Influências da Semana de Arte Moderna no Brasil: 100 anos

Foto extraída do livro “Nosso Século (Brasil)” – vol. 2, p. 81

Sabe-se que as ideias do Pré-Modernismo que pousaram no Brasil, foi o resultado de muitas influências artísticas de vanguarda que ocorriam na Europa, principalmente no início do século XX. “Com a eclosão da Primeira Grande Guerra (1914-1918), os artistas ficaram diante de um impasse, sem saber que caminho tomar. Os valores subvertidos, a confusão nos processos políticos, sociais e econômicos, a cultura posta em cheque pelo conflito ético, auxiliaram muito a expansão do novo movimento em vários países (Dadaísmo, na Suíça; Futurismo, na Itália; Expressionismo, na Alemanha, etc)” (1).

“Esse movimento universal encontrou no Brasil um ambiente extremamente receptivo” para ‘reclamar’, ‘preparar’ e ‘inovar’ as ideias, a estética da arte, por meio de três espécies de revoluções: “a política, a literária e a espiritual”, as quais, “não podem ser de todo dissociadas. Pois revelam uma ruptura com posições passadas, uma quebra de rotina, onde renasce a formalidade, tanto no campo político, como no terreno propriamente literário ou espiritual”. Uma demonstração positiva de uma nova fase de renascimento estético e espiritual, e, mais precisamente católico, quando são publicadas “algumas obras capitais do fim da era anterior e do advento do modernismo declarado como a “Luz Mediterrânea” de Raul de Leôni, os “Epigramas Irônicos e Sentimentais” de Ronald de Carvalho principalmente “A Paulicéia Desvairada” de Mário de Andrade; “A Igreja, a Reforma e a Civilização” de Padre Leonel França, sj e “Pascoal e a Inquisição Moderna” de Jackson de Figueiredo” (1).

Então, fica assegurada com muita clareza, que a “Semana de Arte Moderna” ocorrida de 11 a 18 de fevereiro de 1922 (exatamente há 100 anos), em São Paulo, foi o resultado da soma de vários pensamentos e ações de poetas, jornalistas, escritores, pintores, escultores, etc? Sim. Apesar de nem todos terem aceitado “unanimemente esta ideia: para uns, a célebre eclosão modernista, nacionalista e a seu tanto anárquico, não passou de um movimento local de pouca influência; para outros este acontecimento pelo muito que se agitou as ideias e pelo que logrou realizar, deixou um saldo negativo maior que positivo” (1).

Toda a atividade daquela Semana “foi projetada pós várias exposições de obras e de ideias, dentro da nova ideologia modernista”, isto é, “trabalhos em prosa, verso, pintura, escultura, arquitetura e música – seis das sete artes mundialmente reconhecidas -, num Festival que reunisse o grupo modernista”. Eis aqui alguns adeptos do movimento. Nas artes plástica: a). Pintura: Anita Malfatti, Martins Ribeiro, Zina Aita, etc; b). Escultura: Victor Brecheret e W. Haerberg; c). Arquitetura: Antônio Moya e George Przirembel. Na música: Heitor Villa-Lobos e Guiomar Novais, notadamente. E Alfredo Corazza, Ernâni Braga, entre outros, como coadjuvantes. Na poesia/prosa: vários autores, ou melhor, todos aqueles que promoveram as primeiras deformações radicais do modernismo, que se estendem desde esse advento até os diais atuais, mundo afora. Tendo como ponto de partida da nova “literatura, a liberdade de pesquisa estética, ou seja, cada poeta não encontra regras prefixadas que deva seguir: tem de seguir as suas próprias” (1).

Diga-se de passagem que toda aquela “agitação” fora patrocinada pelo alto mundo financeiro da sociedade paulistana. “A Semana repercutiu como um acontecimento escandaloso e até imoral entre as famílias de São Paulo”, por um lado. Por outro “muitos julgaram a data como o ponto de partida de nossa literatura contemporânea, apesar de seu caráter provocador, o saldo do Movimento foi positivo”. Segundo Wilson Martins, estudioso de Literatura, “ao contrário do que por tantos se pensou, em consequência de um compreensível engano de perspectiva, foram os modernistas que fizeram a Semana de Arte Moderna e não a Semana de Arte Moderna o modernismo” (1).

