“A vacina da discórdia”

“Paus, panelas e garrafas foram usados pela população para impedir a vacinação”.

A mídia tem publicado muito o nome FIOCRUZ. Para melhor entendimento, voltemos no tempo, pelo menos 120 anos, ou seja, para1900. Na época, a cidade do Rio de Janeiro sofria várias epidemias. Foi, quando então, surgiu no cenário local o Doutor Oswaldo como esperança para poucos e ceticismo para muitos comunitários.

Oswaldo Gonçalves Cruz nasceu em São Luiz de Paraitinga (SP), em 5 de agosto de 1872 e morreu em Petrópolis (RJ) em 11 de fevereiro de 1917, vítima de hiperazotemia (excesso de ureia no sangue), cujos primeiros sintomas surgiram em agosto de 1909. Doutorou-se em Medicina aos 20 anos, pela Universidade Federal do RJ, com a tese: Da veiculação microbiana pelas águas.

Nessa cidade clinicou até 1896, quando foi aperfeiçoar seus conhecimentos, principalmente de bacteriologia, na França. Depois de um estágio na Alemanha, voltou ao Brasil em 1899. “Em 1900 foi um dos criadores do Instituto Soroterápico de Manguinhos (zona Norte da cidade do RJ), destinado sobretudo à pesquisa e desenvolvimento de vacinas e cuja direção assumiu em 1902. A instituição firmou-se como centro técnico e experimental ( o médico é considerado o fundador desse ramo da Medicina no Brasil) de grande renome – seu diretor conseguiu reunir uma excelente equipe de jovens pesquisadores – e em 1908 passou a se chamar Instituto Oswaldo Cruz, depois subordinado à Fundação Oswaldo Cruz” (1). Daí o nome da respeitável FIOCRUZ, buscando resultados científicos incansavelmente.

Em 1903, o pesquisador assume o cargo de diretor-geral da Saúde Publica, com a tarefa de erradicar a epidemia de febre amarela com ocorrências na cidade desde de 1902. Para tal, “iniciou rigoroso programa de combate à moléstia, com isolamento dos doentes, vacinação obrigatória e campanhas para eliminar os focos do mosquito. A campanha sofreu cerrada oposição ´por parte dos positivistas (Benjamin Constant, por exemplo), de políticos e de vários jornais cariocas” (1).

Em 1904, eclodiu uma revolta da Escola Militar com apoio da classe operária contra as propostas do governo Rodrigues Alves, que fio chamada de “quebra-lampião”, mas foi dominada pelo general Hermes da Fonseca – futuro presidente do Brasil. No entanto, o diretor Oswaldo “não cedeu em nenhum momento e, graças às medidas que tomou, registraram-se apenas 39 casos de febre amarela no Rio de Janeiro em 1906; quatro casos em 1907; e nenhum caso em 1908. As medidas profiláticas acabaram também com as epidemias de peste bubônica e varíola” (1).

O sanitarista procedeu ainda uma profunda mudança no código sanitário e reformulou todos os órgãos de saúde, “com grandes benefícios para a higiene e economia do país”. Esse êxito repercutiu positivamente, é claro, dentro e fora do país. Assim, em 1907, quando do XIV Congresso Internacional de Higiene e Demografia, em Berlim, entre 123 expositores do evento, o júri conferiu a medalha de ouro ao Brasil.

No entanto, em 1909, o pesquisador deixou a direção da Saúde Pública, por motivo de doença. Mesmo asim, não se resignou ao ócio: em 1910 seguiu para a Amazônia Rondônia, Amazonas e Pará) onde fez um estudo de saneamento, que resultou no trabalho: Madeira-Mamoré Railway Company: considerações gerais sobre as condições sanitárias do rio Madeira. Ainda elaborou um plano de saúde do vale do Amazonas e saneou a cidade de Belém (PA). Mesmo doente, ainda reuniu forças físicas para representar seu país nos Congressos que ocorreram em Dresden, Alemanha, na Cidade do México e em Montevidéu.

