Clarice Lispector: “Em cada livro eu renasço”

A Literatura é realmente fascinante. Aliás, todas as sete artes o são. Obviamente, cada uma no seu campo de ação, investigação, criação. Uma vez adepto da prosa e verso, você não fica “livre” da leitura, da pesquisa e da aquisição de livros. Pense num hábito saudável e prazeroso.

Nos anos 1970, os jovens da minha geração sabiam da existência de grandes escritores e poetas brasileiros, como Clarice Lispector (1920-1977), cujas produções literárias – dela e de muitos outros profissionais do ramo -, eram disponibilizadas nas livrarias, bancas de revistas e jornais e bibliotecas das escolas, universidades, etc, principalmente nas Regiões Centro-Sul do país. Mas, para nós, do interior da Amazônia, não era fácil adquirir esse ou aquele exemplar de nossa preferência. Mesmo assim, trocávamos livros entre os alunos; comprávamos pelos Correios; ou encomendávamos de quem iria até Manaus, por outros meios. Hoje, somos leitores sessentões. É um mundo fascinante (e inesgotável imaginação).

A obra “O primeiro beijo e outros contos”, traz esta nota: “A experiência do primeiro beijo é inesquecível, mesmo quando inesperado, como no conto-título deste livro. Também é inesquecível a “felicidade clandestina” do contato com os primeiros livros”. A editora segue citando vários temas de Clarice, “tão cotidianos e profundos (…) que reúne alguns dos textos mais marcantes da nossa grande escritora (…). A palavra sincera de uma autora sempre preocupada em mostrar as relações humanas em toda a sua verdade, seja ela delicada ou cruel. A maior lição que fica da leitura destas histórias, porém, é descobrir que cada pessoa tem um mundo dentro de si e é isso que torna fascinante – e até mesmo complicado – o encontro de dois ou mais mundos. Em outras palavras: viver” (1).

Outro ponto interessante do trabalho em questão e, inteligentemente contido na edição, sob o tema: “Em cada livro eu renasço”, é o conteúdo (vivíssimo!) da “entrevista” com a escritora, cuja nota diz: “O diálogo com Clarice Lispector foi criado a partir de seus depoimentos publicados nos seguintes jornais: # Jornal do Commercio – 9/9/73 # Folha de S. Paulo – 10/9/75 # Folha de S. Paulo – 10/12/77 # A Tribuna – 10/12/77 # Jornal do Brasil – 10/12/77″. A seguir, a íntegra de nove perguntas e respostas:

1. Como você definiria a mulher Clarice Lispector? Sou um ser humano. Não sou uma intelectual; sou mais saudável do que muita gente pensa. Sou uma intuitiva, uma sentidora. E, também, uma amadora. Só escreve quando impulsionada pela vontade.

2. E por que você escreve? Eu acho que escrevendo a gente entende o mundo mais um pouquinho do que não escrevendo.

3. Como é para você esse misterioso ato de escrever? É uma lucidez meio nebulosa porque a gente não tem direito consciência dela. Assim, eu sempre começo tudo como se fosse pelo meio. Deus me livre de começar a escrever um livro desde a primeira linha. Eu vou juntando as notas. E depois vejo que umas têm conexão com as outras, e aí descubro que o livro já está pelo meio…

4. Fale um pouco do seu método de trabalho. Tem gente que cose pra fora, eu coso pra dentro. Vou tomando notas. Às vezes, acordo no meio da noite, anoto uma frase e vou para a cama. Sou capaz de escrever no escuro num cinema, meu caderninho sempre na bolsa…

Para mim, fundo e forma são uma coisa só. A frase solta já me vem feita, mas não gosto da fase posterior, do trabalho que consiste em reunir esses pensamentos e ideias nascidos aos pedaços.

5. Você se interessa pela reação que os seus livros provocam nos leitores? Depois de publicado o livro, eu fico muito contente, quando as pessoas chegam perto de mim e dizem que me entenderam. Ainda que seja uma compreensão que não possa ser expressa por palavras. Mas que seja aquilo que eu chamo de compreensão por osmose, que passa de pele para pele.

Em cada livro meu, eu conto tremendamente com a participação do leitor.

