O Mestre Burle Marx

Foto de Haruyoshi Ono – Burle Marx coletando plantas em Madalena, Espirito Santo

Ouvi falar pela 1ª vez sobre no ensino primário, em meados dos anos 1970, pelo professor Ivan Lima, que ao falar sobre os 10 anos de fundação de cidade Brasília, citou Oscar Niemeyer, Lúcio Costa e Murle Marx. Como se sabe, esses são referências ficam com a gente além da escola, da vida estudantil. Comigo foi assim: sempre que encontrava algum assunto ou reportagem sobre esses mestres, lia, pesquisava, etc.

Assim, em 1985 encontrei o seguinte texto num pequeno dicionário de biografias:

“O paisagista e pintor Roberto Burle Marx, nasceu em São Paulo, em 4 de agosto de 1909, e conquistou fama internacional através da valorização da flora tropical e de sua originalidade criativa. São numerosas suas obras dentro e fora do país.

Formou-se em Arquitetura pela Faculdade do Rio de Janeiro e cursou a Escola de Belas Artes. Em 1928, vai à Alemanha para estudar pintura. Aí interessa-se por plantas tropicais, no Jardim Botânico Dahlem, Berlim. Realizou seu primeiro projeto em 1933 a pedido de Lúcio Costa. Encarregou-se, em 1937, aos jardins do Ministério da Educação e Cultura, que marcou a nova arquitetura brasileira.

Em 1955, ganhou o Prêmio de Arquitetura Paisagística na II Bienal de São Paulo. Em 1962, foi premiado em São Paulo e no Uruguai como criador de joias. Foi ainda laureado na Bélgica, França, e Estados Unidos. Alguns de seus trabalhos mais famosos, no Brasil, os jardins da Pampulha (1941), de Araxá (1943), e Botafogo (1952). Concluiu, em 1962, os projetos do Aterro do Flamengo, Jardim Botânico de São Paulo e do Parque Zoobotânico de Brasília.

É responsável pelos jardins do Parque Municipal de Hamburgo e da sede da UNESCO, em Paris. Teve oportunidade de mostrar sua arquitetura paisagística em Roma, Nápoles, Milão, Caracas, Havana, Zurique, Porto Rico, Nova Helhi dentre muitas outras cidades. Burle Marx é ainda cenógrafo, escultor, gravador e desenhista de joias”.

Os anos se foram mas eu continuei com as minhas “pesquisas” e leituras sobre tudo e todos do meu interesse. Até que, em 2021, adquiri o livreto da série “Mestre das artes no Brasil”, sobre Murle Marx, de Carla Caruso, de apenas 32 páginas. A pequena grande obra é um primor, tanto pelo conteúdo escrito quanto pelo fotográfico. São 40 fotos – quadros, paisagens de jardins, álbum de família e imagens do próprio artista, inclusive, uma delas histórica, Roberto está ao lado de Pablo Neruda e Vinicius de Moraes.

Carla “escreve com a alma”, modo de falar dessa ou daquela obras que nos emocionam quando são vistas, lidas, ouvidas ou sentidas. Algumas de suas linhas são verdadeiros versos em prosa, como estas: “Pequenas gotas d’água contém os verdes intensos e suaves de um espaço inventado. // A superfície do lago reflete árvores e arbustos. Flores balançando ao vento convidam você para entrar nesse jardim. Jardim oferecido por um artista múltiplo: paisagista, pintor, arquiteto e escultor chamado Roberto Burle Marx” (1).

E, com palavras comuns do nosso dia a dia, mas numa entonação e significado poéticos plurais, diz: “Esse artista, ao longo da vida, deixou marcas de sua arte no Brasil e no mundo. Construiu obras originais em casas, prédios, praças, parques, ruas e avenidas. Reinventou lugares, buscando a integração do homem com o espaço e a natureza”. Carla vai além de suas palavras, e registra esta citação histórica do paisagista: “O jardim ordenado, nos espaços urbanos de hoje, é um convite ao convívio, à recuperação do tempo real das coisas, em oposição à velocidade ilusória das regras da sociedade de consumo”.