Em 1913, foi eleito para a ABL e empossado para ocupar a cadeira deixada pelo escritor Raimundo Correia, apesar da polêmica criada por alguns imortais por não considerá-lo um autêntico representante da prosa e do verso, mas da ciência, em si. “Da sua bibliografia constam cerca de 50 títulos, em memórias, teses, pesquisas médicas e relatórios científicos, além do discurso de posse na academia” (1).

Em 1916, o cientista foi nomeado prefeito de Petrópolis. Mesmo com a saúde debilitada, assumiu o cargo em 8 de agosto daquele ano. Mas, poucos meses depois, em janeiro do ano seguinte, renunciou ao cargo. Poucos dias depois desse ato, ou seja, em 11 de fevereiro de 1917 ( há 104 anos), morreu Dr. Oswaldo naquela cidade, aos 45 anos, nos deixando um exemplo de luta na defesa da vida, e absoluta convicção na eficácia da Ciência. Legado esse utilizado até hoje em prol das sociedades, não apenas a carioca ou a brasileira, mas mundial.

“‘O senhor fez o mesmo que Hércules. Matou a Hidra. É um benfeitor da humanidade”. Com essas palavras o escritor francês Anatole France, durante visita ao Rio de Janeiro em 1906, Saudou Oswaldo Cruz, aludindo ao fato de ter o sanitarista brasileiro conseguido erradicar a febre amarela na então capital federal e organizado o combate à peste bubônica é à varíola” (1).

Em 2004, o historiador, professor da UFRJ, José Murilo de Carvalho, publicou confiável artigo sobre aquele fato ocorrido no Rio. De início, ele escreve: “Há exatamente um século, o carioca liderava a maior revolta urbana a que o Rio de Janeiro já assistiu, dizendo “Não!” à obrigatoriedade da vacina contra a febre amarela e a varíola e à invasão de seus lares imposta pelo governo” (2).

Com 800 mil habitantes, além de ser “uma cidade perigosa”, as comunidades padeciam com a (o): “tuberculose, febre amarela, peste bubônica, varíola, malária, tifo, cólera, e outras enfermidades contagiosas vitimavam a população e assustavam os estrangeiros. A capital da jovem República era uma vergonha para a nação” (2).

Rodrigues Alves, presidente do Brasil, eleito para o período de 1902-1906, nomeou Oswaldo Cruz para implantar políticas de saneamento na capital, que mexeria com a vida de todo mundo, sobretudo dos pobres. “Em junho de 1904, o governo propôs uma lei – aprovada em 31 de outubro – que tornou obrigatória a vacinação” (2). A reação contrária, foi imediata: cerca de 15 mil pessoas assinaram petições.

Poucos dias depois, isto é, no dia 9 de novembro, o sanitarista “propôs uma drástica regulamentação, exigindo comprovantes de vacinação para matrículas em escolas, empregos, viagens, hospedagens e casamento. Estava até previsto o pagamento de multas para quem resistisse” (2). Como vazou para a imprensa, o povo não concordou e a indignação se alastrou, resultando na maior revolta da cidade.

O motim começo no Largo de São Francisco, chegando a pontos distantes, como Copacabana, por exemplo. Os maiores redutos da ira popular foram Sacramento e Saúde. Para manter a ordem, o governo convocou a polícia, o Exército e a Marinha. No dia 16 de novembro, foi decretado “Estado de Sítio” pelo presidente. Nos dias seguintes, “a polícia iniciou uma varredura das áreas atingidas pela revolta, prendendo quem lhe parecesse suspeito”. Resultado: “945 pessoas presas na Ilha das Cobras, no final das operações de busca dos supostos culpados. Nas ruas, o saldo de vítimas era desolador: 30 mortos, 110 feridos e 461 deportados para o Acre sem qualquer processo” (2).

Como classificar tudo isso? Para a “oposição, o povo – estudantes, operários, comerciantes e militares – é que tinha se rebelado”; para o governo e seus apoiadores, “a revolta era obra de desordeiros, arruaceiros, desocupados. A elite intelectual concordava. O poeta Olavo Bilac atribuía os acontecimentos à “matula desenfreada”, à “turba-multa irresponsável de analfabetos”‘ (2).

