O Pastoril do menino Gilberto Freyre

Quando se pensa no notável sociólogo pernambucano Gilberto Freyre (1900-1987), logo vem à memória “Casa Grande & Senzala”, a sua mais grandiosa obra e uma das mais importantes do século passado. O escritor nasceu e morreu na capital Recife, aos 87 anos. Também foi antropólogo, jornalista, historiador, poeta e pintor. “Como escritor, dedicou-se à ensaística da interpretação do Brasil sob ângulo” das ciências citadas. Daí, ser considerado um dos mais importantes estudiosos do século XX. Considerado, portanto, como um polímata.

Freyre nos deixou uma vasta bibliografia. Sua profícua pesquisa e coerência sobre o que pensava e escrevia são de uma contribuição ímpar para a cultura e identidade brasileiras. Aliás, “a principal contribuição de Freyre para a discussão sobre as relações sociais é a interpretação do Brasil com base nos aspectos positivos da miscigenação, rompendo com as teorias racistas que predominaram no século XIX” (1). Sobre ele, disse Monteiro Lobato: “O Brasil do futuro não vai ser o que os velhos historiadores disserem e os de hoje repetem. Vai ser o que Gilberto Freyre disser. Freyre é um dos gênios de paleta mais rica e iluminante que estas terras antárticas ainda produziram”.

Esse estudioso sempre esteve atento a todas as manifestações culturais brasileiras, principalmente àquelas produzidas no Nordeste, ou melhor, em Pernambuco, ou ainda, Recife. Posso afirmar, grosso modo, que as reminiscências de seus estudos historiográfico, antropológico e sociológico, foram reunidos a partir dos seus “achados” como jornalista. Por sinal, são os jornalistas que “garimpam” aqui e ali, e reúnem informações precisas para qualquer obra, em qualquer gênero literário. Assim, também o fez Freyre. Foi beber as águas cristalinas nas fontes do folclore regional, deveras rico e que o fascinava. Por exemplo, leiamos suas considerações a seguir: PASTORIL – VALENÇA FILHOS.

“Quem escreve esta apresentação é um recifense, hoje velhíssimo (nos dois sentidos: “velho”, rito da dança; e velho na idade: tinha 80 anos), em quem madrugou o gosto por Pastoril: por pastoris do seu querido burgo. Anda muito menino, lembra-se de ter levado a ver o Célebre Pastoril de Herotides. Deslumbrou-se com as pastoras. Com as cores. Com os cantos. Com as palmas. Com os vivas.

Quase na mesma época, começou ele próprio a fazer parte de um pastorilzinho de crianças. Seu cordão, o encarnado. Aprendeu de cor as canções. Era o velho. As pastoras, irmãs e primas. O público, pais, avós, tios, amigos dos grandes da família.

Decorei o que devia dizer como velho. Aprendi o que a Diana, A Mestra, a Contra Mestra deviam dizer. Parece que encarnei como devia encarnar o Velho: chamando as pastorinhas “com prazer e louvação”. Incitando-as a dançarem e a gritarem pelos cordões: o azul e o encarnado. Era do rito.

Como destaca em eruditas notas sobre o assunto, o pesquisador Fernando José Wanderley, o pastoril vem de dias remotos do Brasil, representando o aspecto talvez mais festivo das comemorações pré-brasileiras do Natal. As comemorações já brasileiras do Brasil já nacional (de Norte a Sul) conservaram com carinho, presépios e pastoris lusitanos ligados ao culto do Menino-Deus. Culto que é para o brasileiro a própria essência do Natal. Enquanto na Europa e nos Estados Unidos esse culto se faz em torno de um Papai Noel, velho e vestido de roupas grossas contra o frio, no Brasil se processa em torno do Deus-Menino; e esse Deus-Menino festeja no seu leito de palha. Um meninozinho nu. Culto ligado à lapinha, ao presépio, ao pastoril.

Este disco sobre o Pastoril – Viva o Azul! Viva o Encarnado! Vem dos Valença Filhos: José Raul Valença e Manoel Valença. São eles os representantes atuais de uma ilustre dinastia recifense ligada amorosamente – pelo amor artístico ao Pastoril. Quem não viu ou não sabe, do Pastoril Tradicional dos Valença, ignora uma das mais encantadoras tradições recifenses.

José Raul Valença e Manoel Valença, não seguem literalmente essa tradição: removam-se. E removam-na com senso poético e – curioso! – indo às próprias raízes lusitanas do Pastoril Brasileiro: aos altos sacramentais. Daí o enfoque que dão às figuras de ciganas que só aparecem na Europa – apuraram os dois jovens Valença – depois de 1300 (ou seja, a partir do ano 1300, surgido lá em Portugal). Seria um influência de Gil Vicente – o grande Gil Vicente – renovado no teatro natalino da família Valença. Renovação que agora importaria na atualização, ao gesto de Gil Vicente, de elementos populares capazes de avivarem a vivacidade do mesmo teatro. É evidente que essa obra de renovação da tradição Valença foi realizada pelos jovens Valença através de pesquisa e estudos que incluíram consulta às obras do padre Jaime Diniz e do antropólogo do Joaquim Nabuco – Professor Valdemar Valente e contando com experimentos de modernos presépios – imagens e presépios – entre os quais o de Elza Loureiro.

O Pastoril dos Valença Filhos sabe-se que fará uma série de apresentações no Centro-Sul do País (São Paulo, propriamente) em janeiro de 1981. É um esforço renovador, o dos jovens Valença, que marca um ressurgimento do Pastoril que, partindo de Pernambuco, tende a contagiar outras partes do Brasil. Ressurgimento dentro da tendência e ressurgência culturais, em geral artísticas, em particular, características da nossa época. Concorrendo para que tal aconteça, os jovens Valença contribuem para reviver o prestígio pernambucano na cultura brasileira. Pelo que merecem os melhores aplausos” (2).

Ufa! Que relato fascinante! O leitor sente-se – assim, pensamos nós, do Facetas, e os nossos seguidores Antonio Carlos Lacerda de Souza e Paulo Ricardo Castro da Silva, que semanalmente nos enviam suas considerações sobre os artigos -, como se pessoalmente o próprio sociólogo estivesse sentado no sofá de sua vasta biblioteca, relembrado esses fatos da sua infância. Tem mais: ele inicia o texto na terceira pessoa do singular, como se repetindo a cantora Carmen Miranda, quando referia-se sobre si mesma.

Pastoril é uma manifestação folclórica muito conhecida no Nordeste. Principalmente, em Pernambuco, Paraíba, Rio Grande Norte e Alagoas.

Viva as tradições folclóricas, seja no Brasil ou em qualquer outro lugar do mundo!

Notinha de pesar – Adeus Elza Soares (1930-2022)! A tua arte há de permanecer em nós por muitas e muitas décadas. Em 16.06.2021, o Facetas publicou: “O planeta fome”, de Elza Soares. E que as pessoas reflitam ( e mudem para melhor), sobre essa lapidar citação: “O Brasil é um país perverso capaz de reunir todos em saco de lixo”. (Entrevista dada a revista Bravo! em agosto de 2002)

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Por Angeline e Francisco Gomes.

Fontes: 1. https://www.brasilparalelo.com.br; e 2. LP “Pastoril – Viva p Azul! – Viva o Encarnado!” Valença Filhos. SP: Chantecler, 1980.

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