Leci Brandão: Essa tal criatura

Publicada no j. Lampião da Esquina, ed. 6, nov/78.

O Festival MPB 80 da Rede Globo, resultou em dois excelentes discos com “as 20 músicas finalistas e mais os melhores intérpretes e melhores arranjos”. Dessas, algumas foram sucessos nacionais: Porto Solidão, Foi Deus Quem Fez Você, Essa Tal Criatura, Demônio Colorido, entre outras.

Foi a partir de Essa Tal Criatura, que “colei” meus ouvidos às músicas de Leci Brandão, pela beleza de seu samba, sua voz, seus versos, sua pessoa, entre outros fatores. Esse música, é fantástica! Eu ouvia, ouvia… perguntava às pessoas qual era o seu contexto, e ninguém sabia. Isso, ainda nos anos 80. Continuei comprando seus discos: “Leci Brandão” (85), “Um Beijo No Seu Coração” (88), “As Coisas Que Mamãe Me Ensinou” (89), “Cidadã Brasileira” (90), “Atitude” (93), “Um Ombro Amigo” (93), etc. CDs e DVs, também.

O tempo foi passando e eu percebia o quanto essa artista se tornava cada vez mais importante no cenário da música nacional com a sua arte, seu engajamento às causas sociais. Seu ingresso na Ala dos Compositores da Mangueira como a primeira mulher a fazer parte desse seleto grupo de bambas, foi algo marcante. Ela canta, encanta. Por exemplo, a interpretação de Agradeço a Vida (85), uma versão de Martinho da Vila, de Gracias A La Vida, da cantora chilena Violeta Parra, é quase divina. Emocionante! Uma prece!

Tem mais: num de seus discos, Leci é autora desses versos memoráveis: “Deus, Deus, Deus, Deus/Que ele me ilumine e ilumine os companheiros meus/Trazendo a força, a magia e a fé/Muito além da minha consciência./Imagine se dar condições ao trabalhador:/Ordenado era pouco/E fundiu a cabeça do chefe de família./É melhor refletir pra tentar conservar/Sem condenar, sem destruir/Duas almas quase irmãs…/Você é carinho, eu sou a paixão/Andam dizendo que é amor./Blusões, botões, pimentões…/Um resultado das coisas que mamãe me ensinou”.

Essa é a estupenda poética de Leci, que não para por aí. Suas palavras, seu todo, têm endereço certo: o coração. No LP “Cidadã Brasileira” (90), canção homônima de Martinho da Vila, uma louvação à mulher. Á mulher brasileira, principalmente. Nesse trabalho, a cantora faz esse registro. Recado direto ao exercício de cidadania:

“A consciência dos direitos e deveres conduz a sociedade para uma atuação plena e organizada. Isto é o mesmo que dizer “SINDICALE-ZE” como na contracapa do disco anterior. Somente um povo que tenha identidade (raízes, cultura) realiza conquistas. O autoritarismo, a violência contra o povo, não nos tiram a condição de filhos da terra, sujeitos da História.

É uma grande farsa dizer que somos apenas o país da festa e que tudo acaba em samba e futebol. Já rolaram muitas lágrimas, muitas vidas se perderam. É sofrimento, desemprego, marginalidade, analfabetismo, preconceito, fome, revolta.

Cabe a nós, participar trabalhando, exigindo e principalmente TRANSFORMANDO.

Assinado: Leci Brandão da Silva, filha de Antônio Francisco da Silva e Lecy de Assumpção Brandão, natural do Rio de Janeiro, descendente do continente africano de país ignorado, mas acima de tudo, cidadã brasileira” (1).

Leci, no entanto, segue com a sua missão, cujo lema é este: clamar por IGUALDADE, LIBERDADE e FRATERNIDADE. Como fica mais evidente no disco “Atitude” (93), onde a versátil compositora, foi buscar no dicionário a origem e o conceito etimológicos da palavra ATITUDE, onde encontrou o seguinte: (Do latim attitudine, através do francês attitude.). E, no bom Português: “Modo de proceder ou agir, comportamento, procedimento”. Fechando o assunto com esse questionamento lapidar: “Qual foi sua atitude em face do desafio?”