Nem oposição, nem governo, “na raiz dos distúrbios estava um problema sanitário sério. Oswaldo Cruz escolhe três doenças como foco de sua empreitada: a febre amarela, a peste bubônica e a varíola”, e, para combatê-las “as brigadas de mata-mosquitos saiam pela cidade invadindo residências, cortiços, casas de cômodos. Limpavam, desinfetavam, exigiam reformas e interditavam esses ambientes, removendo os doentes de seus lares. Só no segundo semestre de 1904, foram 110 mil visitas” (2).

ACREDITE ou NÃO: para controle da peste bubônica era necessário o extermínio de ratos e pulgas. “O governo, acreditando poder assim tornar mais eficaz o trabalho, decidiu comprar ratos. Não demorou para que o carioca começasse a criá-los para faturar uns trocados. Um ou outro chegou mesmo a importar o roedor de Niterói para vendê-lo no Rio” (2).

O historiador indaga: “Exatamente um século depois da Revolta da Vacina, quais conclusões podem ser tiradas daqueles dias turbulentos de novembro de 1904? Não foi problema de ordem econômica – país crescia; os operários só representavam 20% da população local, etc. Quais foram os fatores, então? “Para o “povão” se a intervenção sanitária não foi exatamente o principal motivo das manifestações, contribuiu para tal. Pois, a revolta deixou entre os participantes um forte sentimento de auto-estima, indispensável para formar um cidadão” (2).

Mesmo que a vacinação fosse aplicada no braço, nos postos médicos ou em casa, com o auxílio de uma lanceta, instrumento cirúrgico de dois gumes, a revolta, teve força de justificação moral – e os limites à intromissão do governo fizeram com que a população do Rio de Janeiro se revoltassem contra a campanha -, na qual “houve um trágico desencontro de boas intenções, as de Oswaldo Cruz e as da população. Mas em nenhum momento podemos acusar o povo da falta de clareza sobre o que acontecia à sua volta” (2).

Então, as campanhas de combate às epidemias e a vacinação obrigatória e as ações do Dr. Oswaldo, o qual “foi massacrado, acusado – pela sociedade de alto a baixo – de despótico e arbitrário, quando não de irresponsável”, foram os únicos motivos para revolta em questão? Para políticos e líderes dos trabalhadores de então, sim. Para Rui Barbosa, também. Para ele, as medidas governamentais eram uma violação dos direitos civis e constitucionais dos indivíduos. Sobre as vidas salvas das doenças, nada. Nenhum reconhecimento por entidades não governamentais de caráter religioso ou não.

De lá para cá, já são passadas quase 12 décadas da “Revolta da Vacina” ou da “Vacina da Discórdia”, a capital do Rio não vive mais uma epidemia, mas uma pandemia. Aliás, o mundo vive uma PANDEMIA, cujas vidas são ceifadas minuto a minuto. Assim, ressurgiram as mesmas palavras: campanhas de prevenção, vacina, vacinação, obrigatoriedade de aceitação ou não. Como devem agir governantes, populações e Ciência?

Por Angeline e Francisco Gomes.

Fontes: 1. Nova Barsa. – SP: Britannica do Brasil, vol. 5, 1999, pp. 14/15; 2. Carvalho, José Murilo. “Abaixo a vacina!”. Revista nossa História. – RJ, ano 2, nº 13, nov/2004, pp. 74/79.

5 comentários em ““A vacina da discórdia”

  1. Boa tarde!
    A historia se repete?
    O conteúdo abordado nos diz que sim, trazendo para os dias atuais. Percebo agora o quanto devemos para esse sanitarista.
    Só o facetas para abordar e trazer à tona um pouco dessa historia, o que a mídia nao divulga para qye o povo continue a mercê de uma elite pervesa.

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  2. Bom dia!
    Se essas questões fossem abordadas em salas de aula, desde o ensino fundamental até o ensino médio teríamos cidadãos mais esclarecidos, livrando se dessas manobras covardes da classe governantes.

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