Quem era adolescente nos 1970, ouvia falar em Mobral, Funarte, Fename, etc. A Funarte, por exemplo, ainda existe. Já tem 50 anos e segue vinculada ao Ministério da Cultura, atuando no fomento a diversas áreas “como circo, dança, teatro, música e artes visuais”.
“O Projeto “Memória Musical Brasileira” – Pró-Menor – teve início em julho de 1979. Vinculado à Fundação Nacional de Arte (FUNARTE), cujo objetivo principal a documentação e a divulgação da criação musical brasileira de todos os tempos, colocado ao alcance de seu consumidor potencial – o intérprete e o ouvinte, com a gravação de discos”. Foram gravados no Estúdio da CBS do Rio de Janeiro, 15 LPs (dos quais o Facetas tem sete), cada um mais belo que o outro. E, de grande originalidade, é claro.
O Canto da Terra, é um desses discos. Interpretado por Maura Moreira, meio-soprano e Sonia Maria Vieira, piano. Trata-se de uma obra-prima do nosso cancioneiro. São 20 músicas, assim. Onze do lado A: Lendas amazônicas (Cobra grande, Tamba-já e Uirapuru); Cantos indígenas: Tagnani-tangrê (Canto religioso dos índios Nhambiquaras) e Canções dos índios botocudos: Céu grande, macaco barbado na árvore, minha mulher é boa de verdade; Três pontos de Santo: Chariô, aruanda e estrela do mar; Três cantos afro-brasileiros: O fulu-lô bererê (Canto de oxalá), Yemanjá (Toada à Mãe d’Água) e Abá Iogum (louvação de Ogum); e nove do lado B: Se meus suspiros pudessem (modinha do século XVIII); Hei de amar-te até morrer (melodia do século XIX); Casinha pequenina (modinha do século XIX); Morena, morena (modinha recolhida do Paraná); Viloa quebrada (toada de caipira); Sodade (cantiga de roda de Minas Gerais); Tayêras (chula de mulatas do Norte); Prenda minha (folclore gaúcho); e Capim de pranta (folclore gaúcho – Canto de trabalho de negros escravos).

Maura Moreira nasceu em 2 de fevereiro de 1933, em Belo Horizonte. É considerada a primeira cantora lírica brasileira negra. Reside na Alemanha há 50 anos. Do Conservatório Mineiro de Música, foi se aperfeiçoar no Rio de Janeiro. Após ganhar uma bolsa para estudar em Viena, haja vista ter feito o curso de canto “com louvor”, se apresentou em diversas cidades da Áustria, Alemanha, Itália, Bélgica, Espanha, Portugal, Suíça, Holanda, etc. O seu “repertório operístico inclui os mais importantes do gênero”, de Verdi a Mozart, por exemplo.
“Em 1970, Maura Moreira cantou pela primeira vez uma ópera no Brasil. Foi em Belo Horizonte, no papel de “Santuzza”, da Cavalaria Rusticana, de Mascagni. Em 1973 abriu a temporada de concerto da OSB, no Rio de Janeiro, e também a temporada da Pró-Arte, em São Paulo. Desde 1961 pertence ao elenco permanente da Ópera de Colônia, na Alemanha, e realiza apresentações em quase todos os países da Europa” (1).
Sonia Maria Vieira, é pianista e nasceu no Rio de Janeiro no dia 11 de novembro de 1944. Começou estudar piando quando ainda era criança. Depois ingresso na Escola de Música da UFRJ e ganhou vários prêmios. “Dos 11 concursos de que participou, classificou-se em 7 vezes em primeiro lugar, 3 vezes em segundo e uma vez em terceiro lugar”. Aos 19 anos, em 1965 ganhou o primeiro da VI Concurso Nacional de piano no Rio de Janeiro e recebeu uma bolsa de estudos da Alemanha.
“Sonia é também formada em piano pelo Conservatório Brasileiro de Música e possui os cursos de pós-graduação em Iniciação e Folclore, ambos da EMUFRJ. Foi solista das principais orquestras e bandas sinfônicas do Rio e São Paulo. Já tem três LPs (isso até 1979) gravados de música brasileira”. Seu sucesso profissional continua ativo.
O jornalista Zito Batista Filho, que se destacou na imprensa carioca, escrevendo para o jornal O Globo, colunas influentes sobre música erudita e clássicos, diz o seguinte sobre O Canto da Terra: “Em duas duas dimensões, no tempo e no espaço, este é um recital abrangente onde temos, pela voz privilegiada de Maura Moreira, um panorama do canto popular na terra brasileira. Popular em seu sentido mais fundamentado, porque profundamente ligado à terra e as suas tradições e acima do modismo. São cantos de fé, de superstições, de trabalho, de amor, canto de confluências raciais, de heranças espirituais que se somam buscando pela complexidade da convivência e evitar a perplexidade dos desencontros” (1).
Por fim, o jornalista garante: “A voz e arte de Maura Moreira tem o apoio, neste recital, de Sonia Maria Vieira ao piano, ela própria recialista de seu instrumento e que tem conquistado importantes êxitos na tarefa que se impôs de divulgar intensivamente a música do Brasil” (1).
Aos nossos leitores, uma síntese sobre O Canto da Terra, de Maura Moreira, com participação especialíssima de Sonia Vieira, ao piano. Esperamos, portanto, que gostem de mais essa abordagem.
Por Angeline e F, Gomes e Winnie Barros. Colaboração de Priscila Gomes.
Fonte consultada: 1. LP “O Canto da Terra”, de Maura Moreira, RJ: CBS/FUNARTE, 1979; 2. Capa: foto de Beto Felício.