“O Divino Beijo”

Capa de Marcela Costa de Souza

Em setembro de 2019, logo após a publicação do livro “O Divino Beijo”, e três meses antes de ser detectado o tal Coronavírus, originário da nebulosa China, o qual se alastrou pelo mundo, causando destruição em milhões de vidas, ainda não se ouvia falar em restrições sociais. Vivia-se “normalmente. Naquele mês fui até o poeta Lôbo Ben Zeev, por três razões aparentemente simples: adquirir quatro exemplares de sua obra; saber o porquê do título do seu trabalho – meio sacro; e o seu interesse pela poesia, haja vista ser o autor formado pela ciência da Engenharia.

Afonso Celso Benzeev Lôbo é maranhense de São Luís e reside em Manaus (AM) há mais de três décadas. Formado em Engenharia Metalúrgica, Engenharia de Segurança do Trabalho e em Ciências Jurídicas. Atualmente exerce o cargo de Delegado da Polícia Judiciária do Amazonas, na capital Manaus. Seu histórico funcional é invejável (no bom sentido, é claro). Esteve nos EUA e Canadá onde participou de Cursos e Treinamentos pela XEROX, enriquecendo ainda mais o seu Curriculum Vitae. Visitou Tel Aviv (Israel), como segurança em Grandes Eventos. Trabalhou em multinacionais como a Moto Honda do Amazonas; professor de DP e IED, na UNIP, etc.

Em poucos minutos de conversa com o poeta, o interlocutor fica cativo às suas sábias palavras. De origem judaica e dono de um tom de voz pacífico – como se estivesse recitando versos, sempre -, em movimentos físicos como os de um rabino, cuja prudência lhe é peculiar, inconfundível. Possivelmente seja por esses e outros “modos”, que alguns se seus amigos de longas datas o chamam de o “Doutor Cartesiano”. Eu acho por bem chama-lo de o “Poeta Cartesiano”.

A obra de 359 páginas está dividida, além do prefácio, é óbvio, nos seguintes capítulos: BREVES POEMAS (com 11 poemas); O DIVINO BEIJO (79); 0 ALTO E O BAIXO TÚMULO (24); A EXTEMPORÃNEA FLOR (41); A NOITE PEDE CLEMÊNCIA (27); A FÉ ESCONDIDA (28); e A LEVEZA E A GRAVIDADE (16), num total de 228 poemas – somados “Fragmentos” e Prefácio, em versos. Todos imperdíveis.

Apesar de mais deslumbrado do que curioso, eu quis saber: “Poeta, o por quê de O Divino Beijo?” A resposta, espontânea e cheia de saberes, veio num tom professoral e fraterno:

Procuro sempre compreender o milagre da vida, isto é, por intermédio da mulher, do filho e do amor. Traduzo e quero, neste momento, externar esse sentimento de gratidão, de aceitação, com poemas. Com estes versos, por exemplo. Não como autor adulto que sou, mas como uma criança que engatinhando sai tateando, tateando e encontra alguém inconfundível: sua mãe. ‘O divino beijo/Aguçou os instintos, /Despertou a razão./Completou a Criação’.

E sem esconder a grandeza emocional que lhe era visível, passa a recitar “divinos” versos de sua criação poética, assim: “O divino beijo estancou o choro,/FEZ NASCER o sorriso./Deu alma ao SER. //Ondes estás, Divino Beijo?/Quando/Um dia voltares,/Terei na boca/Divino beijo”. Após alguns segundos em silêncio, questionou: “Entendeu a força do amor, da vida?”

Não ousei fazer-lhe mais perguntas. Pensei em aplaudir lhe. Mas fiquei quieto. Deslumbrado, admirado, como se ali estivesse diante de mim três seres distintos num só: o filho Afonsinho, o cidadão Celso Benzeev e o poeta Lôbo Ben Zeev. Enquanto que ele, perspicaz, mas fingindo não me observar, abriu o livro novamente e leu pausada e magistralmente estes fragmentos: “Dê-me um beijo/Mesmo que ele seja torto./E eu te darei/Da noite, a escuridão completa;/Da poesia, a alma do poeta”.

