Fonte: Adoro Cinema
         Dia 20 de outubro (sexta-feira) foi o dia do poeta. Quando soube da notícia, lembrei de alguns poetas que admiro, Mário Quintana, Cora Coralina e Pablo Neruda. Quando pensei em Neruda, automaticamente evoquei da memória o filme O Carteiro e o Poeta, uma obra fantástica e belíssima que assisti na minha adolescência com meu pai. Então, para homenagear este dia do poeta, nada melhor do que aliar duas artes, poesia e cinema.
Em 1994 o filme foi produzido na Itália, com título II Postino. A obra cinematográfica é baseada no livro do escritor chileno Antonio Skármeta. Em suma, o filme narra a amizade entre o carteiro Mario e o poeta chileno Pablo Neruda nos anos 50. Além da amizade, outro ponto central na obra é o desenvolvimento de Mario como poeta, o descobrimento da poesia através do poeta, amigo e tutor Neruda. Há uma cena fantástica que retrata esse momento, Neruda e Mario estão numa praia, e rapidamente Neruda recita uma poesia sobre o mar. Assim, inicia um belíssimo diálogo: 
Neruda – Então? Que te parece?
Mario responde – É estranho. 
Neruda questiona -Como assim, estranho? É um crítico severo.
Mario diz – Não, não o seu poema. Estranho… É como me senti          enquanto estava a recitar. 
Neruda – E como foi isso?
Mario – Não sei. As palavras iam para frente e para trás.
Neruda – Como o mar?
Mario – Exatamente.
Neruda – Esse é o ritmo.
Mario – Na verdade, senti-me mareado.
Neruda – Mareado…
Mario – Mareado. Não sei explicar. Senti-me como um barco balando    na volta dessas palavras.
Neruda sorri e pergunta – Como um barco balançando nas minhas palavras?
Mario responde – Sim.
Neruda – Sabes o que acaba de fazer, Mario?
Mario – Não, o quê?
Neruda – Uma metáfora.
Mario se espanta, não acredita que foi capaz de fazer algo que seu amigo e poeta faz, e diz – Mas não vale, não tive intenção.
Neruda – A intenção não é importante. As imagens nascem espontaneamente. Mario, confuso, pergunta – Quer dizer, então, que… Por exemplo, não seu se consigo explicar… O mundo inteiro… O mundo inteiro, com o mar, o céu, com a chuva, as nuvens..
Neruda – Agora pode dizer etc, etc.
Mario – Etc, etc. O mundo inteiro é a metáfora para outra coisa qualquer? Estou dizendo asneiras.
Neruda – Não, não está não. Mario, vamos fazer um pacto. Vou tomar um belo banho e refletir sobre a tua resposta. E amanhã respondo.
Mario – Sério?
Neruda – Sim. Sério.
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Cena do filme

Vejam Mario, desenvolvendo suas habilidades de poeta, e o Neruda como mediador dessa formação. Como se torna poeta? Como acontece esse processo? Acredito que o filme nos proporciona essa reflexão.
Será que todos somos poetas? Não no sentido de poetas que escrevem livros, recitam, seguem técnicas de escrita, etc. Mas, quero dizer no sentido informal e/ou espontâneo. Com certeza, em algum momento de nossas vidas, escrevemos e dizemos coisas que nos surpreendemos, como aconteceu com Mario, quando descobriu que fez uma metáfora.
Penso que esses pequenos momentos, assumimos sem intenção, de poetas; ainda, a poesia não está apenas em signos linguísticos, mas em imagens, sons, etc. Por isso, a narrativa do filme é uma verdadeira poesia. É impossível não se emocionar com os personagens, as paisagens ao fundo e a trilha sonora.
O Carteiro e o Poeta é uma obra cinematográfica e literária que vale muito a pena assistir. Tenho certeza que se você nunca assistiu, suas emoções irão transbordar, e se você já assistiu, quando assistir novamente, novas emoções serão desencadeadas. 

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Texto: Winnie Gomes