As pessoas que vivem “garimpando” aqui e ali – em sebos, antiquários e “velhas” discolândias -, a procura de “novidades”, há de encontrar, certamente, alfo “novo” e inesperado. Assim aconteceu conosco: encontramos num sebo no centro de Manaus, o interessante livro “Os outubros de Taiguara” da jornalista paulista Janes Rocha.
para as gerações que não conheceram (ou pouco conhecem) o legado artístico/musical de Taiguara, saibam que seu nome oficial era Taiguara Chalar da Silva, nascido em Montevidéu, Uruguai, em 9 de outubro de 1945, e falecido em São Paulo (SP), no dia 14 de fevereiro de 1996 (há 30 anos) aos 50 anos de idade. Radicado no Brasil, tornou-se um excelente cantor, compositor, pianista e pesquisador de gêneros musicais como a Guarânia. “Consagrado nos festivais da década de 1960”, tornou-se, sem dúvida, “o artista mais censurado da ditadura militar, com quase 70 canções vetadas” (1).
“O livro Os outubros de Taiguara conta sua vida, suas paixões, seu exílio e sua luta contra a censura. Percebido como romântico quando todos eram políticos, e dito excessivamente político quando todos tentavam ser pop, Taiguara foi o cara errado nos momentos errados. Ouvido hoje, há distância das duas épocas, nota-se claramente o que Taiguara fez de certo a sua música”, diz o jornalista João Gabriel de Lima.

Por sua vez, o também jornalista e crítico musical, o mestre Tárik de Souza, afirma, ao apresentar a obra aqui citada, com “O novo amanhecer de Taiguara”: “Depois de sobreviver à censura política, ele teria sucumbido à guilhotina econômica, que tem proibido a presença da MPB menos rala na mídia principal desde os anos de 1980” (1).
“Os outubros de Taiguara” veio juntar-se aos discos que o acervo do Facetas possui, entre eles o antológico LP de 1972, Taiguara, Piano e Viola . Sua autora, a jornalista Janes Rocha (1964), que tem uma trajetória ´profissional brilhante, dispensa maiores apresentações. assim como brilhante foi a sua pesquisa para a publicação da obra em questão. Prometendo, portanto, fazer um outro artigo oportunamente. Hoje, o nosso objetivo maior é sobre a íntegra da composição Hoje. Aliás, “é a canção título do 5º álbum de estúdio do cantor, lançado em 1969”. Sabemos que o ouvinte poderá acessar as plataformas digitais e ouvir Hoje. Aqui, porém, publicamos os seus inesquecíveis versos e estrofes na íntegra:
“Hoje/Trago em meu corpo as marcas do meu tempo/Meu desespero, a vida no momento/A fossa, a fome, a flor, o fim do mundo // Hoje/Trago no olhar imagem distorcida/Cores, viagens, mãos desconhecidas/Trazem a Lua, a rua, às minhas mãos // Mas hoje/ As minhas mãos enfraquecidas e vazias/Procuram nuas pelas luas, pelas ruas/Na solidão da noite fria por você // Hoje/Homens sem medo aportam no futuro/Eu tenho, medo acordo e te procuro/Meu quarto escuro e inerte como a morte // Hoje/Homes de aço esperam da ciência/Eu desespero e abraço a tua ausência/Que é que me resta vivo em minha sorte // Ah, sorte/Eu não queria a juventude assim perdia/Eu não queria andar morrendo pela vida/Eu não queria amar assim/Como eu te amei // Ah, sorte/Eu não queria a juventude assim perdida/Eu não queria andar morrendo pela vida/Eu não queria amar assim/Como eu te amei”.
Trata-se de uma canção de amor e liberdade; da resistência e da superação da dor individual e coletiva. Diretamente para os nossos leitores. Uma reflexão.
Por Angeline e Francisco Gomes e Winnie Barros.
Fonte consultada: 1. Rocha, Janes. Os outubros de Taiguara: Um artista contra a ditadura: música, censura e exílio.- 1. ed. SP: Karup, 2014; 2. foto/texto de Antônio Guerreiro.