Depois de uma hora ali, deixei o gabinete do Delegado Lôbo, ou melhor, o santuário do poeta Ben Zeev, levando nas mãos quatro exemples (para mim e pessoas próximas) de seu magnífico manual de poemas, autografados e o coração marcado pela emoção. E, com esta constatação: estivera diante de um grande criador de versos memoráveis, como aqueles que enaltecem a mulher, a mãe, o amor, a vida. Por falar em mãe, sua Dedicatória é esta: “Para Nize, a que me deu o primeiro beijo. Um Divino Beijo” – o direito de ser concebido e nascer.

Aliás, são de D. Nize, estas palavras, manuscritas num bilhete de 30.06.1992: “Afonsinho, querido filho. Espero que estejas bem de saúde e em tudo. Aqui fico cheia de saudade e envio as minhas benções com um carinhoso abraço. (…) Tua mãe e amiga para sempre”. Nada mais sincero. São as doces palavras que um filho deve ouvir advindas da própria mãe. No caso em questão, não resta nenhuma dúvida que a reciprocidade é absolutamente verdadeira. O filho está distante, mas o sentimento materno, não. Tudo está com ela: coladinho, cheirosinho, e ainda o trata carinhosamente no rico som da pronúncia, no diminuitivo, como querendo justificar o significado do aumentativo.

As palavras acima ratificam o que versou outro grande poeta, Chiaroni (1919-2008), no grandioso poema “Dia das Mães” (trecho): “…Porque a sina das mães é esta sina: Amar,/Cuidar,/Criar,/Depois perder./Perder o filho é como achar a morte”. Ben Zeev homologa os versos de seu colega, assim: “Dê-me um beijo/E eu te darei/A porta aberta quando bateres; Um sorriso depois do pranto,/A dança alegre de um negro banto”.

O Facetas recomenda aos seus leitores, tintim por tintim de “O Divino Beijo”. É emoção à flor da pele do começo ao fim. Uma poética repleta de sensibilidade, sonoridade e contentamento, que fazem pulsar mais forte o nosso coração. E para finalizar, vamos à íntegra de “A Palavra Escrita”: “Deus me livre da palavra escrita!/Ela é feita de carbono, celulose, letras tortas. // São letras natimortas!// Dê-me a palavra falada, cantada, declamada.// Dê-me a palavra alada!//Deus me livre da palavra escrita!/Ela é feita de fonema; //Não serve para fazer/Poema”.

Notinha útil – Informamos aos nosso seguidores que a partir do 1º artigo de março/2022, seguindo a mesma linha editorial de outros blogs, vamos mudar um pouco o nosso formato. Mensalmente faremos 1 artigo especial no estilo dos nossos atuais, e três, uma espécie de “panorama cultural do Facetas” com notas discográficas, biográficas, bibliográficas, etc. A nossa intenção tem por objetivo possibilitar ao leitor melhor dinâmica de leitura sobre assuntos culturais mais diversificados. Desde já somos gratos pela aceitação.

Por Angeline, Francisco e Winnie

Fonte: Ben Zeev, Lôbo. “O Divino Beijo”. – Manaus: Imprensa Oficial do Estado, 2019.

2 comentários em ““O Divino Beijo”

  1. Mas ilustre da poesia são os sinceros e certos caminho de um mestre para com seu aluno, ensinando-lhe o caminho certo, como os versos de Afonso Celso ” A mãe e seus carinhos eterno pelos seus filhos amados “.Assim é o caminho ensinado por todos os professores e mestres, com amor e dedicação.

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  2. Parabens por sempre nos trazer aquilo que nos acalanta e enobrece a alma. Com exposição bibliográfica de nossos poetas, que nos abrilhantam a mente. Não conheço o Divino Beijo, mas pela sua descrição, achei sensacional. Parabéns facetas!

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