6. Algumas pessoas consideram que a literatura deva ser comprometida com a realidade. O que você acha disso? Eu admito a literatura claramente participante. Se não faço isso é porque não é do meu temperamento. A gente só pode fazer bem as coisas que sente realmente. Os meus livros não se preocupam com os fatos em si, mas com a repercussão deles nos indivíduos. Isso tem muita importância para mim. É o que faço. Acho que, sob esse ponto de vista, eu também faço livros comprometidos com o homem e a realidade do homem, porque realidade não é fenômeno puramente externo.

7. Durante muito tempo você escreveu crônicas para jornal. Fale um pouco desta atividade. Não sei fazer crônicas; o que fiz, no jornal, foram textos de impressões. Mas, como o tom era leve, ganhei uma popularidade, que considero falsa, pois muitos dos leitores das minhas pseudocrônicas não entenderam meus livros. Alguns nem chegaram a lê-los, sob a alegação de que eu era hermética. Mas, agora, parece que as pessoas já entendem esses mesmos livros. Pelo menos, é o que posso deduzir pelos inúmeros telefonemas que recebo. É a imprensa querendo me entrevistar, leitores loucos para me conhecer, estudantes me cumprimentando. O que houve? Não sei. Eu não mudei; só posso concluir que os tempos mudaram.

8. A literatura pode, de alguma forma, ajudar as pessoas? Todos os artistas vivem na sua época. Talvez a literatura possa fazer o leitor se entender melhor a si mesmo. Mas não sei…

9. E qual o papel da sua obra dentro da literatura brasileira? Não sei classificar minha obra. Em cada livro eu renasço. E experimento o gosto do novo. Não, eu nunca soube que era responsável pela renovação da literatura brasileira, sobretudo no conto. E, se isso aconteceu, foi involuntariamente, sem programação.

Só complementando: nos idos dos anos 70, estávamos ávidos pela leitura (a grande maioria), e tínhamos, vivos – em carne e osso -, produzindo obras também vivíssimas, Drummond, Rachel de Queiroz, Vinicius, Fernando Sabino, Jorge Amado, Cecília Meireles, Gullar, entre outros. Hoje, outros grandes poetas, jornalistas e escritores estão aí. É a era digital que abriu as portas, ainda mais, para o mundo editorial (?). Mesmo sem (ou quase) calor humano, entrevista frente a frente, o autógrafo. Porém, nós, os leitores não perdemos oportunidades. Por exemplo, as entrevistas motivadas por diferentes jornais à época, com Clarice, aqui reproduzidas, são fascinantes. É, como se a gente estivesse conversando diretamente com ela, quase 50 anos depois, ou seja, renascendo com ela em cada palavra; em cada resposta. Fantástico!

É o encontro de dois ou mais mundos, que em outras palavras, se resumem em VIVER.

Notinha útil – A obra aqui analisada, nos foi presenteada – a qual já faz parte do acervo do Facetas -, pelo nosso assíduo leitor, o senhor José Joaquim Freire, servidor público do Detran-AM. Ao mesmo, os nossos agradecimentos, tanto por ajudar a manter ativo o nosso blog, como por explorar o mundo da leitura.

Notinha de pesar – Partiu, na manhã de ontem, para o plano celestial, o poeta Thiago de Mello (1926-2022). A equipe do Facetas, lamenta o seu passamento. No seu disco de vinil “Mormaço na Floresta”, da SomLivre, de 1983, no poema Amazonas, Pátria D’agua, constam estes versos, por ele recitados ao som do violão do seu filho Manduka: “Vem comigo descobrir/as fontes verdes da vida./Mas contigo traz amor”.

Notinha de saudade Há exatamente 40 anos, ou seja, no dia 19 de janeiro de 1982, o Brasil perdia, fisicamente, Elis Regina (1945-1982). A dor em seus fãs é a mesma daquele dia fatídico (São dois pra lá/dois pra cá…). Esse reconhecimento é dela: “Deus me deu essa voz, e isso é a maior coisa que tenho”.

por Angeline, Francisco e Winnie

Fonte. 1. Lispector, Clarice. “O primeiro beijo e outros contos” (Antologia). – SP: Editora Ática, 1990.

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