os livros de Mia Couto, “um dos maiores escritores da língua portuguesa de todos os tempos“. Seu site: https://angeloabu.wordpress.com.

Essa pequena grande obra (Cantigas...) que jorra sensibilidade e nos faz crer nas “alegrias do cotidiano e, sobretudo, do amor”, contém poemas inesquecíveis, como: Os Quatro Elementos, Os Cinco Sentidos, Desafios, Procissão, etc, cujas palavras ficam incorporadas na gente, como garante Manoel de Barros, outro mestre da poesia e destes magistrais versos, assim: “Eu escrevo com o corpo/Poesia não é para compreender mas para incorporar/Entender é parede: procure ser uma árvore” (1).

Para acolher e assimilar Os Quatro Elementos, o leitor não precisa ter idade tenra ou madura, basta soletrar: O AR“A brisa que beijo de leve/o seu corpo em festa”. O FOGO“O que é brasa/e queima e dói“. A ÁGUA: “A onda do mar/veio vindo leve”. A TERRA“Enterrar com o morto/a soma e a essência,/os sons e os sonhos”.

Por fim, a íntegra do poema Desafios aos nossos leitores: “É difícil reproduzir a febre,/o fel e as amenidades da vida/com palavras, traços ou gestos. O poema acena, implora,/faz cena e teima./Mas as dores e as alegrias,/expressas em palavras,/se fragmentam, esfriam/e perdem a cara, o carma e a marca,/e se transformam em frágeis máscaras. A vida é mito e metáfora,/é pura poesia do silêncio./As formas de expressar a vida/são cacos sujos de um espelho”.

Notinha útil No último domingo, dia 28.11.2021, o destacado cantor, pianista, compositor e escritor Uday Vellozo (assim mesmo com “ll” e “z”), completou 80 anos de vida. Você sabe que é ele? É o Benito di Paula. Criador de sambas inesquecíveis. Poderíamos citar umas três dezenas deles. O nosso pequeno acervo contém 20 LPs e 20 Cds. Ouvir Benito é como ouvir os passarinhos: cada canto, uma renovação de vida, como consta nesses versos Viva ao Sol (p.1978): “Toda manhã, pela manhã/Abra a janela, faça sua lei/Dê viva ao Sol/Que ele é nosso rei”. Parabéns, Benito. Muita saúde e vida longa!

Por Angeline e Francisco Gomes

Fonte: 1. José, Elias. Cantigas para entender o tempo, 2ª ed. Belo Horizonte, Editora Dimensão, 2018.

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