Em 2007, o renomado escritor luso-brasileiro João Alves das Neves (1927-2012), publicou o livro “Fernando Pessoa: Comboio, Saudades, Caracóis”. Organizado por ele, é claro, com ilustrações da escritora gaúcha Marília Perillo (1969). São onze temas. Para cada um, há uma ou mais ilustrações e versos de Pessoa concernente àquela figura. É muito interessante! Ao final, a própria Editora conta um pouquinho sobre os três.
“Fernando Pessoa (1888-1935) é um dos maiores poetas da língua portuguesa de todos os tempos. adora crianças e costumava divertir os sobrinhos com poemas com toque populares e disparates cheio de humor: um trem – ou melhor, um comboio – cheio de gente, indo de Queluz a Portimão, um menino que em vez de gatinho tinha um caracol, saudades… São personagens, cenas e historietas que expressam a sensibilidade e cultura portuguesas, lindamente captadas pelas aquarelas de Marília Perillo” (1).
O próprio João das Neves explica este verso de Pessoa: “Mas o melhor do mundo são as crianças”, dizendo: “Com esse verso, tirado do poema “Liberdade”, ilumina-se toda a obra de Fernando Pessoa – o poeta da posteridade, que se tornou famoso depois da morte, porque em vida só publicou um livro, Mensagem.
“Liberdade” serve maravilhosamente para testemunhar o sentimento do poeta pelas crianças. Contou-me sua irmã D. Henriqueta Madalena, a extrema ternura de Fernando pelos sobrinhos e pelas crianças em geral, sempre que ele passava os fins de semana na casa familiar do Estoril (perto de Lisboa): levava lembranças para os meninos e brincava com eles. (A moradia ainda existe, guarda o famoso baú dos escritos e vários objetos pessoanos, tem um jardim arborizado, onde vi crianças brincando…)” (1).

Segundo o poeta brasileiro Cyro de Matos, “a alma de Fernando Pessoa estava acesa desde bem cedo com os raios da beleza, ternura e graça; nestes versos íntimos da infância uma nova faceta é revelada deste poeta singular e plural, dito como um dos maiores da humanidade, no fundo de cada gesto, das nossas angústias que passam pela roda do eterno” (1).
Assim continua João Alves: “Ninguém poderá duvidar – lendo Mensagem acompanharemos não só o poeta ortônimo (isto é, ele próprio), mas também os seus jogos heteronímicos, que ele mesmo explicou em poucas palavras: “Desde criança tive a tendência, num mundo fictício, de me cercar de amigos e conhecidos que nunca existiram”. O “mundo fictício” persistiu e criou outros escritores diferentes dele mesmo. Porém, continuou fiel à sua própria infância como no poema “Liberdade”: “Grande é a poesia, a bondade e as danças…/Mas o melhor do mundo são as crianças,/Flores, música, o luar, e o sol, que peca/Só quando, em vez de criar, seca” (1). Espetacular!
Os onze poemas citados/ilustrados são: À minha querida mamã, Havia um menino, A íbis, O carro de pau, Levava eu um jarrinho, Pia, pia, pia, No comboio descendente, O soba de Bicá, Poema de pial, Saudade e Liberdade.
Destes, citamos aqui no Facetas “À minha querida mamã”. Provavelmente esse é o primeiro poema de Pessoa, redigido em 26 de julho de 1895, quando ele tinha apenas 7 anos de idade: “ Ó terras de Portugal/Ó terras onde eu nasci/Por muito que goste delas/Inda gosto mais de ti”; e a primeira estrofe de “Levava eu um jarrinho”, cujos versos são estes: “Levava eu um jarrinho/P’ra ir buscar vinho/Levava um tostão/P’ra comprar pão;/E levava uma fita/ Para ir bonita”.
O poema “Levava eu um jarrinho” é um dos três poemas denominados “Poemas para Lili”, os quais foram escritos para a sua sobrinha Manuela Nogueira, mas endereçados a uma boneca, precisamente chamada Lili”.
A poesia de Fernando Pessoa é realmente fascinante e atravessa o tempo. E, quando o tema é criança, então, chega, quase à perfeição, por exemplo: “Havia um menino,/que tinha um chapéu/para pôr na cabeça/por causa do sol”. Na outra estrofe o poeta completa: “Mas era, afinal,/impossível tal,/nem fazia mal/nem vê-lo, nem tê-lo:/porque o caracol/era do cabelo”(Havia um menino).
Geralmente as disponibilidades financeiras de Fernando Pessoa eram escassas. “Mas isso não impedia de me trazer quase todas as semanas um pequeno brinquedo, que escondia debaixo do meu guardanapo para me fazer surpresa. A meu irmão fez uns versos alusivos à relutância que ele (o garoto) tinha a pôr o chapéu de palha“, revela Manuela Nogueira, sobrinha do poeta.
Amigo leitor, amiga leitora, se você ainda não faz isso, faça a partir de agora: incentive as crianças à prática da leitura. Uma hábito recomendado por todos que navegam no universo do conhecimento.
Por angeline e Francisco Gomes e Winnie Barros. Colaboração de Priscila Gomes.
Fonte consultada: 1. Pessoa, Fernando. “Comboio, saudades, caracóis: org. João Alves das Neves; ilustrções: Marília Pirillo. – ed.renov. – SP: FDT, 2007. – (série isto e aquilo).