Há 30 anos – 6 de dezembro de 1996 – morria aos 62 anos o cantor e compositor maranhense João do Vale. Ele ficou conhecido como o “Poeta do Povo” por suas composições que marcaram a história da música brasileira, como: Pisa na Fulô, Carcará, O Canto da Ema, entre outras.
Segundo o jornalista e crítico musical José Nêumanne Pinto, “por vários motivos, João do Vale é singular”. Ele prossegue: “Com aguda sensibilidade para captar a condição humana do sertanejo e a rara inteligência de resgatar a linguagem autêntica do sertão, dando ritmo às palavras, João do Vale -e – com Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro – um dos pilares da música nordestina” (1).

Por sua vez a jornalista e escritora Eloí Calage, “João do Vale é isso: um constante corpo a corpo com o prazer e a dor, o gosto de cada momento como se fosse o último ou o primeiro. Se isso lhe traz desconfortos, também o conserva cheio de vitalidade, de agudeza de espírito e sensível à tragédia ou à comédia da vida” (1).
Assim pesquisou a Editora Abril, no texto “DOS COFINS DO BRASIL, BROTOUO O POETA DO POVO”, cuja conclusão é esta: “apesar do sucesso, João foi sempre pobre, porque gasta, vivendo o hoje ao invés de adiar a vida, economizando. É um simples que continua fazendo sua música – de denúncia, malícia ou esperança – comprando fiado quando é preciso, sobretudo, mantendo alerta à própria consciência” (1).
“A obra de João do Vale tem raízes profundas no sertão e recupera o dialeto sertanejo, dando-lhe forma poética. Poucos têm como ele, a capacidade de rimar palavras e poucos conhecem, como ele, os ritmos da alma popular nordestina; menos ainda são os que conseguem transmiti-los com a mesma força, o mesmo lirismo, a mesma alegria e sinceridade”, afirma Nêumanne.
Tendo vivido durante longo tempo à margem da indústria cultural, ele gravou dois LPs. Isso, porém, não o impediu de ter público fiel. Era um brasileiro solidário com a gente simples como ele próprio. Por uma questão de opinião, o profícuo mas desconhecido Vale se torna famoso a partir de 1964 com o show Opinião. Aliás, regatamos para este artigo, a foto de Chico Nelson/Abril Press, com João do Vale, Zé Kéti e Marília Medalha (da esquerda para a direita) na montagem de 1975 do show Opinião.
São deveras belas as seguintes palavras de Nêumanne sobre esse artista em questão: “Ás vésperas de completar seus oitenta anos, o poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade explica que a poesia é arte de dar ritmo às palavras. Foi justamente o hábil manejo do ritmo das palavras dos irmãos Patriota, de São João do Egito, Pernambuco, que encantou outro grande poeta, Manuel Bandeira.
Poucos são os poetas da língua portuguesa que têm a capacidade de ritmar as palavras como João do Vale, um maranhense de Pedreiras (nascido no dia 11 de outubro de 1934), que chega aos 49 anos de idade merecendo cada vez mais o título de “Poeta do Povo”, por conhecer como ninguém os ritmos da alma popular sertaneja, transmitindo-os com uma força, uma pujança, um lirismo, uma alegria e uma sinceridade incomuns.
Por vários motivos, João do Vale é singular. Letrista mais do que compositor, faz versos desde menino, quando improvisava nas brincadeiras de bumba-meu-boi da cidade onde vivia e de vender laranjas e do trabalho braçal. Ajudante de motorista de caminhão, ouvia nos caminhos de Teresina a Fortaleza manifestações da alma do povo que logo transformaria numa obra múltipla e cheia de riqueza, sem qualquer pretensão de pesquisar folclore. Ex- garimpeiro, trata cada palavras como se fosse uma pedra rara” (1)
Por fim, ilustramos aqui um pouco de Carcará (João do Vale e José Cândido), foi lançada, depois do show Opinião em 1964, por Maria Bethânia, em junho de 1965. O show que ocorrera em dezembro do ano anterior apresentou grande sucesso da MPB, como Borandá, Maria Moita e Marcha de Quarta-Feira de Cinzas. “Mas o que causou maior impacto foi o batuque Carcará, interpretada inicialmente por Nara Leão, que, a partir de fevereiro de 1965, foi substituída por Maria Betânia”.
“Registrada em disco também por Bethânia, Carcará despertou no público o interesse por João do Vale, que, apesar de ter inúmeros sucessos no Nordeste, era quase desconhecido no resto do país. A composição, foi sem dúvida, o ponto de partida para a carreira da baiana”.
Aos nossos leitores seguem estes versos do maranhense genial: “a minha fulô o vento pode levar, mas o meu perfume fica boiando no ar”. Fica mesmo: seu legado artístico há de perpetuar por muto, muito tempo. Já são 30 anos de saudades! Outros mais virão, mas a sua canção continuará em cada um dos seus fãs e admiradores.
por Angeline e Francisco Gomes e Winnie Barros.
Fonte consultada: LP JOÃO DO VALE. História da MPB: Grandes Compositores. SP: Abril Cultural, 1982.