Esse gigante das artes nasceu num casarão construído no século XIX, situado na Avenida Paulista, onde viveu até os 4 anos, quando sua família se transferiu para o Rio de Janeiro, iniciando ali uma nova vida. “A paisagem era outra: a praia, a areia, o barulho das ondas, o cheiro do mar”. Mas seus pais não perdiam tempo. Se preocupavam muito com a educação dos filhos (Helena, Gabriella, Walter, Haroldo e Roberto). Por isso, não faltavam dentro de casa livros e música. Além da escola tinham aulas particulares em casa. As artes estavam presentes até nos passeios da família. Teatro, por exemplo.

Seu pai, “Wilhelm Marx, era um homem culto, divertido, gostava de música, livros e esportes; veio da Alemanha em 1895 representando uma empresa de exportação. Era da família do economista alemão Karl Marx. A mãe, Cecília Burle, mulher inteligente e sensível, tocava piano e ouvia boa música. Nascida em Pernambuco, sua família era de origem francesa e holandesa” (1). Roberto dizia: “Eu me lembro de mamãe podando as roseiras, que se transformavam numa emoção de cor”.

Aos 6 anos o menino já conhecia e cantarolava “Tristão e Isolda”; aos 7, começou a fazer sua própria coleção de plantas; aos 8, seu clã mudou-se para uma chácara no bairro do Leme, cercada por plantas, pedras, água, etc. Lá, dona Cecília logo começou a cultivar o jardim, sempre acompanhada por Anna Piacsek (sua empregada e amiga húngara) e as crianças e dois jardineiros que moravam na região. “A coleção de Roberto aumentava a cada dia, e foi assim que fez seu primeiro canteiro. O pai, percebendo o interesse do filho, comprava-lhe muitas revistas que tinham como tema o cultivo de jardins” (1).

“Os anos se passaram e Roberto, já rapaz, sempre interessado por plantas, música, desenho e pintura, começou a ter um grave problema de visão. Permaneceu um ano sem puder estudar, e nesse tempo ajudava os jardineiros de sua casa”. Como não melhorava, aos 18 anos, foi buscar tratamento em Berlim. Lá, enquanto se recuperava, passou a estudar desenho, pintura e canto. Visitou e conheceu obras de Cézanne, Matisse, Braque, Klee e Picasso. À noite frequentava óperas e concertos.

Em 1930, com a saúde recuperada, retorna ao Brasil, decidido em ser pintor, após visitar uma exposição de Van Gogh. Aqui, matriculou-se na Escola Nacional de Belas Artes. Foi, quando então, conheceu e se tornou amigo de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, “com quem faria vários trabalhos ao longo da vida”. Ainda nessa fase, “a partir de 1931, o jovem estudante teve contato – em encontros na casa de amigos – com muitos pintores, escritores e arquitetos, como a jornalista Pagu, o poeta Vinicius de Moraes, o historiador Gilberto Freire, o pintor Cândido Portinari” (1).

Em 1949, junto com seu irmão Siegfried, comprou o sítio Santo Antônio da Bica, em Guaratiba, a 45 km da capital carioca, e que seria sua nova casa até o fim da vida. Pessoas famosas estiveram com ele. Por exemplo, na estufa de plantas, recebeu os amigos e poetas Neruda e Vinicius – os três foram clicados juntos em foto histórica. “Seu desejo de ser enterrado sob uma grande mangueira, em seu sítio, foi realizado em 1994, quando aos 85 anos esse grande paisagista deixou de nos contemplar com mais obras de arte” (1).

“Quando faço uma excursão e me vejo diante de uma planta nova, a descoberta me emociona. O importante é a gente compreender a razão das coisas”, disse, certa vez, o poeta do verde, como era chamado Roberto Burle Marx. Não há como não se emocionar, com a criação artística desse MESTRE, seja lendo ou vendo o que nos deixo. Façam isso, senhores leitores, por favor. Emocionem-se também.

Por Angeline e Francisco Gomes

fonte: 1. Caruso, Carla. “Burle Marx” (Mestres das Artes no Brasil), SP: Moderna, 2006,1ª ed. 2009.

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