Ainda em 93 lança “Um Ombro Amigo” com 13 grandes sucessos de sua carreira. Entre eles, Essa Tal Criatura. Foi aí que descobri o recado dessa canção: a livre escolha de orientação sexual das pessoas. Percebi então, o quanto foi difícil para essa guerreira, defender uma bandeira (podia ter sido qualquer outra). Porém, teve muita coragem e resignação pata tal. E acima de tudo, respeito aos contraditórios. Mas, soube com maestria, superar as adversidades (entraves de caráter racial, sexual, social, etc), com invejável dignidade, que lhe é peculiar.

Em novembro de 78 – época em que não eram bem-vistos aqueles que ousassem falar a verdade -, ela quebra tabus e fala. Fala na condição de “mulher, negra e homossexual”. Falou lindamente, altivamente. Mas, sem essa do dedo em riste, o seguinte, para o jornal Lampião da Esquina, edição nº 6:

“A gente já é marginalizado pela sociedade, então a gente se une, se junta e dá as mãos. E um ama ou outro sem medo e sem preconceito.

Quero que as pessoas enxerguem meu lado homossexual como uma coisa séria, que haja respeito”.

Aparentemente foi muito simples leva-la a sério e respeitá-la. Mas não foi. Ela é a única de destaque do mundo artístico brasileiro a assumir a sua orientação sexual publicamente, e a pautar-se por uma conduta sempre engajada na política, como mulher, lésbica, negra e de origem humilde. E completando diz: “Luto pelos ideais do meu povo através dos versos musicados. Meu trabalho é social (…). Não bajulo quem nos consume a cada dia. Sou brasileira. Consciente. Atual. E principalmente sincera nas atitudes” (2).

A seguir, a íntegra desse hino cada vez mais atual. Hino do amor, da liberdade, da homoafetividade: Essa Tal Criatura.

“Tira essa bota/Pisa na terra/Rasga essa roupa/mostra teu corpo/Limpa esse rosto/Coma poeira/Suja essa cara/Sinta meu gosto/Morda uma fruta madura,/Lamba esse dedo melado/Transa na mais linda loucura,/Deixa a vergonha de lado/Corra no campo/Leva um tombo/Rala o joelho/Mata esta sede/Durma na rede/Sonha com a lua/Grita na praça/Picha as paredes/Ama na maior liberdade… abra, escancara esse peito/Clama! Só é linda a verdade,/nua sem ser preconceito/Tira essa fruta/Lava essa terra/Pise nas paredes/Sinta esse tombo/Rala esse rosto/Transa com a lua/Morda essa cara/Linda, tão nua…/Faça da vergonha, loucura…/Abra, escancara a verdade/Ama essa tal criatura/Que envergonhou a cidade” (2).

Clama! Só é linda a verdade, nua sem preconceito. Essa Tal Criatura, é uma mulher de 41. Linda. Livre. Branca. Negra. Índia. Atualíssima. Profética. De mãos dadas com o amor. Respeitadora de tudo e de todos: dos sabores, das cores e da vida, acima de tudo. Por um lado sua sagrada mensagem é um tapa na “cara dos caretas”. Por outro, é a mais bela expressão poética do ser humano: do cair e do levantar-se; do sorrir e do chorar; do querer e do prazer; da doação e da aceitação. Do viver, sempre.

Atitude sim. Sem preconceito. Viva Leci!

Por Angeline e Francisco Gomes

Fontes:

1. LP “Cidadão Brasileira”, de Leci Brandão, SP: Gravadora Copacabana, 1990. 2. https://memoriamhb.blogspot.com

Um comentário em “Leci Brandão: Essa tal criatura

  1. Fantastico! Que premazia de texto dessa estupenda Leci! Confesso a vc que em 1980, como vc cita no início, adquiri o LP com 20 melhores musicas finalistas daquele festival, logo de início não entendia o porquê de “Demonio Colorido”, achava meio bizarrava, talvez por ter a palavra demônio, mas no decorrer do tempo, comecei a perceber o seu verdadeiro sentido e “Essa tal Criatura”, veio abrir com chave de ouro, a minha percepção sobre suas belas atitudes, sobre o empodeiramento social.
    Parabens Facetas👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼

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