O assunto se propagou, é óbvio. Em muitos lugares do país, havia iguais tendências, e os escritores jovens se reuniam em torno das redações de Revistas onde seriam impresso e publicados seus trabalhos. Por exemplo: No Rio de Janeiro, em 1924, é feito a Conferência “O Espírito Moderno”, sob a direção do escritor Graça Aranha, com a participação de nomes que se tornariam famosos como: Guilherme de Almeida, Oswald e Mario de Andrade, Tristão de Atáide; em Minas Gerais, “A Revista”, de 1925, com Carlos Drummond de Andrade, Emílio Moura, João Alphonsus Guimarães, entre outros; na Bahia, a “Arco e Flecha”, de 1928, com Eugênio Gomes, Pinto de Aguiar, etc; no Nordeste, em Recife, a “Revista do Norte”, com intelectuais regionais, segundo os quais, “não houve influência do movimento paulistano sobre o nordestino”; no Ceará a revista “Maracujá”, com um grupo que “defendia a tese dos princípios modernistas, e outro na Revista Clan” de sentido nacionalista”; no Norte, com a revista “Flaminiaçu”, de Belém, som a direção de Eneida e Abguar Bastos, enquanto Manaus teve a revista “Redenção”; no Rio Grande do Sul, sem alarde, o movimento foi um dos mais importantes, bastando, portanto, indicar as obras de Érico Veríssimo, Mário Quintana, Augusto Meyer, entre outros nomes, com a revista “Madrugada”. Mais um registro: a Geração de 45, compendiou as suas ideias, em revistas que foram destaque no Rio, Sampa, BH, Curitiba, Porto Alegre, entre outras capitais, como a Klaxon (1922), a Estética (1924) e a Revista do Brasil (1926).

Sobre o tema em análise, na sua pesquisa do início da década de 1970, Afrânio Coutinho constatou que o modernismo pode ser dividido em três fases: 1ª – A da ruptura com os modelos anteriores, que vai de 1922 até 1930, quando seus defensores queriam “sentir o Brasil e descobrir os segredos, desvendar o mistério do passado, compreender as manifestações artísticas do povo”; 2ª – A que vai de 30 a 45, estava voltada para o homem e seus problemas, como SER individual ou social. O objetivo maior era “opor-se à liberdade excessiva praticada pelos artistas saídos da Semana de Arte Moderna”, e a 3ª – A partir de meados dos anos quarenta, as obras literárias se caracterizam pela disciplina na expressão: trata-se da fase neomodernista, o chamado novo formalismo, que prevalece até os idos de 1968.

A pesquisadora independente Giovanna Eusébio, da PUC-SP, diz: “A Semana de Arte Moderna de 1922 foi um evento cultural amplo, almejando a consolidação de um movimento que articularia a renovação das linguagens usuais. Àquele momento, o parnasianismo era tido como escola artística oficial do Brasil, o que ligava a criação brasileira ao rigor formal academicista, os modernistas então planejaram um evento que valorizaria a experimentação e a liberdade, explorando diversos aspectos da cultura” (2).

Este é um sucinto retrospecto daquele movimento, quando do sei primeiro centenário, haja vista que as nossas artes estão aí firmes e fortes (e por que não inovadoras?), acima de tudo a Literatura, para todos os gostos. Seja formal ou não. Seja coloquial ou rebuscada, está sempre em evidência, atual. E assim será. Aos leitores ávidos por mais leitura, mais conteúdo, às nossas desculpas, por nos termos “limitado” o estudo entre 1922 a 1960, basicamente. De lá para cá surgiram – em todas as 7 artes brasileiras – autores e obras geniais, independente desse ou daquele movimentos na Literatura, na Música, no Cinema, na Pintura, etc. Artistas e suas criações que nos encantam e continuarão encantado gerações vindouras.

Por fim, eis aqui a íntegra do “Poema da Amiga”, considerado pela crítica, como um dos mais belo de Mário de Andrade: “A tarde se deitava nos meus olhos/E a fuga da hora me entregava abril,/Um sabor familiar de até-logo criava/Um ar, e não sei porque, te percebi. // Voltei-me em flor./Mas era apenas tua lembrança./Estávamos longe, doce amiga; e só vi no perfil da cidade/O arranjo forte do arranha-céu cor-de-rosa/Mexendo asas azuis dentro da tarde” (1).

Por Angeline e Francisco Gomes e Winnie Barros.

Fontes: 1. Nova Biblioteca Prática da Língua Portuguesa, vol. 3. – SP: AGE, 1979; 2. http://www.https:/blog.artsoul.com.br

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