Thiago de Mello: 100 anos

“Volto armado de amor/para trabalhar armado/na construção da manhã./Reparto a minha esperança/e canto a clara certeza/da vida nova que vem” (Thiago de Mello).

A nossa equipe, que pesquisa e semanalmente publica aqui mesmo no Facetas um artigo sobre literatura, música, biografias, etc, reuniu na semana passada: livros, reportagens e o LP “Mormaço na Floresta”, no qual o poeta recita os principais poemas, com música de fundo do filho Manduka, para esta homenagem dos 100 anos do nascimento do Amadeu. Confessamos, não foi uma tarefa fácil. São tantos poemas belos e versos memoráveis (“Faz escuro mas eu canto”, “Não tenho um caminho novo. O que de novo é um jeito de caminhar“, “Volto armado de amor”, “O homem confiará no homem como um menino confia em outro menino”, entre outros), que a gente fica atônito, poeticamente falando.

Amadeu Thiago de Mello nasceu no interior do Estado do Amazonas, no dia 30 de março de 1926 – há exatos 100 anos -, como o próprio diz em depoimento concedido ao poeta e professor amazonense Tenório Telles, para a confecção do CD-ROM O Amazonas Em Sua Literatura: “Eu nasci na beira do paraná do Ramos, no Munícipio de Barreirinha, num lugar chamado Bom Socorro. E nesse lugar eu vivi pouco mais de 4 anos. Eu tenho as minhas primeiras lembranças já das águas, das nuvens, dos pássaros, das estrelas e da floresta. […] E em Manaus eu vivi o período mais luminoso da minha infância e todo o começo da minha juventude. […] Eu aos 9 anos de idade já tinha lido poemas de Cassimiro de Abreu, eu já sabia ouvir “Estrelas”, de Bilac. Eu sabia de memória o soneto, um dos mais belos da língua portuguesa, “A Carolina”, de Machado de Assis. Então, no ginásio, eu lia Drummond, eu lia Manuel Bandeira, eu sabia “Essa Negra Fulô”, de Jorge de Lima” (1).

Aos 23 anos, em 1949, ele partiu sozinho para estudar medicina no Rio de Janeiro, mas logo abandonaria os estudos (no 5º período) pela poesia. O jovem já sabia “que o homem era capaz de criar a beleza”, apesar de ter consciência “que a vida humana, nesse lugar chamado Terra, e mercada por profundas e terríveis desigualdades sociais. E já sabia que o amor era possível e que uma das mais belas formas de amor, é a amizade”. Porém, entre a literatura e ciência, optou pela primeira, deixando entristecido o seu próprio pai.

O futuro grande poeta, procurou então, Carlos Drummond de Andrade, no Ministério da Educação, com quem deixou os seus poemas para um “parecer”. Quando retornou, três dias depois, ouviu do poeta mineiro, já deveras consagrado nacionalmente, “você é poeta” Faça, portanto, o que você quiser (demovê-lo da ideia de não abandonar a medicina), ainda nesse segundo encontro, o mineiro quis saber onde o amazonense havia aprendido a métrica, sobretudo as tônicas jâmbicas; seu domínio sobre a palavra, o rigor da construção poética. E como resposta, ouvido: “sozinho, lendo alguns livros. Eu desde menino gostava muito da musicalidade, da sonoridade dos poemas e da prosa também; a verdadeira prosa tem que ter a cadência, como diz Borges” (1).

Assim nascia aquele que foi o notável poeta Thiago de Mello, cujo primeiro livro, Silêncio e Palavra foi lançado em 1951. Daí em diante, tornou-se o que afirmou Antônio Callado: “É um dos poetas de mais pura dedicação que já tivemos no Brasil. Sofisticado na técnica, Thiago parece ter guardado sabe Deus que ativismo de poesia oral, pois seu verso invariavelmente corre pela página um arroio”.

“Envolveu-se politicamente a partir de 1964, quando era adido cultura do no Chile, recebendo refugiados em sua casa. Aliás, foi nesse mesmo ano, que em abril, escreveu o seu poema mais popular” (2) Os Estatutos do Homem, que até o início dos anos 80, já havia sido traduzido para mais de 20 idiomas e musicado pelo alemão Peter Jassens. Esse poema foi dedicado ao jornalista e escritor carioca Carlos Heitor Cony (1926-2018), que à época era duramente perseguido pela ditadura militar (foi preso seis vezes, teve sua casa invadida e foi obrigado a deixar o jornal Correio da Manhã, por conta de suas severas críticas aos militares.

No Chile, onde iniciou seu exílio, fugindo do regime brasileira, Thiago tornou-se amigo do poeta chileno Pablo Neruda. Por causa dessas circunstâncias ditatoriais, o amazonense ficou fora do Brasil por quase dez anos (de 1968 a meados de 1970). Depois de Santiago, residiu ainda na Argentina, Alemanha e Portugal, sempre atuando no ofício de poeta.

E assim sendo, ou seja, por mais de seis décadas ouviu-se o canto poético de Mello em seus mais de 20 livros lançados por ele. Sendo 12 deles, de poesia, que falam, acima de tudo, do amor, da vida, da liberdade. Obras que jamais perecerão no tempo. Mas, no dia 14 de janeiro, portanto, Thiago de Mello falecia em Manaus (AM), numa sexta-feira, aos 95 anos de idade. No entanto, os seus versos farão parte da vida daquele que amam a poesia, por mais 100 anos, no mínimo.

Notinha útil – Dedicamos a todas as mães, nesse segundo domingo de maio de 2026, sejam leitoras deste blog ou não, estes comoventes versos, da poetisa carioca Cecília Meireles (1901-1964), in Vigília das Mães: “Nós estamos aqui, nesta vigília inexplicável,/esperando o que não vem, o rosto que já não conhecemos./Nossos filhos estão onde não vemos nem sabemos./Nós somos as doloridas do mal que talvez não sofram,/mas suas alegrias não chegam nunca à solidão de que vivemos,/seu único presente, abundante e sem fim” (www.facetasculturais.com.br).

Por Angeline e Francisco Gomes e Winnie Barros.

Fontes consultadas: 1. Mello, Thiago de. Os Estatutos do Homem, 3ª ed. – Manaus: Editora Valer, 2001; 2. Mello, Thiago de. Mormaço da Floresta. SP: Círculo do Livro, 1984. A foto deste texto é uma ilustração da pintora chilena Agna Aguadé, feita para Os Estatutos do Homem.

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